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Com 300 mil casos de dengue na Grande São Paulo, como cidades estão lidando com a epidemia

Operação Cata Bagulho no Jardim Santa Julia, em Itapecerica da Serra

Por: Felipe Barbosa e Thila Moura

Postos de saúde lotados, falta de testes rápidos e ausência de agentes de saúde. Esses são alguns dos pontos citados por moradores da Grande São Paulo sobre a situação com o avanço da dengue. Na região metropolitana, são mais de 323 mil casos registrados este ano, com um total de 138 mortes até aqui.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, o Brasil já registrou quase 4 milhões de casos prováveis e 1.657 mortes de dengue. O estado de São Paulo já contabiliza 650 mil casos confirmados e 352 mortes, segundo a SES (Secretaria Estadual de Saúde).

O que tem sido feito para lidar com o problema na cidades? Para tratar desse tema, correspondentes da Agência Mural apuraram a situação de cidades na região sudoeste, em especial os municípios de Cotia, Embu das Artes, Itapecerica da Serra e Taboão da Serra.

Relatos de dificuldades para conseguir atendimento, a falta de informações dos serviços e problemas como acúmulo de lixo, estão entre os fatores que tem agravado o problema da dengue. Além disso, moradores apontam receio com a doença e a dificuldade de saber se estão ou não com dengue.

Dificuldade para os testes

A aposentada Vera Lúcia Moura, 69, moradora do bairro Jardim Branca Flor, em Itapecerica da Serra, chegou a ir ao Pronto Socorro Central e na UBS Salvador Leone em busca do teste rápido.

“Fui para o pronto-socorro. O médico falou que eu tinha todos os sintomas de dengue, mas lá não tinha o teste, que eu tinha que ir na UBS Salvador de Leone na segunda-feira. Ele me deu uma injeção de Novalgina que tirou a febre, mas não a dor no corpo.’’

No dia seguinte, Vera foi até a UBS Salvador Leone com a irmã. Ela foi abordada pela recepcionista, que informou que ela deveria se dirigir para a UBS mais próxima de casa, a UBS Jardim Branca Flor.

“Tive que voltar, passando mal, arrastada. Entrei no ônibus, desci e fui ao posto. Falaram que cheguei bem na hora que tinha acabado os testes, mas aí passei no doutor Alex. Ele falou que não precisava nem do teste comprobatório para confirmar que eu estava com dengue, e me deu a medicação que eu precisava tomar, que é soro e muito líquido.’’

Os dados do Painel de Monitoramento da Dengue, consultados em 26 de abril, revelam que Embu das Artes registrou 919 casos confirmados entre 1º de janeiro até 23 de abril deste ano. Na sequência, Itapecerica da Serra conta com 674 casos, enquanto Taboão da Serra teve 559. O município de Cotia lidera o ranking com 2.555 casos confirmados e 1 óbito.

A dificuldade para conseguir fazer o teste, em meio à lotação dos postos de saúde, foi relatada por moradores em boa parte das cidades.

A dona de casa Camila Félix, 32, enfrentou sintomas como manchas e dores no corpo. Ela precisou recorrer ao atendimento médico do Centro de Referência em Saúde Irmã Annete, em Embu das Artes.

‘’Fui fazer a coleta de sangue e vi que tinha algumas pessoas sentadas aguardando atendimento, todas sem um local apropriado para ficar aguardando. Também aguardei a coleta enquanto faltavam 20 minutos para fechar o hospital”, revela.

Camila não conseguiu fazer o teste rápido de dengue, mas realizou o teste do laço. Ela diz acreditar que o resultado pode ter sinalizado uma alteração no hemograma, índice que contabiliza os leucócitos.

Camila Félix e os filhos moram em Embu das Artes, onde já foram registrados 895 casos de dengue @Divulgação/Karina Quintanilha

Mãe de gêmeos, a estudante de pedagogia Mônica de Oliveira, 36, mora no bairro Parque Luiza, em Embu das Artes, e conta ter uma longa história com os serviços de saúde do município, pois recorre ao serviço público para os atendimentos necessários do filho autista.

A estudante cobra eficiência e agilidade da secretaria de saúde da cidade no combate ao Aedes aegypti.

‘Nós precisamos que o atendimento seja feito com atenção e que haja insumos. Senão não adianta, é simplesmente atender a pessoa e mandar ela de volta pra casa’’

MESMO NA FILA, SE HIDRATE

Raquel Stucchi, infectologista da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), explica que a dengue costuma provocar diarreia, vermelhidão no corpo, febre alta e perda de apetite, enquanto chikungunya e zika se destaca por dores no corpo e inchaços nas articulações.

“Você deve se dirigir ao local de exame ou aguardar atendimento presencial na área e, o que eu não tenho visto muito, levar sua garrafinha de água enquanto espera de três a quatro horas para ser atendido. Vai se hidratando, pois se for dengue, esse é um cuidado muito importante’’, revela a infectologista.

Grupos de atenção

Crianças e idosos são os grupos que necessitam de mais cuidados no caso de doenças epidemiológicas. Para os pequenos de 0 a 2 anos de idade, os pais precisam dedicar uma atenção especial ao início dos sintomas.

Mãe de Bela, 2, a dona de casa Simone Germano, 34, moradora do Jardim Santa Júlia, em Itapecerica da Serra, explica que é difícil identificar esses sintomas em uma criança pequena, já que ela não consegue se expressar corretamente ainda.

“Como é que eu vou adivinhar? Vou esperar a febre alta vir e ela ter uma epilepsia? Febre alta no caso deles é mais grave do que em um adulto. Agora, aí vai vir a parte de negligência da mãe que não prestou atenção, e a escola não cuidou.’’

O apontamento de Simone levanta uma dúvida comum entre a população, pois os sintomas e sinais de dengue se relacionam com chikungunya e zika.

Número de casos de dengue ultrapassam 300 mil na região metropolitana @Magno Borges/Agência Mural

A trabalhadora autônoma Carola da Silva, 34, moradora do Jardim São Miguel, em Cotia, afirma que o filho de 2 anos contraiu dengue na penúltima semana de março. Os primeiros sintomas foram apresentados em uma creche no bairro Jardim Arco-Íris, um dos locais com surto do vírus no município.

“Levei o meu bebê para a escola e me ligaram falando que ele tava com muita mancha vermelha, a cara dele tinha embolado de mancha”, relembra a mãe, que pensou que poderia ter sido causado por algum alimento. “Tive que correr direto para o hospital com ele’’.

Ela conta que levou a criança para a PS Infantil de Cotia, onde afirma que seguiram o procedimento certo, mas que precisou lidar com uma grande quantidade de pessoas no hospital e um calor acima do normal.

“Ele foi para o médico, e na primeira vez, deram uma medicação, fizeram tudo direitinho. No segundo dia é que fizeram o exame de sangue e confirmaram que ele estava com dengue. Ele está indo toda semana fazer exame de sangue para ver se as plaquetas dele sobem.’’

Operações contra o mosquito

Os dados mostram que 80% dos criadouros de dengue são domiciliares, por isso há necessidade que agentes comunitários de saúde visitem as casas para o combate aos focos de dengue.

“A pessoa pode dizer que os vasinhos estão limpinhos e que o pneu não está com água, mas quem está habituado a verificar isso, olha e acaba detectando a presença de criadouros’’, afirma a infectologista Raquel Stucchi.

A infectologista informa que apesar do número de focos serem grandes nos domicílios, isso não anula a responsabilidade do poder público. “Principalmente porque o acesso principalmente à rede de esgoto nas regiões mais periféricas é muito precário”.

Trabalhos educativos dos alunos da Escola Municipal Caputera, em Cotia @Felipe Barbosa/Agência Mural

Carola da Silva reconhece a importância dos cartazes informativos sobre prevenção à dengue nos postos de saúde de Cotia, mas ressalta a necessidade de maior presença e assistência dos agentes de saúde nos bairros.

“Eles deveriam dar mais atenção para isso, principalmente nos lugares que eles já sabem que é foco da dengue, como o Jardim Lavapés e o Jardim Arco-Íris, por exemplo’’, observa.

Entulhos no bairro Jardim Santa Júlia, em Itapecerica da Serra, próximo à EMEF Acácia @Thila Moura/Agência Mural

Moradora do bairro Vila Maria Auxiliadora, em Embu das Artes, a dona de casa Camila Félix ressalta que além dos informativos, é preciso cuidar dos locais públicos abertos.

“Como os parques, quadras, que muitas vezes acumulam água nos aparelhos quebrados em sujeiras, que são jogadas no local’’, revela.

Antes e depois de Operação Cata Bagulho na rua Madeira, no Jardim Santa Júlia, Em Itapecerica da Serra @Divulgação/Secretaria da Saúde de Itapecerica da Serra

A Agência Mural esteve nas proximidades do centro de Embu das Artes, na rua Luís Almeida de Carvalho, e encontrou utensílios de plástico e embalagens de alimentos. O local fica próximo de um ponto de ônibus e de um córrego.

Vacinas e informação

As cidades de Cotia, Embu das Artes, Itapecerica da Serra e Taboão seguem sem data para receber a vacina. A infectologista Raquel Stucchi destaca que o imunizante não é uma arma para controle da epidemia do surto de dengue neste ano, ela vai servir muito mais como uma proteção individual para as crianças e adolescentes que estão sendo vacinados.

Portanto, é essencial que a população dessas regiões se mantenha informada e procure os postos de saúde ao suspeitar de dengue.

O empreendedor Eric Roger Capioto, 41, morador de Caputera, região que fica no limite entre Embu das Artes e Cotia, enfatiza a importância de seguir as orientações médicas, após ser atendido na UPA Atalaia, em Cotia.

Capioto destaca a necessidade de evitar informações falsas e manter-se hidratado. Como exemplo, ele conta o caso de um amigo que preferiu se automedicar.

“Tenho um amigo que ficou ruim igual eu na mesma data, só que ele falou que a mulher dele conseguiu cuidar dele com medicação que não faz mal. Eu disse que ele estava vivo por sorte, porque é só água.’’

Eric Roger mora há 20 anos na região de Caputera @Felipe Barbosa/Agência Mural

Para a professora e socióloga Najara Costa, 43, moradora do bairro Parque Pinheiros, em Taboão da Serra, é preciso ampliar a discussão sobre o assunto de forma coletiva.

“É preciso trazer a importância desse debate para a arena pública, fazer trabalhos de conscientização dentro das escolas e dentro da saúde, com um trabalho comunitário também incentivando lideranças locais a serem agentes multiplicadores’’, observa.

Prefeituras

Procuradas, as prefeituras das cidades afirmaram ter tomado medidas para reduzir o problema.

Enfermeiro epidemiológico da Secretaria de Saúde de Embu das Artes, Leonardo Marcolan afirma que houve treinamentos realizados com os agentes de saúde. “Existe um protocolo de manejo clínico aqui no município para as UBS próprias, para nossa Rede de Urgência e Emergência, onde todos os profissionais estão treinados para enfrentar a dengue com o protocolo”, conta.

“Este ano incorporamos no dia a dia dos agentes comunitários de saúde e dos agentes de Zoonoses, de trabalho diário a campo, onde se faz a prevenção ou mesmo o relato de acúmulo de inservíveis, o que quer que seja para prevenir dengue’’, afirma Leonardo Marcolan,

A Secretaria de Saúde de Itapecerica da Serra informou que tem realizado ações em massa, com grande quantidade de profissionais de saúde, desde o dia 27 de janeiro. Os profissionais de saúde atuam de bairro a bairro com panfletagem e vistoria no interior das residências.

“Há também o trabalho diário, que é desenvolvido pelo setor de Arboviroses com a realização de visitas rotineiras, em ferro velho, cemitérios e visitas em locais que são denunciados, através do disque denúncia’’, conta.

A Prefeitura de Cotia, por meio da Vigilância Ambiental, informou que realiza um trabalho ininterrupto de combate, prevenção e conscientização da população sobre a eliminação de focos do mosquito da dengue. De acordo com eles, as visitas acontecem de casa em casa, mas a recusa ainda é muito alta. Em algumas regiões, a recusa chega a 60%.

Além das visitas aos domicílios, a Secretaria de Saúde de Taboão da Serra afirma que tem realizado ações de orientação aos moradores com distribuição de folhetos explicativos, além do bloqueio das áreas onde há casos da doença. ‘’O bloqueio consiste na eliminação manual de possíveis criadouros e nebulização de inseticida para matar mosquitos alados.’’

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