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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Jessica Bernardo | Cleberson Santos

Edição: Eduardo Silva

Arte: Magno Borges

Foto: Léu Britto

Publicado em 09.06.2022 | 16:03 | Alterado em 30.08.2022| 10:56

RESUMO

Na terceira reportagem da série especial sobre os 10 anos da Lei de Cotas, a Agência Mural conversa com cotistas das periferias de São Paulo sobre os desafios enfrentados após a realização da matrícula nas universidades federais do país, e dialoga com pró-reitores para entender o que as instituições de ensino têm feito para auxiliar a permanência desses estudantes nos cursos de graduação.

Tempo de leitura: 8 min(s)
Esta reportagem foi produzida com o apoio do Instituto Unibanco IU
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Foi numa aula de química no ensino médio, em 2018, que Dayane Galdino, 21, ouviu pela primeira vez o que era uma universidade pública. A menina sonhava em ser bióloga e se animou quando o professor contou sobre as pesquisas que eram feitas nos laboratórios das faculdades.

“Vi que ali era a minha oportunidade, era a minha chance”, conta, hoje, a estudante de ciências naturais e exatas da UFABC (Universidade Federal do ABC), em Santo André, na Grande São Paulo.

Moradora de Diadema, Dayane foi aluna de escola pública, com renda familiar baixa, negra e com deficiência visual. Ela foi uma das quatro pessoas com esse mesmo perfil aprovadas no vestibular da instituição daquele ano pela Lei de Cotas (nº 12.711, de 2012). A norma reserva 50% das vagas para estudantes da rede pública, pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência.

Com isso, ela se tornou a primeira da família a ingressar em uma instituição pública de ensino superior. “Sabia que se eu não conseguisse entrar em uma universidade pública, não teria a oportunidade de estudar”, diz.

A permanência na universidade, no entanto, se mostraria um desafio. Com albinismo e baixa visão, ela percebeu o primeiro obstáculo assim que começou. “Cheguei na sala de aula e pensei: ‘é impossível estar aqui; não vou enxergar nada’”, lembra Dayane.

A terceira reportagem da Agência Mural para a série especial dos 10 anos da Lei de Cotas fala sobre os desafios que os estudantes das periferias de São Paulo enfrentam para seguir com o ensino superior após passar no vestibular, e quais são as barreiras orçamentárias das instituições para auxiliar os alunos.

Enquanto investimentos na permanência seguem em discussão no processo de revisão obrigatória da política de cotas, prevista para agosto deste ano, as redes de apoio e auxílios financeiros são algumas das principais ações para garantir a continuidade dos cotistas.

Dayane estuda em Santo André, na Grande São Paulo @Léu Britto/Agência Mural

‘Quis desistir várias vezes’

Desde 2016, pessoas com deficiência que estudaram integralmente em escolas públicas também podem concorrer às vagas reservadas nas universidades federais pela Lei de Cotas. Garantir a inclusão desses estudantes se somou a outros desafios para promover a permanência deles nas instituições.

Na UFABC, um grupo de 57 monitores acompanha alunos com baixa visão nas aulas e fica responsável por ler os conteúdos que são escritos nas lousas. A monitoria é feita por estudantes da instituição, que recebem treinamentos e são remunerados para acompanhar os colegas.

O programa é elogiado por Dayane, mas não é suficiente, segundo ela, para promover a acessibilidade completa. Em aulas de exatas, por exemplo, a jovem não consegue acompanhar as demonstrações matemáticas desenhadas pelos professores.

“Não adianta o monitor copiar para mim o que o professor colocou na lousa se eu não entender o processo que se deu naquela conta. Tenho uma dificuldade muito grande com matemática até hoje por isso”, explica.

Dayane Galdino estuda na UFABC e cita também falta de professores com deficiência @Léu Britto/Agência Mural

Léu Britto/Agência Mural

Léu Britto/Agência Mural

Léu Britto/Agência Mural

As barreiras para participar de atividades acadêmicas cotidianas, como aulas e provas, fizeram com que Dayane cogitasse abandonar a graduação em alguns momentos. “Quis desistir várias vezes”, lembra ela, que encontrou no apoio dos colegas a motivação para seguir com o sonho da graduação.

Victória Rossetto, 23, foi uma das colegas responsáveis por esse apoio. Presidenta do Coletivo Primavera, organização dos estudantes com deficiência da UFABC, ela conta que a união dos alunos é importante, e que é preciso avançar contra o preconceito nas universidades federais.

“Muitas pessoas falam que lugar de pessoas com deficiência não é na universidade”, comenta a estudante de ciência e tecnologia da instituição.

“Possibilitar que essa pessoa acesse o ensino superior, tenha uma especialização e possa ir para o mercado de trabalho preparada, traz melhores condições para a vida dela e maior participação e contribuição das pessoas com deficiência na sociedade”, completa.

Orçamento em xeque

O professor Acácio Almeida, pró-reitor de Assuntos Comunitários e Políticas Afirmativas da UFABC, explica que o apoio aos estudantes cotistas é uma prioridade para a instituição, mas que a falta de orçamento federal dificulta esse trabalho.

No último dia 27 de maio, o MEC (Ministério da Educação) bloqueou 14,5% da verba para despesas de custeio e investimento das universidades e institutos federais. No caso da UFABC, o corte passa de R$ 1 milhão, segundo o pró-reitor.

“Um corte de R$ 1,2 milhão significa menos 3 mil bolsas. É muito dinheiro”, estima Almeida. Ele afirma que as instituições estão buscando reverter a situação com apoio da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior), que tem dialogado com ministros do governo e parlamentares.

O MEC (Ministério da Educação) não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre uma possível revisão dos cortes anunciados em maio.

A UFABC, que tem campi espalhados pelo ABC Paulista, investe em programas e bolsas para promover o que o professor chama de “permanência qualificada”, permitindo que estudantes em maior situação de vulnerabilidade socioeconômica tenham acesso a oportunidades de participar de pesquisas, por exemplo.

Campus da Unifesp no bairro dos Pimentas, em Guarulhos @Alex Reipert/Reprodução

O pró-reitor defende que a revisão da Lei de Cotas inclua a garantia de uma verba voltada às políticas de permanência dos alunos. O PL (Projeto de Lei) nº 3422/21, que está em debate na Câmara dos Deputados, trata do tema e propõe a criação de uma “bolsa permanência” para os cotistas.

Atualmente, os auxílios oferecidos aos estudantes de federais são custeados por meio de verbas, como as do orçamento discricionário, que teve os cortes anunciados pelo MEC em maio, e os valores do Pnaes (Plano Nacional de Assistência Estudantil), que destina recursos aos alunos em situação de vulnerabilidade.

Mas com orçamento enxuto, universidades como a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), por exemplo, enfrentam dificuldades para subir os valores dos auxílios. As verbas seguem iguais há vários anos, apesar dos crescentes aumentos na inflação do país.

“É um valor que a gente sabe que é insuficiente para garantir as necessidades das áreas de moradia, alimentação, transporte e creche”

Anderson Rosa, pró-reitor de Assuntos Estudantis da Unifesp

Apesar do problema, ele é contra a inclusão de um artigo que vincule a Lei de Cotas a um auxílio específico para os cotistas. O pró-reitor defende “pelo menos dobrar” o valor destinado aos programas de permanência, mas com autonomia para as universidades decidirem o modelo dos programas.

“A gente precisa de mais recursos para permanência, mas é preciso garantir a autonomia das universidades de construírem os próprios programas de permanência estudantil, porque as realidades locais são muito diferentes”, conta.

Atualmente a Unifesp, com sete campi espalhados por São Paulo, oferece auxílios para cerca de 1.500 estudantes que fazem parte do PAPE (Programa de Auxílio para Estudantes). Custeado pelo Pnaes, é um dos principais programas de assistência estudantil da instituição e os valores da bolsa variam de acordo com o perfil socioeconômico de cada aluno.

Moradora de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, e aluna de letras da Unifesp, Shirley Paredes, 26, é uma das beneficiárias do PAPE. Ela recebe R$ 580, que são usados para complementar as despesas em casa. “Me ajuda a continuar com os estudos”, explica.

Shirley durante recepção aos calouros da Unifesp após ser aprovada no vestibular @Arquivo pessoal

Filha de uma costureira e com descendência boliviana, a estudante se sente privilegiada por ser vizinha ao campus onde estuda. “Só consigo fazer esse curso porque a universidade fica aqui no [bairro] Pimentas”, comenta Shirley.

A proximidade com a Unifesp, que fica em um bairro periférico de Guarulhos, a ajudou a eliminar duas das barreiras que mais atrapalham a permanência de outros periféricos na universidade: o transporte e a moradia.

Graduação distante de casa

Nathália Rodrigues, 26, precisou mudar de estado para seguir o sonho da graduação em 2016. Aprovada no curso de filosofia da UFFS (Universidade Federal da Fronteira Sul) pela cota para pessoas de baixa renda, a moradora do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, foi estudar na cidade de Erechim, no interior do Rio Grande do Sul.

“A adaptação na cidade foi bem difícil em relação ao impacto cultural e ao fato de estar sozinha. É muito mais difícil do que você acha que vai ser”, comenta ela, que hoje é estudante de mestrado na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Durante a graduação, para pagar as despesas na nova cidade, ela precisou trabalhar em uma fábrica de roupas. As longas jornadas de trabalho, no entanto, atrapalharam os estudos. “Fica inviável estudar porque eu tinha que trabalhar 9 horas por dia, de segunda a sábado”, conta.

Nathália se graduou em filosofia pela UFFS @Arquivo pessoal

Por isso, assim que foi aprovada no PIBID (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência), Nathália deixou o emprego na fábrica. O programa oferece bolsas para alunos de cursos de licenciaturas, que passam a desenvolver projetos em parceria com escolas públicas. A UFFS participa do projeto desde 2011.

Com os valores do auxílio estudantil e do PIBID, que somavam R$ 1 mil, Nathália passou a se dedicar mais ao curso, mas enfrentou dificuldades com o ritmo intenso da graduação. Ex-estudante de escola pública, ela conta que se sentia em atraso quando comparada com os colegas.

“É um sentimento de fraude, de não dar conta, de ficar o tempo todo correndo atrás de uma coisa que você nunca vai achar que é o suficiente”

Nathália Rodrigues, formada em filosofia e estudante de mestrado

A sensação fez com que ela procurasse ajuda psicológica na universidade. “Uma coisa influencia a outra. Por exemplo, a falta de grana me fez ficar três anos sem ir para casa e ver minha família. Faz muita falta”, comenta.

A mãe de Nathália, Joelma Rodrigues, 46, conta que incentiva a filha mesmo que à distância. “O incentivo vem todos os dias pelo telefone, pelo WhatsApp… E quando dá, a gente visita”, explica a doméstica.

Ela tem ainda outro filho estudando fora de São Paulo, na UFPB (Universidade Federal da Paraíba). “É um sonho deles e meu também”, comenta Joelma. Nathália conta que não vê o irmão, que agora também é estudante de mestrado, há nove anos.

“Você tem que estar muito a fim de conquistar esse objetivo porque não é para qualquer pessoa abrir mão de tudo e, principalmente, de apoio familiar para fazer uma graduação”, finaliza.

Rede de apoio para alunos

Estudante de história na Unifesp e também morador de Guarulhos, Matheus de Sena Monteiro, 22, aponta que manter uma rede de apoio e acolhimento é importante para as pessoas negras e periféricas que ingressam nas universidades federais.

Ele faz parte do NNUG (Núcleo Negro Unifesp Guarulhos), coletivo criado em 2013 por alunos negros da instituição. O objetivo é proporcionar um espaço de acolhimento para os estudantes, além de organizar ações como a “Semana da Calourada Preta” para receber os alunos que chegam à instituição.

“[A universidade] é um espaço elitista, um espaço branco. Isso fica mais latente, mais evidente, principalmente nas universidades centenárias”

Matheus de Sena Monteiro, estudante de história

O estudante explica que, apesar de uma maior entrada de alunos negros nos últimos anos, mudança proporcionada pela Lei de Cotas, o espaço ainda é hostil para quem é periférico.

Episódios de racismo velado e estrutural são constantes, segundo ele. “O racismo se transforma. Não é tão explícito, mas a gente se identifica em falas, em piadas, em tratamentos”, afirma.

Imagem aérea mostra campus da Unifesp, em Guarulhos, e bairro ao lado @Alex Reipert/Reprodução

A Unifesp criou, em novembro do ano passado, uma política para combater episódios de racismo e promover maior diversidade na instituição. Intitulada Política Carolina Maria de Jesus, o documento lista uma série de medidas como a criação de um programa permanente de prevenção ao racismo, discriminação e preconceito.

O documento também prevê a continuidade da política de cotas, tanto na graduação e pós-graduação, quanto na contratação de professores. A UFABC, assim como a Unifesp, é favorável à manutenção da política de cotas.

Jessica Bernardo

Jornalista, cria de uma família de cearenses. Apaixonada por São Paulo, bolos e banhos de mar. Correspondente do Grajaú desde 2017.

Cleberson Santos

Jornalista, não sabe chutar uma bola direito, mas se aventura no jornalismo esportivo há alguns anos, e também já escreveu sobre tecnologia e impacto social. Ama playlists aleatórias e tenta ser nerd, apesar das visitas ao Netflix estarem cada vez mais raras. Correspondente do Capão Redondo desde 2019.

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