Vender a íris? Biometria ocular? Esses termos eram pouco comuns até o começo de 2025, quando se tornaram assunto em roda de amigos, famílias e, em especial, nas redes sociais.
Centenas de postagens e vídeos passaram a convidar internautas para escanear suas íris em troca de cerca de R$ 600 em criptomoedas. Em poucos meses, pelo menos 400 mil paulistanos toparam disponibilizar esses dados, considerados os mais pessoais e seguros quando o assunto é identificação.
“Eu vi como uma oportunidade de começar a investir em criptomoedas, a Worldcoin” afirma Débora*, 51, moradora da Vila Alpina, na zona leste de São Paulo. Ela realizou a venda acompanhada do filho, Bruno*, 26, e diz que se sentiu acolhida pelos atendentes. O processo não demorou mais que alguns minutos.
Escaner de íris em loja da World ID em São Paulo @Léu Britto/ Agência Mural
Quem comprou as íris de Débora e Bruno foi a empresa Tools for Humanity, que gerencia o projeto World ID no Brasil, com a proposta declarada de criar um banco global de dados e realizar um estudo para melhorias de tecnologias para segurança digital e biométrica das pessoas.
“Eu não acho que seja ‘tabu’ escanear a íris. Bancos e sistemas de autenticação no celular têm reconhecimento do rosto e da íris. Quando fui atendido, disseram que usavam a íris porque a digital poderia ser burlada”.
Bruno, 26
O real interesse do jovem, porém, também foi investir em criptomoedas. “Eu já tinha outras carteiras digitais. Você pode deixar o dinheiro rendendo, sem sacar”. Até porque retirar o dinheiro não é algo tão simples: o saque no aplicativo controlado pela World é parcelado. A cada aniversário mensal do dia da coleta é possível sacar criptomoedas.
“Hoje nós temos uma população cada vez mais envelhecida, um país com problemas socioeconômicos. [Esse projeto] é um risco para as pessoas de renda mais baixa, que podem se tornar reféns de uma empresa que tem um dado único, que você vai precisar no futuro”, pontua o professor do departamento de Engenharia de Informação da UFABC, Mário Gazziro.
Mas o que de fato é feito com esses dados? O processo legal e seguro? O pagamento é garantido? A Agência Mural foi a pontos de venda e acompanhou jovens periféricos que decidiram vender suas íris para entender o porquê da decisão e o que acontece depois da venda.
Nem tão legal assim
A loja da World ID no Shopping Largo Treze, em Interlagos, zona sul de São Paulo, é bastante discreta. Não há logo, nem uma identificação clara do que se trata, apenas a pintura preta cobrindo a fachada. Mas as janelas estavam abertas, deixando ver os escaneadores – que lembram bolas de cristal com um toque de ficção científica.
No balcão, alguns funcionários aguardavam o movimento. Não demorou: o local, que parecia um tanto misterioso, logo recebeu os primeiros clientes, que falavam com atendentes enquanto utilizavam o celular.
Eles foram convidados a assistir um vídeo e a baixar o aplicativo da empresa. Logo depois, foram orientados a se posicionarem em frente ao globo de metal e em poucos segundos, estava feito: a íris foi escaneada e o crédito foi disponibilizado em criptomoedas.
Clientes se preparam para realizar o escaneamento de íris, em loja da zona sul de São Paulo @Léu Britto/ Agência Mural
Apenas quatro dias após a visita à loja, em 11 de fevereiro, a empresa Tools for Humanity recebeu da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) uma medida preventiva proibindo qualquer compensação financeira pela coleta de íris, por ser uma prática em desacordo com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).
A World ID tentou recorrer à decisão, sem sucesso. Após a proibição, diversos usuários do aplicativo da World ID, que dava acesso às criptomoedas, informaram que começaram a ter dificuldades para usar os serviços da empresa e até mesmo sacar o seu dinheiro, como foi divulgado pelo portal de notícias G1.
Os usuários não conseguiam sacar o dinheiro nem verificar seu saldo ou acessar menus do aplicativo. Todas as fontes ouvidas nesta reportagem relataram problemas semelhantes.
Como garantir mais segurança para seus dados?
É fundamental saber para que e com quem seus dados serão compartilhados, em especial se participar de algum tipo de projeto semelhante a World ID.
Fique ligado nos riscos! O mais comum é o vazamento de dados
Sem almoço grátis: se uma pesquisa paga pelos seus dados é porque eles são muito valiosos
‘Por causa do dinheiro’
A LGPD considera a íris um dado pessoal extremamente sensível. Enquanto as digitais podem apresentar falhas e até serem copiadas, a íris é a mais fiel e segura forma de identificação de uma pessoa.
Por isso, segundo a lei, para coletá-la seria necessário um consentimento mais informado e seguro. Além disso, todo tipo de pesquisa que envolva coleta de dados únicos deve vir acompanhada de um termo ético de “consentimento livre esclarecido” e deve ser totalmente voluntário, sem qualquer compensação financeira.
Questionada, a World ID informou que a coleta de íris tem o objetivo de ajudar pessoas a diferenciar interações humanas reais de inteligências artificiais, “além de aumentar o acesso à economia digital global”.
“É como diz aquela famosa frase: quando a esmola é demais o santo desconfia”, afirma o professor Gazziro. Afinal, porque alguém pagaria por um dado se ele não fosse extremamente importante?
Gisele* até pensou nisso, mas se sentiu segura para realizar o procedimento. Ela chegou ao shopping Interlagos com suas duas filhas crianças e foi direto para a loja da World ID decidida a vender sua íris. Por que?
“A verdade é que a maioria das pessoas topam pelo dinheiro. Eu já conhecia o projeto, havia pesquisado sobre segurança e eles me passaram segurança no atendimento, por isso decidi participar”.
Gisele
Já Everaldo* chegou sozinho. “Enquanto falava com a equipe [de atendentes], eu senti segurança em todo o processo”, conta. Ele baixou o aplicativo da empresa instantes antes de fazer o procedimento. O principal interesse? Receber o valor ofertado pela World ID em criptomoedas, que ele considera que “poderia ser um pouco mais”.
Dias após essas entrevistas, tanto Everaldo, Gisele e Débora enfrentaram dificuldades em utilizar o aplicativo da World ID após o bloqueio da ANPD.
‘Recusei imediatamente’
Era manhã de uma sexta-feira de fevereiro quando a jornalista Isabela do Carmo, correspondente da Agência Mural em Heliópolis, entrou em uma loja da World ID bem próxima a sua casa, em uma das maiores favelas de São Paulo. O ambiente silencioso e vazio chamou a atenção.
“Antes mesmo de poder articular minhas dúvidas, fui conduzida, sem muitas explicações, a uma sala pequena. Ali, um dos funcionários se preparava para me aproximar da máquina que registraria a foto da minha íris e recusei imediatamente”, conta. “Ele começou a explicar que a ideia era coletar dados para ‘melhorar a tecnologia no futuro’”.
Vai e vém e frente loja da World ID. Movimento de clientes é restrito @Léu Britto/ Agência Mural
Cética, Isabela perguntou sobre o pagamento. “O funcionário respondeu com a mesma serenidade que o valor das “worldcoins” variavam de pessoa para pessoa, dependendo de critérios internos da empresa. Os pagamentos, segundo ele, eram feitos dias depois da venda, e os valores poderiam ser trocados em lojas parceiras”.
Na saída, ela tentou conversar com uma senhora de aproximadamente 60 anos, também de Heliópolis, que topou fazer o procedimento. “Ela disse que havia ido até lá unicamente para receber o pagamento prometido, mas que não fazia ideia do que a empresa realmente fazia, muito menos o que era uma inteligência artificial. Sua única preocupação era ter uma renda extra.”
Mas quais os reais riscos?
A segurança e a praticidade de usar sua íris como forma de identificação e senha deverá ser parte de um futuro próximo, sobretudo por garantir muito mais segurança nesses processos. Por isso, a tecnologia deve estar cada vez mais presente no dia a dia, seja para acessar o banco e outros aplicativos, como para entrar em prédios e empresas. E é por isso que esse dado é tão importante.
“No Japão, essa tecnologia já existe e ajuda muitos idosos, principalmente os que possuem doenças degenerativas, como Alzheimer”, afirma o professor Gazziro, da UFABC. “A íris pode ser usada, por exemplo, para melhorar técnicas de autenticação de senhas bancárias. Esses dados, cada vez mais específicos e únicos, também podem ser utilizados para melhorar ainda mais técnicas de publicidade personalizada.”
E é aí que está o problema: possíveis riscos envolvidos na venda da íris não ficam claros. Um ponto que abre espaço para a insegurança é que não se sabe se os dados vendidos se tornam anônimos ou se seguem atrelados a outros dados das pessoas, sendo possível localizar o dono da íris.
Essa, inclusive, é uma prática comum em pesquisas: quem recolhe dados sensíveis, deve garantir que só serão usadas informações que não exponham os participantes. Para o professor Gazziro, o mais ético seria se World ID garantisse que os escaneamentos não retém informações únicas sobre os olhos de nenhum dos mais de 400 mil brasileiros que participaram do projeto.
Questionada, a empresa informou por email que “não armazena quaisquer dados pessoais, incluindo dados de íris, e os titulares verificados do World ID são anônimos”. Segundo a nota, a tecnologia da World ID permite verificar a “humanidade, não a identidade” ao mesmo tempo que “preserva a privacidade e a segurança” dos participantes, enquanto facilita sua participação na “economia digital.”
“Imagine daqui a 10, quando estivermos usando a íris para abrir aplicativos de banco, e alguém tem esse dado único seu!? Não dá pra avaliar o software por trás do equipamento [que escaneia a íris]. Ele vem todo lacrado”.
Mário Gazzio, professor do departamento de Engenharia de Informação da UFABC
Há ainda riscos de vazamento de dados da empresa. “Se até o Serasa, que é uma empresa que lida com informações bancárias e de crédito de todo um país e que investe em segurança digital, teve vazamento de dados, então imagina outras empresas”, questiona Gazziro.
A World ID e a Tools for Humanity também atuaram em outros países que possuem legislações parecidas com a LGPD brasileira, como Espanha, Portugal, Coreia do Sul e Argentina, e também encontraram dificuldades para atuar.
*Os nomes foram alterados para preservar o anonimato dos entrevistados.
** Auxiliaram no levantamento e análise de dados as pesquisadoras Alessandra Oliveira de Jesus, especialista técnica de segurança e Thais Silva Monteiro Araújo dos Santos, advogada que estuda temas como Lei Geral de Proteção de Dados e segurança digital.