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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Patrícia Vilas Boas

Arte: Magno Borges

Foto: Léu Britto

Edição: Paulo Talarico

Publicado em 18.05.2022 | 18:40 | Alterado em 26.05.2022| 13:19

RESUMO

Entre 2019 e 2020, 1 a cada 4 pessoas que investiram na Bolsa de Valores tinha entre 18 e 24 anos. Dentro desse universo estão jovens das periferias que têm buscado entrar nesse mundo para ganhar uma renda extra. Mas quais riscos e o que falta para a educação financeira de quem é investidor nas quebradas?

NAVEGUE
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O mercado de ações pode parecer distante da realidade de quem vem das periferias, mas alguns jovens têm contornado esse cenário, mostrando que é possível investir bem, com pouco dinheiro. “Pretendo atingir a tão desejada liberdade financeira”, afirma a assistente administrativa Vanderléia Andrade, 20, moradora da Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo.

Ela e o assistente de moda Gabriel Aquino, 20, do Jardim Ângela, na zona sul, somam-se aos milhares de jovens que iniciaram na bolsa brasileira, chamada de B3, na esteira do “saldão” acionário ocorrido em 2020, quando as primeiras preocupações relacionadas à pandemia de Covid-19 começaram a surgir, pressionando o mercado.

Entre 2019 e 2020, cerca de 2 milhões de pessoas entraram na bolsa de valores. Desse total, 26% eram jovens com idades entre 18 e 24 anos, segundo um estudo divulgado pela B3.

Mas como eles entraram nesse processo e quais os riscos por trás dessas possibilidades? Nesta reportagem, conversamos com jovens das periferias sobre esse tipo de investimento e o que deve ser levado em conta antes de entrar na Bolsa de Valores.

Jovens das periferias têm apostado no mercado de ações @Magno Borges/Agência Mural

O que é a Bolsa de Valores

COMO FUNCIONA

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A Bolsa de Valores no Brasil, a B3 (Brasil, Bolsa, Balcão), é o mercado em que são negociadas as ações das empresas listadas na bolsa brasileira. As ações, também chamadas de papéis, são um pedaço do capital social daquela companhia.

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Comprar uma ação é como adquirir um pedaço de uma empresa (uma parte minoritária). Se a companhia lucra ou apresenta bons resultados, o investidor, como sócio minoritário, também se beneficia. Esse lucro é chamado de dividendo.

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Por outro lado, se a empresa apresenta maus resultados, os investidores também são afetados e podem sofrer perdas.

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Para ter acesso às negociações, seja em ações ou outras formas de investimento, é preciso abrir conta em uma instituição financeira (como uma corretora de valores) e não há valor mínimo inicial.

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As empresas que desejam ter ações negociadas precisam fazer um IPO (sigla em inglês para oferta pública inicial), movimento para se tornar uma companhia de capital aberto, permitindo receber novos sócios minoritários e, consequentemente, arrecadar mais recursos para a empresa.

Moradora da zona sul, Juliana é consultora financeira e tem investido na Bolsa @Leu Britto/Agência Mural

Investir no meio da queda

Vanderléia recebeu o incentivo de um amigo do trabalho, que já investia em ações antes da pandemia, para entrar nesse mercado. Foi justamente quando o coronavírus chegou ao Brasil e as medidas de isolamento social começavam que ela decidiu tentar.

“Começou aquela especulação toda, tiveram vários ‘circuit breakers’ na bolsa de valores e por isso, muita coisa começou a ficar com o preço muito abaixo do que era comumente negociado”, explica.

Os papéis desvalorizados atraíram a atenção de Vanderléia e Gabriel, ambos na época entre 18 a 19 anos, que até então já tinham pesquisado e ouvido falar sobre a bolsa de valores, mas não tinham, de fato, investido.

“Era uma coisa que eu queria (investir), mas sempre tem aquele momento do tipo ‘nossa, só gente branca e rica que pode investir’, e aí eu comecei a perceber que o acesso à informação estava mais fácil, porque hoje em dia tem informações, a gente tem que ir atrás delas”, comenta Gabriel.

Depois de fazer alguns cursos online e pesquisar mais sobre o tema, ele decidiu abrir uma conta em uma corretora, aproveitou o momento de queda da bolsa, e deu os primeiros passos no mercado de ações. Segundo ele, o valor investido foi, inclusive, o dinheiro de uma premiação que havia recebido.

Gabriel é morador da zona sul de São Paulo e também investiu no último ano @Léu Britto/Agência Mural

Saindo da poupança

Fora do contexto da pandemia, quem também iniciou cedo na bolsa foram os jovens Wesley de Sousa, 26, morador do bairro de Pimentas, em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, e Juliana Rocha, 21, do Grajaú, na zona sul, em 2017 e 2019, respectivamente.

“A grande parte de nós, da periferia, não tem esse tipo de informação. Eu aprendi do meu pai, por exemplo, que se guarda dinheiro em poupança. Até hoje eu tento mudar a cabeça dele, só agora ele está começando a pensar em outras coisas”, diz Wesley.

De acordo com simulação do buscador de investimentos Yubb, com a Selic atualmente em 12,75%, o rendimento da poupança é de cerca de 6,88% ao ano, perdendo em rentabilidade para investimentos como Tesouro Selic e CDBs. A Selic é a taxa básica de juros brasileira. As demais taxas de juros no país acompanham seu movimento, como crédito e poupança.

Wesley é analista de dados e também possui patrimônio aplicado em ativos mais seguros. Ele ressalta a importância em conhecer o perfil de investidor e ter objetivos bem definidos antes de começar um investimento na bolsa de valores.

“É complicado, hoje eu tenho um perfil muito mais conservador na bolsa. Apesar de falar ‘ah, lucratividade’, ainda assim meus ativos são extremamente conservadores. Tanto que hoje ganho muito menos do que já ganhei, também hoje perco muito menos do que já perdi”, complementa.

Ele foi apresentado ao mundo dos investimentos durante um estágio que fez em 2017, em um banco brasileiro, cuja empresa oferecia um curso de noções básicas de mercado financeiro aos estagiários.

A consultora financeira Juliana, por sua vez, desde os 15 anos já demonstrava aptidão para organização financeira. Como referência, ela cita o período em que atuou como jovem aprendiz.

“Eu ajudava em casa, cuidava do dinheiro, guardava, comprava as coisas que eu queria à vista, e em contrapartida eu via muitos amigos, que recebiam mais do que eu, e não tinham essa organização.”

Os primeiros passos dela foram montar uma reserva de emergência, estudar o assunto e optar por investimentos mais seguros, até construir uma base melhor que a permitisse arriscar.

Jovens na cena

O estudo que mostra o avanço dos jovens nesse tipo de mercado também mostra que os valores investidos têm recuado. O dinheiro do primeiro investimento de pessoa física caiu 58% na comparação de outubro de 2018 com o mesmo período em 2020, de R$ 1.916 para R$ 660.

Em outubro de 2020, o valor médio do primeiro investimento entre jovens de 16 a 25 anos de idade era de R$ 225. Já em 2021, a mediana de primeiro investimento de pessoa física chegou a R$ 44, o menor valor observado desde 2014.

“Eu comecei com R$50, bem básico, e depois eu fui colocando mais”, afirma Juliana.

Gabriel também compartilha o valor de seu primeiro investimento. “Eu comecei com bem pouco mesmo, comecei com R$200, meu primeiro aporte, e aí foi só crescendo”, diz. “Deu um resultado bom até aquele momento.”

Com relação a dividendos, Vanderléia diz que, devido ao cenário atípico da pandemia – que a garantiu a compra de ações a valores muito baixos – obteve em quatro meses um retorno de 20% sobre o patrimônio investido.

Já Wesley calcula que possui uma lucratividade por volta de 20% a 30% ao ano, embora 2021 tenha sido um ano em que a bolsa fechou em queda, com o Ibovespa encerrando os 12 meses com recuo de quase 12%.

“Ano passado não chegou a 10% de lucro por causa que tudo caiu, mas está na faixa de mais que 10 e menos que 30”, diz.

Gabriel começou com R$ 200 @Léu Britto/Agência Mural

O jovem da zona sul diz que tem o perfil mais moderado para investimentos @Léu Britto/Agência Mural

Ele diz que hoje ganha mais e tem tido menos perdas depois que aprendeu a investir @Léu Britto/Agência Mural

Juliana começou cedo a pensar em como organizar as finanças @Léu Britto/Agência Mural

Moradora da zona sul, Juliana é consultora financeira e tem investido na Bolsa @Leu Britto/Agência Mural

Ao menos 2 milhões de jovens passaram a investir na Bolsa @Léu Britto/Agência Mural

Favelado e investidor

A internet e as redes sociais, quando bem utilizadas, têm sido ferramentas aliadas na disseminação de informação e conhecimento.

Com a nova geração de investidores mais conectada e antenada às tendências digitais, o debate sobre o assunto de forma mais simplificada tem chamado a atenção.

Murilo Duarte, 27, é mais conhecido na internet como “Favelado Investidor”. Morador do Jardim João XXIII, na zona oeste de São Paulo, ele fundou um canal no YouTube junto com amigos para abordar o tema com a linguagem “da quebrada”.

Murilo mora no João XXIII, na zona oeste, e dá dicas sobre como economizar @Arquivo Pessoal

Segundo ele, a linguagem do mercado é rebuscada e a sensação que tinha era de um ambiente inacessível para quem é de baixa renda.

Por meio da curiosidade em saber como funcionava o mercado, o jovem – na época cursando contabilidade – fez da internet sua aliada, pesquisando e acompanhando outros canais de investimentos. “Foi ali os primeiros passos que eu entendi que poderia investir com pouco dinheiro.”

Segundo levantamento separado da B3, 73% dos investidores consultados afirmaram ter aprendido a investir a partir de canais do YouTube/influenciadores, enquanto 45% o fez por meio de plataformas online. A pesquisa permitia respostas múltiplas.

O canal de Murilo já conta com mais de 300 mil inscritos no YouTube e oferece dicas sobre segurança financeira, investimentos em ações, renda fixa, criptomoedas, entre outros assuntos. Tudo com uma linguagem simples e direta, sem o “economês”, segundo ele.

Ele separou algumas dicas a pedido da Agência Mural para evitar correr riscos.

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Cuidado com as falsas promessas

As dicas de Murilo reforçam uma questão fundamental quando se fala em investimentos: é necessário estar atento. Segundo Bruno Martins, 33, analista de riscos e economista formado pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), é importante ter cuidado com as falsas promessas de retornos rápidos e expressivos, como golpes ou “esquemas de pirâmide”.

Além disso, é preciso ter como garantia uma reserva de emergência, não só pelo fato de o investimento em ações ser arriscado, mas como uma forma de educação financeira.

“Os jovens das periferias já têm os problemas da restrição de renda. Sem organização, isso fica ainda pior. Juntar dinheiro já é difícil, se você apostar ele todo, a chance de você perder é grande”

Bruno Martins, analisa de riscos

Bruno vê a educação financeira como um método de organização das economias, mas também está relacionada com os objetivos de vida de cada um. Ele também aponta que investir está ligado aos riscos e é preciso estar ciente disso.

“Não acho que é um problema você aplicar em algo arriscado, desde que saiba o que você está fazendo, e não coloque seu dinheiro todo lá.”

Ele também menciona outros tipos de investimentos disponíveis no mercado que são menos arriscados, mas que também garantem uma boa rentabilidade, como a renda fixa – tipo de aplicação que tem sua taxa de retorno e prazo definidos previamente. Além de, claro, saber controlar os gastos para que sobre dinheiro para investimentos.

“Educação financeira não é você virar ‘franciscano’. Você falar ‘não vou ter um carro nunca’. Não, educação financeira é para você ter um carro, sim, mas é para que esse carro seja sustentável”, explica o analista. “Para que você consiga comprar, pagar gasolina, pagar IPVA, e não comprar e seis meses depois ter que vender porque o dinheiro acabou.”

Quem também faz esse alerta é Bruna Amalcaburio, 34, analista de investimentos da Top Gain, uma empresa de análises financeiras com foco educacional.

“Até por uma estratégia de investimento a gente aconselha, como analista, que o investidor tenha uma carteira diversificada, não só nos setores mais seguros, mas também em alguns setores que são mais dinâmicos, mais arrojados.”

Ela acrescenta que a grande maioria dos jovens que chega até a consultoria estão à procura de recomendação de ações que tenham potencial de valorização.

“Mas, obviamente que a gente sempre orienta ter uma carteira diversificada, não somente com ações, mas também algumas outras opções de investimento, como fundos imobiliários.”

Patrícia Vilas Boas

Jornalista em formação. Curiosa, gosta de sol, praia e um bom livro nas horas vagas. Correspondente da Vila Curuçá desde 2019.

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