Daniel Santana/Agência Mural
Por: Daniel Santana
Notícia
Publicado em 11.06.2026 | 10:20 | Alterado em 11.06.2026 | 10:20
“Antes era diversão. Hoje vejo como memória, porque o tempo passa, mas essas lembranças vão ficar”. As palavras são de Orivaldo Neiva, 28, jornalista apaixonado por futebol, pela Copa do Mundo e pelos álbuns de figurinhas do maior torneio de futebol do planeta.
O jovem morador do Grajaú, na zona sul de São Paulo, é uma das milhares de pessoas das periferias que se dedicam a comprar, trocar e colecionar figurinhas de um dos maiores eventos esportivos da atualidade, que move paixões de quatro em quatro anos.

Ao rever os álbuns, pai e filho colecionam memórias @Daniel Santana/Agência Mural
O amor vem de casa. O pai, Orivaldo José, 70, conhecido como ‘Seu Ori’, alimenta o carinho pelas figurinhas desde os anos 1960. Ele passou o interesse para o filho e hoje colecionam juntos.
Para Orivaldo Neiva, a aventura em busca de figurinhas teve início há 20 anos, na Copa de 2006. O torneio disputado na Alemanha foi o primeiro em que, “indiretamente”, ele começou a colecionar.
‘Foi o meu primeiro contato com um álbum. Meu pai não deixava eu colar porque era uma criança de oito anos colocava as figurinhas tortas, nunca no lugar certo. Mas foi marcante. Foi ali que deu o start para eu colecionar junto com ele‘
Orivaldo, jornalista
Desde então, as Copas chegam acompanhadas dos cards adesivos e de muita cumplicidade entre pai e filho, dois fanáticos por futebol. É tanta conexão que Orivaldo Neiva criou um canal nas redes sociais para compartilhar o dia a dia em busca de figurinhas da Copa de 2026, o Oriizone.
“Sempre tive vontade de fazer conteúdo na internet. Mostrar as reações do meu pai e as minhas. É também uma oportunidade de registrar nossa paixão pelos álbuns e por essa coleção”, diz.

Seu Ori e Orivaldo mantém viva a tradição dos álbuns na família @Daniel Santana/Agência Mural
No Instagram e, principalmente, no TikTok, o jovem compartilha reações ao encontrar figurinhas raras, conta histórias ao lado de Seu Ori sobre outras Copas e apresenta seus álbuns, como o de 2002, que considera uma relíquia. Ele foi comprado já completo de um colecionador pela internet.
Alguns vídeos alcançaram visualizações expressivas, como o da reação à convocação da seleção brasileira para o torneio deste ano, que ultrapassou 100 mil visualizações no TikTok.
Para o colecionador, os vídeos são mais que números. Servem como retratos de momentos felizes que ele e o filho vivem por conta do futebol, alimentado diariamente pela torcida pelo Corinthians, pela Copa e, claro, pelas figurinhas.
“Esses vídeos terão um valor histórico. Meu filho poderá mostrar para o filho dele, para os netos… O álbum fica na família, não vai para venda. Tem valor histórico e sentimental. Isso é bom”, diz.
Um dos personagens mais frequentes dos vídeos do Oriizone é Sandro Célio Cacau, 58, jornaleiro e dono da tradicional “Banca do Cacau”, na região de Santo Amaro, zona sul de São Paulo. Ele conhece Ori há pelo menos 15 anos e desde então a amizade vem se fortalecendo com a venda de figurinhas e com gibis, outra paixão de Orivaldo.
Na banca desde os 18 anos, Sandro já viveu várias Copas e vendeu inúmeras figurinhas ao longo do tempo. Para ele, mesmo com o avanço da tecnologia, o espaço ainda é um ponto de referência para muitos colecionadores.
“O jornaleiro sempre acorda cedo e vai dormir tarde. Sempre foi assim. Agora, só porque chega a Copa e vende bastante, começam a colocar [figurinhas] em lotérica, mercado e farmácia. Mas seguimos aqui firmes.”
Sandro afirma gostar do conteúdo produzido por Orivaldo e seu pai e recomenda os vídeos a outros clientes. Para ele, todos acabam se apoiando por meio das redes sociais.
“Isso ajuda também o comércio, tanto para mim quanto para eles. São dois caras bacanas e a gente sempre tem que ajudar as pessoas boas que estão próximas da gente.”
Quem também é apaixonado pelas figurinhas da Copa é o jornalista Alisson Garcia, 31. Morador do Parque Doroteia, distrito da Pedreira no extremo sul de São Paulo, ele guarda em casa diversos álbuns de futebol, em uma paixão que, assim como a de Orivaldo, vem da infância.
De coleções do Campeonato Brasileiro à Eurocopa, ele sempre viu as figurinhas como uma forma de se aproximar ainda mais do irmão, Anderson Garcia, 43.
‘Meu pai trazia do trabalho alguns álbuns que ganhava e meu irmão também colecionava. [Na Copa de] 1998, lembro que ele fez [o álbum], mas eu era muito pequeno. Depois de um tempo, meu irmão parou e eu continuei. Hoje, a gente faz junto’
Alisson, colecionador de álbuns da copa
Para Alisson, sem o álbum a Copa fica incompleta, sem algo que já virou tradição familiar.

A seleção brasileira no álbum da Copa de 2014. Esse foi o primeiro álbum de mundiais completado por Alisson @Daniel Santana/Agência Mural
O álbum da Copa de 2014, realizada no Brasil, é o mais especial para ele. Alisson afirma que, ao colar a última figurinha e ver o álbum completo, se sentiu muito satisfeito, porque lembrou das pessoas, das trocas e do tempo dedicado à coleção.
“Toda vez que chega a época da Copa e a gente pega o álbum nas mãos, vêm as lembranças daquela época, das primeiras coleções, das coisas de criança mesmo. A gente volta para aqueles momentos com boas memórias.”
Ainda assim, Alisson lamenta o aumento do preço do álbum e das figurinhas, que reduziu a chance de muitas pessoas completarem o álbum ou viverem a experiência pela primeira vez.
Nos últimos anos, os valores dos álbuns e das figurinhas sofreram aumentos significativos, maiores do que a inflação. Entre 2014 e 2026, a inflação acumulada no Brasil, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) ficou próxima de 99%, segundo a Calculadora Cidadã do Banco Central.
No mesmo período, o preço álbum mais simples da Copa do Mundo subiu 322%, passando de R$5,90, em 2014, para R$24,90, em 2026. Já o pacote de figurinhas teve aumento de 600%, saltando de R$1 para R$7.
Uma alternativa para reduzir os custos é frequentar os tradicionais encontros para troca de figurinhas, que acontecem em shoppings, praças e comércios. Além de fazer os cards circularem, os espaços também ajudam a criar novas conexões entre as pessoas.
E é justamente essa conexão que faz com que Alisson, Orivaldo e Seu Ori sejam tão apaixonados por suas coleções, principalmente pelo resgate de memórias que elas proporcionam, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações.
Mais do que simples figurinhas, os álbuns carregam histórias de infância, encontros em bancas de jornal, tardes de troca e momentos compartilhados em família, transformando o colecionismo em um símbolo de afeto, pertencimento e união.
“Você conhece mais gente, conversa sobre o motivo de elas colecionarem o álbum e se existe algo afetivo envolvido. A gente acaba criando conexões por gostar das mesmas coisas: futebol, figurinha e Copa do Mundo.”
Jornalista, apaixonado por livros, samba e carnaval. Corintiano, vivo o futebol de domingo a domingo. Adoro contar histórias através do jornalismo.
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