Matheus Santino/Agência Mural
Por: Matheus Santino
Notícia
Publicado em 25.06.2026 | 15:50 | Alterado em 25.06.2026 | 15:50
Na sala em que Fanny Maribel, 47, estuda português, bandeiras de cinco países são estampadas acima da lousa: Bolívia, Marrocos, Nigéria, República Democrática do Congo e Venezuela. Elas representam as nacionalidades dos 13 alunos que frequentam as aulas.
Ela faz aulas português nas noites de quinta-feira na escola municipal Jenny Gomes, no distrito do Artur Alvim, na zona leste de São Paulo. Natural de La Paz, capital da Bolívia, ela estuda o idioma há 2 anos.
No Brasil há 14 anos, ela tem duas filhas adolescentes que estudam na EMEF e soube do curso em uma reunião de pais. “Estava procurando, porque, para nós, é difícil não saber como falar. Fiquei contente porque quero aprender mais para ter coisas melhores para mim”, diz.

A boliviana Fanny durante a aula de português @Matheus Santino/Agência Mural
A escola faz parte da DRE (Diretoria Regional de Educação) Penha, que abrange 12 distritos do centro ao extremo leste da capital, onde uma das características da DRE Penha é o alto número de alunos imigrantes de 69 nacionalidades diferentes.
Por lá, os colégios têm buscado caminhos para acolher tanto as crianças quanto os pais que encontram no espaço um caminho para se adaptar ao país.
“Muitas vezes eles não falam português ao ingressar na escola, pois mantêm a língua e hábitos culturais dos pais em casa. Essa manutenção de costumes é, por vezes, alvo de xenofobia no ambiente escolar”, afirma a supervisora na DRE Penha, Karina Lins.
Segundo ela, mesmo nascidos no Brasil, migrantes de 2ª geração têm dificuldades com o idioma.
A migração de povos de outros países é um forte traço de São Paulo e ajudou a construir a metrópole. Italianos, japoneses e libaneses enraizaram suas culturas em diversos bairros da cidade, seja na gastronomia, arquitetura ou costumes.
Bairros como Brás e Pari, que fazem parte da DRE Penha, integram uma região historicamente marcada pela recepção de migrantes ao longo do século 20. Ali perto, na Mooca, fica o Museu da Imigração localizado na sede da extinta Hospedaria de Imigrantes do Brás, criada para receber e encaminhar imigrantes que chegavam ao Brasil.

Bolivianos são maioria entre alunos imigrantes na DRE Penha @Matheus Santino/Agência Mural
Douglas Maris, professor de história e membro do NEER da DRE Penha, explica que o fluxo migratório ainda é forte na região, mas com novas características.
‘A migração de países do sul vindo para o Brasil continua usando a região como ponto de trabalho, mas a especulação imobiliária faz com que eles vão mais para as periferias, pela necessidade de lugares mais baratos’
Douglas, professor
Atualmente, a rede municipal de educação de São Paulo tem 16.917 alunos imigrantes, segundo dados de março de 2026 do NEER (Núcleo de Educação para as Relações Étnico Raciais) da SME (Secretaria Municipal de Educação) enviados para a Agência Mural.
DRE Penha
A direção da Penha é composta pelos seguintes distritos: Água Rasa, Artur Alvim, Belém, Brás, Cangaíba, Ermelino Matarazzo, Mooca, Pari, Penha, Ponte Rasa, Tatuapé e Vila Matilde.
Mais de 10 mil alunos são de nacionalidade boliviana, cerca de 60% do total. Em seguida aparecem imigrantes da Venezuela, Haiti, Angola e Paraguai.

DRE Penha tem alunos imigrantes de diferentes países @Matheus Santino/Agência Mural
Douglas diz que o fluxo da Bolívia para o Brasil começa ainda nas décadas de 1970 e 1980, com uma classe média que vinha estudar, mas se intensifica nos anos 1990 com a busca de trabalho na indústria têxtil.
“Eles criam redes transnacionais: um se instala e passa a trazer família e amigos. A Bolívia vive da exportação de minério e fica suscetível às variações econômicas internacionais, o que leva muitos a verem no Brasil uma possibilidade melhor de vida”, explica.
Os dados mostram que, entre as 13 DRE’s da cidade, a Penha contém a maior concentração de migrantes internacionais, com 4.733 matrículas, sendo a maioria da Bolívia e de outros países da América Latina.
O número simboliza um aumento de 154% em 6 anos, considerando as 1.863 matrículas em 2020, segundo mostra o documento de orientações pedagógicas “Currículo da Cidade – Povos Migrantes”.
Em seguida, aparecem as DRE’s Jaçanã/Tremembé com 3.744 matrículas e Ipiranga com 1.687.

Material usado para capacitar professores que dão aula para imigrantes @Matheus Santino/Agência Mural
Apesar da predominância boliviana, também há contingentes significativos de haitianos, nigerianos e angolanos. Karina diz que as nacionalidades variam muito dependendo da região da cidade. Em Pirituba e Perus, por exemplo, o número de haitianos é mais expressivo.
Os números consideram apenas estudantes imigrantes de 1ª geração, ou seja, nascidos em outro país. Migrantes internacionais de 2ª geração são aqueles nascidos no Brasil, mas que têm um ou ambos pais de outras nacionalidades, como é o caso das filhas de Fanny.
A língua é o principal desafio quando se tem adolescentes e crianças que falam espanhol e outras que falam persa ou árabe, com alfabetos totalmente diferentes.
O curso que Fanny estuda faz parte do Portas Abertas, programa que oferece português para os pais migrantes para o dia a dia e garantia de direitos. Além de pais de alunos, o programa também é divulgado em panfletos e redes sociais da escola, contando com o apoio do CRAI (Centro de Referência e Atendimento ao Imigrante) e de sites governamentais para que mais pessoas saibam das aulas.
É o caso da nigeriana Blessing Nnenna, 26. No Brasil há 8 meses, ela veio da Nigéria com o marido e a cunhada, que já tinham família no país. “As pessoas são boas, a comida é boa. É interessante as diferenças culturais, a mistura de pretos e brancos”, conta.
No curso desde fevereiro, ela divide a atenção da aula com o carrinho de bebê que acomoda a filha do casal de dois meses, nascida no Brasil. Mas, aprender um novo idioma não parece ser um grande desafio para Blessing. “Falo quatro idiomas: meu idioma igbo, inglês, tuki e agora português”, diz.
Já o marido John Paul, 33, prefere fazer a entrevista em inglês. Se familiarizando com o idioma, o nigeriano considera difícil aprender português, principalmente por todas as palavras serem masculino ou feminino.
Apesar disso, John se declara para o Brasil e diz que escolheu o país por ser um lugar com boas oportunidades para imigrantes. “É um país muito acolhedor e que recebe todo mundo, tentam nos fazer sentir em casa e nos integrar. Vir à escola para aprender português de graça é a melhor coisa. Temos um bom professor que nos ajuda e está realmente interessado”, diz.

Professor Cláudio ajuda alunos imigrantes a se tornarem independentes @Matheus Santino/Agência Mural
Feliz pela filha ter nascido no Brasil, John brinca que sente inveja, porque também queria ser brasileiro.
O professor é Cláudio Carvalho, 43. Há nove anos na DRE Penha, ele fez uma formação para o programa e trabalhou em outra escola da mesma diretoria por 1 ano e meio. Vendo a grande migração na EMEF Jenny Gomes, ele trabalhou com o diretor para levar o programa para a escola.
O projeto funciona há dois anos e meio na escola. “Embora existam comunidades específicas, na sala eles interagem e falam português entre si. Eles brincam e dão risada, o que torna o aprendizado mais agradável para quem trabalhou o dia inteiro”, diz Cláudio.
O professor trabalha temas cotidianos, como o Bilhete Único e linhas do Metrô, além de divulgar feiras culturais, para que conheçam a gastronomia e a arte de outras comunidades. “Temos ex-alunos que hoje são empreendedores ou conseguiram empregos e estão se virando sozinhos. O objetivo principal é dar autonomia para eles”, explica.
Se o idioma é a principal dificuldade de adultos imigrantes, para crianças a barreira se torna ainda maior. Na escola municipal de ensino infantil Dinah Gomes, em Ermelino Matarazzo, também DRE Penha, coordenação e professoras criaram estratégias pedagógicas e de acolhimento para os alunos imigrantes de 4 a 5 anos.
Coordenadora pedagógica há 5 anos, Vanda Luiza, 54, está na escola há 24 anos, tendo passado pelos cargos de professora, diretora e assistente. Ela explica que desde 2022 a temática do imigrante aparece nas ações, mas foi em 2023 que criaram um projeto específico, chamado “Povos Migrantes: Levantando Novos Voos”.
Desde então, o EMEI faz projetos anuais focados na população migrante, como o “Valorizando a Diversidade Cultural” e o “Coração Não Tem Fronteiras” em 2024 e 2025, respectivamente.
“No primeiro ano houve estranhamento e timidez, mas no segundo a aceitação foi excelente. Mães bolivianas vieram falar da cultura, trouxeram roupas típicas e participaram ativamente”, diz.
A escola possui hoje 15 crianças imigrantes ou filhas de imigrantes matriculadas. A grande maioria também vêm da Bolívia, no entanto, já tiveram alunos de diferentes países da América do Sul e África.
Uma das ações adotadas foi a tradução dos relatórios de aprendizagem entregues ao fim de cada semestre. Inicialmente, apenas dois pais migrantes solicitaram a versão em espanhol. Hoje, 90% dos responsáveis pedem o documento traduzido para facilitar a compreensão.
Além dos projetos, a escola adota sinalização em português, inglês e espanhol e envia questionários aos pais migrantes para conhecer melhor as crianças. “Todo ano, fazíamos cartazes para apresentar as crianças migrantes e espalhava pela escola. Por conta da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais) não posso mais ter a imagem. Continuamos fazendo, mas só para trabalhar com as crianças internamente”, diz.

Vanda com alunos filhos de bolivianos e peruanos @Matheus Santino/Agência Mural
Ana Elizabeth, 53, é professora na unidade há 6 anos e já no segundo ano teve contato com crianças imigrantes. Ela diz que muitos alunos chegam tímidos, devido à barreira linguística. “Como não dominamos o idioma deles, buscamos conquistar a confiança da criança, sendo que entre elas o entrosamento costuma ser mais fácil”, comenta.
Ana conta a experiência que teve com um aluno de pais peruanos. Quando ele chegou, ficou inseguro, com olhar assustado e não falava nada. Observando a situação, a professora tentou contato, perguntando se o aluno estava gostando da escola. Após uma resposta vaga, ela percebeu que talvez a criança não estava entendendo a língua.
Elizabeth começou a usar gravuras, gestos, músicas e filmes em inglês e espanhol, para valorizar a história. “Um dia eu peguei ele dançando, sorrindo e interagindo com a música, porque estava na língua dele. Foi assim que consegui trazê-lo para mim”, relata a professora.
Jornalista formado com trabalho de conclusão sobre a história da imprensa negra brasileira. Experiência em jornalismo investigativo e defesa dos direitos humanos. Apaixonado por rap, filmes e fotografia. Do fundo da leste fazendo o jogo virar. Correspondente do Iguatemi desde 2021.
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