Por: Glória Maria | Isabela do Carmo | Jacqueline Maria da Silva | Rafaela Monteiro | Raphaela Guimarães | Simony Maia
Edição: Sarah Fernandes
Arte: Magno Borges
Publicado em 07.07.2026 | 14:11 | Alterado em 07.07.2026| 14:14
Repressão, racismo e disputa política ameaçam bailes funk em São Paulo
Tempo de leitura: 9 min(s)O duelo de som alto dos paredões, a batida constante que faz o corpo querer dançar, a vibe dos DJs e as letras diversas, que vão de conteúdo adulto à mensagens críticas. São exatamente essas características que atraem jovens para os bailes funks das quebradas da Grande São Paulo.
Uma delas é Fernanda Santos Caly, 23, moradora de Mogi das Cruzes. A jovem, hoje estudante de música na USP (Universidade de São Paulo), começou a frequentar bailes aos 14 anos e tomou gosto. Aos 17, se deslocava pela Grande São Paulo para ir a festas mais famosas, como o Baile do Helipa, em Heliópolis, o Baile da 17, em Paraisópolis, ambos na zona sul, o Marcone, na zona norte, e o Pantanal, na zona leste.
“Eu saía com R$20 no bolso, tendo que pagar R$10 de passagem. Eu não tinha outra escolha [de lazer]. Ou eu estava no baile ou eu ficava em casa. Esse é o diferencial: a acessibilidade. Hoje eu trabalho, tenho condições de ir para outros lugares, mas escolho estar no baile porque é o estilo de música que mais gosto”, argumenta.

Opção de lazer, valorização das quebradas, oportunidades artísticas e até ação social. É assim que o DJ Samuel Lucas de Sousa Chester, 24, vê os bailes do bairro Vera Cruz, em São Mateus, na zona leste, onde mora.
Alguns dos eventos da região eram organizados após ações beneficentes, como festas comunitárias de dia das crianças e a campanha Natal sem Fome. Foi em uma dessas ocasiões que ele teve a chance de cantar pela primeira vez, em 2017.
“Quando cantei foi muito da hora, uma experiência marcante, porque eu já tinha visto aquele movimento de longe e naquele momento me senti parte dele”,
Samuel, de São Mateus.
Só que agora, Samuel e Fernanda lamentam que outro movimento esteja tomando conta das periferias: a pressão pelo fim dos bailes funks.
Em diversas quebradas da Grande São Paulo bailes funks tradicionais têm acabado ou reduzido significativamente, como resultado de repressão policial, racismo estrutural e disputas políticas sobre quem pode ocupar o espaço público.
Não existem dados oficiais sobre a quantidade de bailes funks de São Paulo que deixaram de acontecer. Um levantamento da Agência Mural mostra que ao menos dez pancadões muito tradicionais foram extintos só em 2026, incluindo o Baile do Bega, em Paraisópolis, o Baile do Capelinha, no Capão Redondo, e o Baile da 7, em Cidade Tiradentes.
Outros cinco reduziram significativamente de tamanho, atraindo menos pessoas e menos eventos. Entre eles estão os tradicionais Baile do Helipa, em Heliópolis, e o Baile da Rotatória, em Cidade Tiradentes.
O principal motivo para o fim ou esvaziamento dos bailes é a repressão policial às festas e a seus frequentadores. Para evitar “perturbação do sossego” e impedir “aglomerações em vias públicas”, não raro a polícia militar dispersa bailes com truculência. Um dos casos mais marcantes foi o Massacre de Paraisópolis, em 2019, quando uma ação policial para dispersar um pancadão encurralou 5 mil pessoas em uma viela. Nove morreram e diversas ficaram gravemente feridas.

“A forma como eles abordam é seletiva. Eles não estão querendo acabar com o crime, mas com a cultura. Qualquer discurso que venha junto com esse tipo de abordagem cai por terra”, diz Fernanda.
No Dia do Funk, comemorado hoje (7), a Agência Mural percorreu diferentes periferias da Grande São Paulo para mapear os bailes que acabaram ou reduziram e entender como esse movimento afeta os jovens moradores das periferias. A data marca a memória de MC Daleste, morto na mesma data durante um show em Campinas em 2013.
Paredão do baile funk são as grandes estruturas de alto-falantes potentes empilhados nas ruas ou colocados no porta-malas de carros e traseiras de caminhões.
O fechamento de bailes funks ocorre em diversas cidades da Grande São Paulo e em todas as regiões da capital paulista, como em Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo – distrito famoso pela quantidade de pancadões. É o que conta o marmorista Luís Fernando, mais conhecido como MC Menor LF, 21, que mora na Favela da Márcia.
“Comecei a frequentar os bailes aos 11 anos. Na época, os que mais pegavam eram As casinhas, o Baile da 15G e a Rotatória. Depois começou a ficar famoso o Baile do Céu, e agora acabaram com ele”, lamenta o jovem.

O funk começou a ganhar espaço no Brasil na década de 1980, influenciado pelo rap e hip hop norte-americano, mas trazendo o teor político do funk estadunidense. O ritmo cresceu entre os cariocas e a partir da década de 1990 tomou conta das periferias de São Paulo, com surgimento dos grandes bailes entre 2000 e 2010.
A partir daí, a perseguição ao funk se intensificou. O estado de São Paulo passou a tratar os pancadões como problema de segurança e de “som alto”, com respaldo de leis. Entre elas, está a “Lei do Pancadão” (Lei 15.777/2013), regulamentada em 2014 pelo então prefeito Fernando Haddad (PT), que prevê multa para veículos estacionados com som alto em vias públicas.
Dois anos depois, o governo estadual, sob gestão na época de Geraldo Alckmin (então do PSDB) sancionou a Lei 16.049, estendendo a proibição de sons de “alto nível” em carros parados para todo o estado, com multas e apreensão de veículos e aparelhos. A norma foi rebatizada na gestão de João Dória (PSDB), em 2019, como “Operação Paz e Proteção”, que seguiu perseguindo os bailes.

As ações contra bailes funks se consolidaram, em geral, como batidas policiais. Não raro, elas realizam o encerramento compulsório de festas, dispersão de público e abordagens violentas, muitas vezes com bombas, tiros e agressões contra jovens e moradores.
Ao todo, 80% dos jovens já presenciaram algum episódio de violência policial no Baile do Helipa, em Heliópolis, de acordo com levantamento do Observatório De Olho na Quebrada, de 2023.
Já na favela de Paraisópolis, houve um crescimento progressivo do número de operações policiais em bailes, passando de uma em 2016, para 131 em 2022, segundo a pesquisa “Pancadão, uma história de repressão aos bailes funk de rua na capital paulista”.
Entre os 15 bailes mapeados pela Mural, todos acabaram ou tiveram significativa redução de público devido a abordagens policiais.

Foi frequentando os bailes de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, que o funkeiro Alexandre Vinícius, 32, conhecido como Vini DF, começou sua trajetória na música. No baile da DZ7, um dos mais conhecidos da capital paulista, o artista teve contato com outros MCs, DJs e produtores culturais, que abriram portas para ele divulgar suas primeiras músicas.
Mas o cenário atual não favorece o corre de quem vive dos eventos. A polícia tem abordado com violência moradores e frequentadores dos pancadões de Paraisópolis, como relatam artistas da região. Essa repressão tem levado ao esvaziamento dos eventos e fechamento dos comércios que atendiam as festas.

“De uns 3 anos pra cá a polícia passou a ficar na esquina, acabando com o baile. Foi um jeito de nos calar. O baile era um espaço onde a favela podia se expressar, mostrar o que sente e o que vive no dia a dia. Eles fazem parte da identidade cultural da periferia e representam um espaço de convivência para moradores, comerciantes e jovens da comunidade”, comenta Vini DF.
Segundo o MC, o fim dos bailes impactou a divulgação de suas músicas, já que o DJ que o produzia deixou de frequentar a comunidade. Sem ele, os artistas locais acabaram perdendo visibilidade.
“O baile da DZ7 era muito grande e minhas músicas tocavam lá. Como está acontecendo essa opressão, não tem mais música, baile, DJ, MC e nem gravação de clipe. E, querendo ou não, isso impacta todo mundo que trabalha com funk”,
Vini DF, de Paraisópolis.
A quase 40 quilômetros de lá, no Jardim Conquista, em São Mateus, na zona leste de São Paulo, a situação se repete. O modelo e MC Yuri Rodrigues, morador do bairro, já viveu na pele a coação policial durante a gravação de clipes no extinto baile da ‘Lava Jet’, em 2017. “O policial disse que a gente estava mentindo [sobre a gravação do clipe]. Não quis ver o vídeo e falou ‘só não olha para trás’”, lembra.

Para os frequentadores, o fim dos bailes funk representa menos oportunidades de lazer e diversão. Para os músicos, MCs e funkeiros, significa menos divulgação e mais apagamento da cultura das quebradas. Mas há um terceiro sujeito nessa equação: os comerciantes locais, para quem o fim dos bailes é também redução de trabalho e renda.
“Tem a tia do pastel, o pessoal que vende lanche, bebida e doce. Tem muita gente que depende desse movimento para colocar dinheiro dentro de casa”, defende Alexandre, o Vini DF, de Paraisópolis.
O incremento dos bailes no comércio local é tanto que, em Heliópolis, os próprios comerciantes organizam pancadões na comunidade, em determinados pontos da quebrada.

Até há alguns meses, eles se reuniam para alugar paredões (a um custo de até R$4 mil) e dividiam o valor entre os estabelecimentos participantes. O lucro em uma única noite chegava a 10 vezes mais do que o valor investido, como lembra Gleidson Bezerra, 40, proprietário há sete anos do Mercadinho Preço Justo, em Heliópolis.
Porém, com as constantes batidas policiais, os eventos passaram a reunir poucas pessoas e deixaram de gerar lucro suficiente para compensar os gastos com a estrutura. Os bailes que continuam acontecendo em Heliópolis têm menos planejamento prévio.
Segundo o comerciante, os policiais chegam ordenando o encerramento das atividades, o fechamento dos estabelecimentos e a dispersão do público.
“Para muitos o baile era o que garantia uma renda a mais e movimentava o comércio. Quando os eventos foram acabando, muita gente perdeu uma fonte importante de faturamento. A gente fazia os bailes porque precisava trabalhar, eles traziam movimento para a região”, contesta o morador de Heliópolis.
Especialistas apontam que as perseguições e sufocamentos dos bailes funks, que culminam no seu fechamento ou esvaziamento, tem raízes no preconceito e no racismo que atravessa a história do Brasil.
O funk foi criado e propagado pelo povo preto das periferias. A pressão, então, não é contra o estilo de música, mas contra quem o faz. “Até porque dentro do funk existem vários estilos. O que é mais de ‘playboy’ e não é tão consumido na periferia não é muito demonizado”, comenta Thiago de Souza, 37, professor de música clássica e doutor em funk pela USP.

O especialista reforça que parte da perseguição vem por grupos radicais de extrema direita, que tentam ganhar visibilidade com discursos contrários ao funk e o engajamento que eles trazem.
Um exemplo foi o encerramento da exposição “Funk: um grito de ousadia e liberdade”, que aconteceu no Museu da Língua Portuguesa, até 31 de maio de 2026.
No começo daquele mês, o deputado estadual Tenente Coimbra (PL) fez uma denúncia ao Ministério Público (MP) de São Paulo alegando que a exposição faria “narcocultura”, a exaltação e romantização do narcotráfico. Ainda não há conclusão do procedimento instaurado pelo MP, mas a mostra, que ficaria no museu até agosto deste ano, foi encerrada três meses antes do previsto.
“Quadros [clássicos] têm cenas de nudez e armas. O pânico moral adora esse tipo de crítica, mas esquece que a história da arte traz o tempo todo pessoas peladas e cenas de guerra. Isso é a história da arte”, compara o professor.

Para a deputada estadual Ediane Maria (PSOL), coordenadora da Frente Parlamentar do Funk na Assembléia Legislativa de São Paulo, há subversão no papel da polícia durante os bailes. Ela avalia que as ações, ao invés de prezar pela segurança pública e proteção dos jovens que frequentam os eventos, acabam seguindo a via da coação, repressão e apreensão.
“Quando abrimos esse debate, falamos também de uma segurança pública que não mate, não abafe, não sufoque, não afaste o jovem do lugar que ele é dele. O Estado e as prefeituras precisam entender que eles são jovens periféricos, com menos acesso à cidade. Eles se organizam onde têm espaço, que é nos becos e vielas das comunidades”, complementa.

Muitas vezes a discriminação é também individual, contra MCs e frequentadores dos bailes. Fernanda, funkeira e estudante de música na USP, conhece bem essa realidade. Ela afirma sofrer preconceito de docentes e alunos dentro da universidade por levantar discussões sobre funk e sobre as novas produções das quebradas.
“Quando eu entrei na USP sendo funkeira, imaginei onde eu estava pisando. Meu primeiro contato lá foi um choque. O funk também não é visto como manifestação cultural, mas sim como um ataque aos valores tradicionais”,
Fernanda, de Mogi das Cruzes.
Fernanda já presenciou posicionamentos racistas, machistas e de desvalorização do ritmo que, segundo ela, é frequentemente comparado com a música erudita.
“Enquanto tentamos criar espaços nas universidades, os bailes são encerrados com tiro e bomba pela PM na favela. A maioria dos professores e alunos da USP não sabe o que é isso. E quando eu falo, eles debocham e até apoiam a PM na minha frente”, desabafa.
A repressão aos bailes funks pode ter mudado a dinâmica dos territórios, mas não mudou a identificação dos jovens com o ritmo. Além de lazer e cultura, o funk é para eles uma forma de expressão e manifestação política, com espaço para extravasar dores e elevar a autoestima.
“Sem os bailes, agora as opções de divertimento são tabacarias, adegas e, pra quem gosta, balada fechada”,
Luís Fernando, de Cidade Tiradentes.
Como ele, os entrevistados passaram a frequentar locais fechados, como baladas e casas de shows, algumas vezes em outros distritos da cidade. Isso representa mais gastos e menos dinheiro circulando na quebrada.
Por isso, os funkeiros pedem urgência em políticas públicas que possam barrar as repressões aos bailes, em especial projetos para organizar e garantir a continuidade de pancadões e fortalecer a cultura das periferias.

A Frente Parlamentar do Funk da Assembléia Legislativa de São Paulo foi criada com essa finalidade. O grupo quer incluir o funk no orçamento público, garantindo recursos para eventos, e trabalhar coletivamente com pessoas que estão à frente dos bailes, incluindo moradores, funkeiros e organizadores.
“O baile está na comunidade. Estamos falando de locais que não tem saneamento básico e não tem casas regularizadas. O que aquele território precisa é de infraestrutura e espaços de lazer. O orçamento público deve ser investido com os que proporcionalmente mais pagam impostos, que são os mais pobres”, conclui Ediane.
Para denunciar repressão a bailes funk
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