Após analisar os processos de licitação da implantação das novas faixas para a ampliação da Marginal Pinheiros em sua região, o arquiteto e urbanista Dimitre Gallego, 45, decidiu lutar por um sonho antigo: um parque linear próximo a Santo Amaro/Jurubatuba, onde nasceu e cresceu, e, no mesmo local onde parte da obra está planejada.
“Eu falei: ou faço alguma coisa, ou ninguém vai fazer nada”, afirma. Para isso, o arquiteto tem utilizado a comoção pública e digital, com uma petição que alcança mais de 25 mil assinaturas.
Em 22 de dezembro de 2023, a Prefeitura de São Paulo abriu uma licitação para o projeto e execução para o prolongamento da Marginal Oeste do Rio Pinheiros. Chamada de “Nova Marginal Pinheiros”, a obra prevê pavimentação, drenagem, construção de novas pontes, viadutos e a abertura viária da região.
Dimitre Gallego, arquiteto com cartazes que pedem o Parque Linear @Mila Maluhy/Divulgação
A extensão prevista é de um total de 8 km, da Ponte João Dias até a Avenida Jair Ribeiro da Silva, na zona sul de São Paulo. O projeto é alvo de críticas por ambientalistas e ciclistas que circulam pela localidade.
O ciclista Thomas Wang, 30, coordenador do coletivo Bike Zona Sul, discorda dos planos da Prefeitura para a área verde situada às margens do Rio Pinheiros, já que é uma região permeável, com diversas árvores e uma ciclovia local.
“A Prefeitura quer desmatar a área para criar um prolongamento da Marginal Pinheiros, destruindo um espaço que já é utilizado pela população e é uma das últimas áreas verdes na beira dos rios urbanos”, afirma.
Thomas destaca ainda que o trecho em questão é único na cidade, pois oferece acesso direto às margens do rio, sem barreiras como avenidas, túneis, pontes ou passarelas. Ele defende o potencial da área para fins que vão além da preservação ambiental.
“Essa área pode ser usada para educação ambiental, ensinando às crianças sobre o rio e a história da cidade, assim como pode se tornar uma área para a prática de esportes e eventos abertos para a população”, afirma Thomas.
Ciclistas e ativistas no ato em defesa do Parque Jurubatuba em junho do ano passado @Mila Maluhy/Divulgação
O coordenador do coletivo Bike Zona Sul reflete sobre as prioridades da gestão. “Em um tempo onde as mudanças climáticas são tão evidentes, será que a cidade precisa de mais vias para carros ou precisa preservar suas poucas áreas verdes?”, afirma.
A justificativa para o projeto, segundo a SP Obras (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras), é melhorar a infraestrutura viária, ampliar a capacidade de tráfego e aprimorar a fluidez e segurança no trânsito local, em uma operação estimada em R$ 1,7 bilhão.
O empreendimento era considerado como vitrine da campanha municipal de 2024, sendo a principal iniciativa viária da gestão Ricardo Nunes (MDB) no ano.
Ativistas foram a prefeitura de São Paulo protocolar documento para o Parque Linear @Mila Maluhy/Divulgação
Mesmo após a licitação ser suspensa temporariamente por auditoria do Tribunal de Contas do Município, indicando que seriam necessários ajustes no edital de licitação, Dimitre segue tentando proteger a última área verde sem avenidas nas margens do Rio Pinheiros e transformar o local no Parque Linear da Jurubatuba, que atenderia de forma ecológica a periferia da região.
“A área possui uma rica fauna e flora, mas não é tão exuberante quanto poderia ser devido ao descaso da administração municipal”, diz. “Existe um argumento de que aquela área não é verde, que não tem árvore, mas a gente tem que entender que a área de várzea de um rio não é uma área super densa.”
4 pontos para entender os impactos
O projeto aconteceria em uma área que definida como ZEPAM (Zona Especial de Proteção Ambiental) desde o Plano Diretor de 2014 e destinada à criação de um parque linear pelo Plano Regional de 2016.
O PIU (Plano de Intervenção Urbana) Arco Jurubatuba, de PL 444/2024, contemplava melhorias viárias a partir das diretrizes do Plano Diretor, mas previa um parque linear inteiramente verde, sem avenidas marginais.
No entanto, a proposta inicial também incluía a construção de uma via com três faixas para carros e um corredor de ônibus, o que resultaria na impermeabilização de cerca de 10% da área verde local — uma extensão equivalente ao tamanho do Parque Burle Marx (138.279 m²) próximo ao Morumbi, também na zona sul de São Paulo.
Dimitre, moradores e ciclistas que passam com frequência pela região, argumentam que a construção criaria barreiras físicas, especialmente para pedestres e ciclistas, dificultando o acesso. Além disso, a previsão de maior poluição sonora e atmosférica preocupa os habitantes.
Para o arquiteto, os problemas já podem ser vistos. O próprio Parque Linear Bruno Covas já é uma das áreas que poderia ser melhor preservada. Hoje, o local é alvo de queixas. “Você não consegue nem ficar sentado ali do lado sem ser incomodado pelo barulho”, relata o arquiteto.
‘Ali tem um cheiro horrível, a qualidade daquele espaço como o parque é terrível, não tem como alguém falar que aquele é um parque agradável de contemplação’
Dimitre, arquiteto e urbanista
Paulo Alves, 40, ciclista, editor e integrante do coletivo Bike Zona Sul, também lamenta a decisão da Prefeitura em priorizar mais pistas para carros na área destinada à obra.
“A Prefeitura prefere gastar bilhões em ações que não surtem nenhum efeito positivo e precariza ainda mais o transporte coletivo com a ausência de investimentos em corredores e faixas que sejam de fato exclusivas para ônibus, além da falta de estruturas cicloviárias nas periferias e total abandono de uma política pública voltada às calçadas amplas e seguras”, comenta.
O custo estimado da obra, de R$ 1,7 bilhão, ainda é questionado por Dimitre. O arquiteto argumenta que esse valor poderia ser melhor empregado em ações como a despoluição do Rio Pinheiros e a ampliação da infraestrutura de transporte público.
Ciclistas junto com a vereadora Renata Falzoni no Ato em defesa do Parque Jurubatuba @Mila Maluhy/Divulgação
Paulo ainda destaca que pesquisas e estatísticas mostram que a maioria das pessoas se locomovem exclusivamente de transporte público, a pé ou de bicicleta: “são cerca de 70% da população que não andam de carro, segundo a pesquisa Rede Nossa São Paulo.”
A pesquisa Viver em SP 2024: Mobilidade Urbana da rede Nossa São Paulo em parceria com o Ipec mostra que em 52% dos domicílios paulistanos há um carro de passeio da família, mas apenas 30% das pessoas dizem que usam carro próprio todos os dias ou quase todos os dias para se deslocar pela cidade. O número de moradores que declararam usar o carro com mais frequência subiu de 19%, em 2023, para 29%, em 2024.
Além disso, Dimitre levanta questionamentos sobre a eficácia da medida. “É óbvio que qualquer rua que você faça nessa cidade vai melhorar o trânsito, assim como a gente não nega que precisa melhorar a mobilidade daquela região, mas o problema é destruir essa área verde para fazer isso”, afirma o arquiteto.
Históricos de investimentos em avenidas e viadutos em São Paulo mostram que soluções voltadas ao transporte individual tendem a gerar novos congestionamentos em poucos anos, sem resolver os problemas de mobilidade urbana. Um exemplo é a avenida Água Espraiada, hoje chamada de Jornalista Roberto Marinho.
Na época, a obra foi realizada sob gestão do ex-governador Paulo Maluf em 1996 a um custo de R$ 840 milhões – considerada a avenida mais cara do mundo naquele período e conhecida também por ‘empurrar’ famílias periféricas do local.
O futuro do prolongamento da Marginal Pinheiros
A Prefeitura de São Paulo, por meio da SP Obras, informou que a licitação para os projetos e obras do prolongamento da Marginal Pinheiros segue suspensa desde 9 de março de 2024, por decisão da 1ª Vara da Fazenda Pública do Estado.
Segundo a SMUL (Secretaria de Urbanismo e Licenciamento), a construção da via no trecho é uma diretriz do Plano Diretor Estratégico, reafirmada na revisão de 2023, e “não exclui a implantação de um parque linear na região” – apesar da afirmação, não destaca os planos para implantação.
A pasta pontuou também, sem informar prazos, que, conforme estudos iniciais, o espaço “receberá nova vegetação, passeios públicos e áreas de descanso”. Ainda segundo a SMUL, o projeto, que possui EIA (Estudo de Impacto Ambiental), passou por consulta e audiências públicas, e incorporou contribuições apresentadas pelos munícipes.