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Agência de Jornalismo das periferias

Glória Maria/Agência Mural

Por: Glória Maria

Notícia

Publicado em 04.04.2025 | 10:27 | Alterado em 04.04.2025 | 10:27

Tempo de leitura: 5 min(s)

Sentada em um sofá de forro verde, ladeada por dois caixotes de plástico, a pedagoga Maria Betânia Ferreira Mendonça, 66, percorre com os dedos as páginas de antigos álbuns de fotografias. Entre memórias, revive a trajetória de ativismo que a tornou a primeira presidente social de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, onde mora desde os anos 70.

Atualmente conselheira do AMA Paraisópolis, CAPS AD III e UBS III, Maria Betânia teve papel fundamental na formação da comunidade. Ela conta que o território pertencia às famílias Afonso e Oliveira Santos, mas nunca foi reivindicado pelos herdeiros.

Com o tempo, a ocupação cresceu e os moradores passaram a sofrer com grilagem, enquanto donos de imobiliárias se passavam por proprietários legítimos.

Muitos acreditavam que o terreno era da prefeitura, e algumas reintegrações de posse avançaram. Betânia recorda uma ação durante o governo de Paulo Maluf (1979-1982), ao lado da igreja.

“Havia poucas famílias, talvez menos de cem, mas a ocupação era grande. Saímos da creche e vimos o desespero das pessoas. Chovia, e elas jogavam seus pertences para fora das casas. As máquinas da prefeitura derrubaram as barracas sem hesitação. Era a ditadura, não havia como contestar”, relembra.

Maria Betânia com a faixa da organização em reunião da UBMCSP @Glória Maria/Agência Mural

Sem saber a quem recorrer, ela e um grupo de jovens buscaram apoio da imprensa e foram até o Morumbi. A TV Bandeirantes iluminou o local com refletores, impedindo a ação violenta da polícia, o que reforçou a necessidade de organização da comunidade.

“Os moradores nos procuraram porque já estávamos envolvidos com a creche. Buscamos apoio da Comissão de Direitos Humanos, da Confederação de Favelas de São Paulo e da Conam”, conta Betânia.

Com orientação jurídica, Betânia e outros ativistas fundaram a União dos Moradores da Favela de Paraisópolis. Descobriram que já existia uma associação de proprietários, não de moradores, criada por advogados dos donos dos lotes para defender a reintegração.

A nova diretoria foi eleita democraticamente com apoio do Sindicato dos Trabalhadores de São Paulo e da Federação de Favelas. “O mais votado era presidente, seguido pelo vice, tesoureiro, secretário e conselho fiscal”, explica. Betânia foi eleita a primeira presidente.

A presidência

Betânia venceu a eleição em 25 de setembro de 1985, na escola estadual Professor Homero dos Santos Forte. Cada cargo da diretoria era definido pelo número de votos, e cada ativista assumia uma responsabilidade, como a luta por eletricidade, água e asfalto. Entre os desafios mais urgentes estava a falta de energia elétrica. Na época, Betânia lembra de ver apenas sombras na escuridão da comunidade.

‘A energia era um gato, emprestada de casas na Avenida Giovanni Gronchi. Quem tinha luz passava fios para os vizinhos, mas era fraca. Só havia um bico de luz, e muitos usavam lampião a gás’

Maria Betânia, pedagoga e primeira presidente social de Paraisópolis

A União dos Moradores teve papel essencial na conquista da eletricidade. Com o tempo, a entidade assumiu a distribuição das contas, o que exigia longos dias de caminhada pelas vielas.

Durante esse processo, os moradores nomearam becos com base em suas histórias, reforçando a identidade comunitária. Surgiram nomes como “Beco Edivaldo“, em homenagem a um recém-nascido, e “Viela Passarinho“, devido à grande quantidade de aves. “Cada beco tinha uma razão, uma história”, conta Betânia com carinho.

Betânia foi reeleita, mas, após dois mandatos, não pôde mais se candidatar e passou a atuar como secretária. Durante anos, acompanhou e lutou por melhorias, como a chegada de luz, água, posto de saúde e transporte. “Tudo isso que a gente tem é conquista. Eu me orgulho muito dessa luta, mas não fui eu. Foi a população”, orgulha-se Maria Betânia.

Carteirinha de sócios da União de Moradores da Favela de Paraisópolis
Maria Betânia na realização de trabalhos sociais
Reunião de prestação de contas na escola EE Prof. Homero dos Santos Forte
Capela em Paraisópolis

Carteirinha de sócios da União de Moradores da Favela de Paraisópolis @Glória Maria/Agência Mural

Maria Betânia na realização de trabalhos sociais @Arquivo pessoal

Reunião de prestação de contas na escola EE Prof. Homero dos Santos Forte @Arquivo pessoal

Capela em Paraisópolis @Arquivo pessoal

Atualmente, ela não faz mais parte da União dos Moradores da Favela de Paraisópolis, atualmente chamada de “União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis”.

Betânia migrou para a UBMCSP (União em Defesa da Moradia e Melhorias das Comunidades do Estado de São Paulo), onde continua ativa em reuniões, conselhos e atividades que discutem a melhoria da qualidade de vida na comunidade.

Para ela, é essencial que a população se conscientize mais sobre direitos e deveres. “Sinto falta da antiga luta. É uma luta que não é só minha, é uma luta de todos, e essa consciência precisa ser despertada”, reflete.

Uma trajetória de luta e fé

A sala do lar de Betânia em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, reflete a fé e história, com quadros religiosos adornando as paredes. Atrás do sofá, destaca-se a imagem de Maria segurando Jesus, enquanto, ao lado, uma representação cubista da santa adiciona um toque artístico ao ambiente.

No peito, Betânia carrega o Tau (T), uma cruz associada à espiritualidade franciscana, símbolo da profunda comunhão com a religião católica.

Natural de Santana do Mundaú, Alagoas, Maria Betânia chegou a São Paulo em 1973, aos 14 anos, acompanhada da mãe e de quatro irmãos. O pai já trabalhava na capital e buscou a família para recomeçar a vida na comunidade.

Maria Betânia vendo álbuns de fotos @Glória Maria/Agência Mural

A adaptação não foi fácil. “Foi horrível. Lá na minha cidade natal era quente, e aqui pegamos um frio terrível. Não tínhamos roupas adequadas, só roupas leves. Além disso, nunca tínhamos visto barracos de madeira. No Nordeste, as casas eram de taipa ou tijolo, nunca de madeira. Naquele momento, eu queria voltar”, relembra.

Nos primeiros meses, a família morou de favor na casa de um amigo do pai até conseguir comprar um terreno na Rua Rudolf Lotze, onde ela mora até hoje e que, na época, tinha outro nome. “Antes, minha rua se chamava Sete de Setembro. A região toda era um quarteirão grande, com árvores frutíferas, bananas, verduras… era muito espaçoso”, recorda.

Betânia precisava frequentar a escola, mas não havia nenhuma na comunidade.

‘Vim para estudar, mas não conseguimos. Eu ia entrar na quinta série, mas não havia escola em Paraisópolis. Aqui não tinha água, luz, escola, posto de saúde, nada. Era uma fazenda’

Para conseguir estudar, Betânia cursou o ensino fundamental no Real Parque, comunidade próxima a Paraisópolis. No ensino médio, precisava se deslocar até o Brooklin, um trajeto de cerca de 50 minutos de ônibus. Na época exigia uma longa caminhada até conseguir pegar a condução para chegar à Escola Estadual Professor Ennio Voss.

Ainda jovem, dividia os dias entre os estudos, o trabalho como babá e a participação na igreja. De família católica, frequentava a Comunidade Nossa Senhora Aparecida, que funcionava em uma capelinha onde hoje existe uma creche.

Com o tempo, foi inaugurada a Paróquia Nossa Senhora do Paraíso, pertencente ao Mosteiro de São Bento de São Paulo. No Mosteiro São Geraldo, passou a atuar no projeto social “Mães Crecheiras”, conectando mães trabalhadoras a outras mães ou donas de casa que podiam cuidar de crianças, já que não havia creches na região.

“As mães podiam ficar com cinco crianças, outras com três. A mãe que precisava de ajuda pagava um valor simbólico, e o Mosteiro contribuía com alimentação, fornecendo frutas, legumes e orientação pedagógica para as cuidadoras”, explica Betânia.

Tempos depois, foi fundada a creche Santa Escolástica, que existe até hoje. Maria Betânia se tornou uma das primeiras funcionárias, cuidando de 50 a 100 crianças da comunidade. Esse trabalho a motivou a buscar uma graduação em pedagogia, ampliando seu impacto na educação e no desenvolvimento das famílias locais.

Entre a pedagogia nas salas de aula, inspirada no método Paulo Freire, e a participação ativa em reuniões e reivindicações, Maria Betânia fez da luta comunitária a missão de sua vida.

Sem pensar em parar, ela segue movida por esse propósito, sempre associando à fé cristã. “Jesus é o maior exemplo de quem trabalhou com a caridade, o amor e contra a injustiça social. Como católica, sigo os mesmos passos”, finaliza.

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Glória Maria

Moradora de Paraisópolis, jornalista, produtora audiovisual e co-fundadora do estúdio 7 Notas, espaço que acolhe artistas locais e movimentando artes

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