Lucas Perez
Após semanas de discussão sobre não haver clima de Copa, várias ruas foram tomadas pelo verde amarelo. Entenda os motivos nas perifeiras
Por: Ariane Costa Gomes | Carlos Pires | Ana Beatriz Alves | Daniel Santana | Egberto Santana | Gabrielly Souza | Isabela Alves | Lohe Duarte | Rafaela Monteiro | Simony Maia
Notícia
Publicado em 12.06.2026 | 16:53 | Alterado em 12.06.2026 | 17:17
Com a chegada da Copa do Mundo, ruas das periferias da capital e da Grande São Paulo ganharam as cores verde e amarelo do Brasil. Um pouco em cima da hora, é verdade.
Semanas antes do Mundial, que começou nesta quinta-feira (11), a discussão sobre se o clima de Copa ainda estava vivo ou se havia desânimo com o torneio e a seleção brasileira marcava as rodas de conversa. No entanto, o cenário mudou nos últimos dias, na véspera da estreia da equipe de Carlo Ancelotti.
Mas o que levou a essa onda repentina? A Agência Mural ouviu moradores de várias periferias para entender os motivos e como surgiu a vontade de pintar o hexa.
“Não acho que pintamos em cima da hora”, afirma a agente comunitária de saúde Manoela Alves, 24. Ela foi uma das moradoras da Rua Professor Mário Pedrosa, na Vila São Paulo, em Ferraz de Vasconcelos, que se reuniu para fazer a pintura.
Rua Professor Mário Pedrosa - Vila São Paulo, em Ferraz de Vasconcelos @Beatriz Alves/Agência Mural
Rua Professor Mário Pedrosa - Vila São Paulo, em Ferraz de Vasconcelos @Beatriz Alves/Agência Mural
Rua Professor Mário Pedrosa - Vila São Paulo, em Ferraz de Vasconcelos @Beatriz Alves/Agência Mural
Rua Professor Mário Pedrosa - Vila São Paulo, em Ferraz de Vasconcelos @Beatriz Alves/Agência Mural
Rua Professor Mário Pedrosa - Vila São Paulo, em Ferraz de Vasconcelos @Beatriz Alves/Agência Mural
Segundo ela, o movimento surgiu ao ouvir alguns vizinhos relembrando como era o clima das Copas anteriores. A decisão de fazer a pintura nos últimos dias não foi motivada por desânimo, mas por estratégia.
‘Foi em um momento adequado. Meu medo era pintar muito antes e desbotar antes da estreia do Brasil’
Manoela, moradora de Ferraz de Vasconcelos, sobre a pintura nas véspera da Copa
Do outro lado da Grande São Paulo, em Osasco, Nilsandro Carvalho, 28, tem uma explicação diferente.
Nilsandro mora próximo da rua Poeta João Cabral de Melo Neto, que foi pintada uma semana antes do primeiro jogo da seleção. A ação reuniu cerca de 30 moradores e transformou a via em ponto de visitação nos dias seguintes.
Para ele, a convocação anunciada por Carlo Ancelotti e a expectativa em torno de Neymar ajudaram a reacender o entusiasmo dos torcedores. “Acho que foi um efeito Neymar. Veio a esperança”, resume, sobre o jogador que era dúvida até o último dia. O atleta segue em recuperação de uma lesão e ainda não tem estreia marcada.
Ruas pintadas em São Mateus, perto da Favela Galeria @Ludimile Silva/ São Mateus em Movimento
Ruas pintadas em São Mateus, perto da Favela Galeria @Ludimile Silva/ São Mateus em Movimento
Ruas pintadas em São Mateus, perto da Favela Galeria @Ludimile Silva/ São Mateus em Movimento
Ruas pintadas em São Mateus, perto da Favela Galeria @Ludimile Silva/ São Mateus em Movimento
Ruas pintadas em São Mateus, perto da Favela Galeria @Ludimile Silva/ São Mateus em Movimento
Ruas pintadas em São Mateus, perto da Favela Galeria @Ludimile Silva/ São Mateus em Movimento
Ruas pintadas em São Mateus, perto da Favela Galeria @Ludimile Silva/ São Mateus em Movimento
Ruas pintadas em São Mateus, perto da Favela Galeria @Ludimile Silva/ São Mateus em Movimento
Ruas pintadas em São Mateus, perto da Favela Galeria @Ludimile Silva/ São Mateus em Movimento
“Ele [Neymar] que vai trazer o presente para a gente”, afirmou o barbeiro e cantor Emerson Simplicio Santos, 30, morador de São Mateus, na zona leste de São Paulo. A decoração das ruas foi organizada pelo coletivo São Mateus em Movimento em conjunto com moradores e artistas locais.

Em Diadema, crianças desenham camisa de Neymar. Convocação foi um dos estímulos, segundo moradores @Arquivo pessoal/Divulgação
Mas foi por causa de Neymar que decidiram pintar agora?
“Eu, sendo santista, dentro de mim já tem um dedinho disso aí. Apoiando um pouco também a última Copa do cara.”
Apesar disso, Emerson explica que a pintura já estava planejada, mas houve atrasos para reunir os vizinhos e arrecadar dinheiro para a vaquinha.
‘O brasileiro se encontra muito triste. Tem muita dificuldade e muita coisa acontecendo no dia a dia. Quando a gente chega em uma rua enfeitada, com uma vibe lá em cima, consegue renovar essa energia’
A fotógrafa Ludimile Silva, 24, destaca que a mobilização também ajudou a reunir pessoas que, muitas vezes, não tinham contato frequente entre si.
“A gente queria deixar a rua mais alegre, mais animada, trazer um pouco mais de esperança e criar tudo na coletividade.”
Além disso, para viabilizar as pinturas, eles contaram com apoio de uma marca de tintas, outra características vistas em algumas periferias.
Em Guarulhos, por exemplo, moradores conseguiram doações de latas de tinta de uma fabricante e apoio de um vereador da cidade.
A mobilização começou após a criação de um grupo de WhatsApp para reunir moradores interessados em reviver o costume das ruas decoradas. O projeto se espalhou pela Viela Teerã, Rua José da Penha e vias vizinhas no Parque Santos Dumont.
‘O que mais motivou a gente foi poder viver esse momento junto com as nossas crianças. Ver a felicidade delas participando, pintando a rua, se divertindo e ajudando a deixar a nossa comunidade mais bonita não tem preço’
Diego Delafina, 26, técnico de som
Goleiro de um time de várzea da comunidade, o ajudante de impressão Danilo Rodrigues, 26, foi o responsável por grande parte dos desenhos que decoram o bairro.
“Me inspirei em algumas ideias da internet e fiz a minha versão para as paredes aqui da favela. Desenho desde 2010. Em 2014, já havia ajudado nos desenhos da Copa e fico feliz em poder contribuir novamente”, comenta Danilo.
Morador de Guaianases, na zona leste de São Paulo, Tadeu comenta que a tradição vinha se perdendo. “Desde 2002 colocamos muitas fitinhas e pintura. Em 2006 foi a mesma coisa. Em 2010 não participamos. Em 2014 voltamos e, em 2018 e 2022, foi bem tímida a participação”, relembra.
Neste ano, porém, a tradição ganhou novo impulso. De acordo com ele, foram os mais jovens que assumiram a iniciativa de voltar a decorar as ruas. “A motivação maior em 2026 é que os pequenos cresceram e resgataram esse trabalho. É maravilhoso”, afirma.
No Jardim Ibirapuera, na zona sul da capital, a Rua Salgueiro do Campo ganhou cores, bandeirinhas e desenhos graças à mobilização de moradores ligados a iniciativas culturais do território, como o Bloco do Beco e o Ateliê Ibira 30. Cerca de 60 pessoas participaram da decoração em dois dias de trabalho.
Cerca de 60 pessoas entre moradores e apoiadores participaram das pinturas na Rua Salgueiro do Campo @Daniel Santana/Agência Mural
Crianças e jovens também marcaram presença nas pinturas do Jardim Ibirapuera @. Daniel Santana/Agência Mural
Eduardo Duetho, 33, um dos idealizadores da pintura na Rua Salgueiro do Campo, no Jardim Ibirapuera @Daniel Santana/Agência Mural
Eduardo participando da pintura da Rua Salgueiro do Campo @Bloco do Beco
O desejo dos moradores do Jardim Ibirapuera (e de todos nós) é a conquista do hexacampeonato mundial @Bloco do Beco
Trecho da pintura da Rua Salgueiro do Campo, no Jardim Ibirapuera @Bloco do Beco
Para o produtor cultural Eduardo Duetho, 33, a ação tem um significado que vai além da torcida pela seleção brasileira.
“A gente enfrenta diversos desafios sociais, mas a Copa do Mundo e o esporte são grandes agregadores sociais. Aqui, vemos crianças, idosos, homens e mulheres pintando juntos”, afirma.
Em Diadema, no ABC Paulista, a pintura da Rua Badejo, no Eldorado, nasceu com um objetivo parecido. Os responsáveis pelo projeto social Unidos da D’Deus decidiram organizar a decoração para estimular a convivência entre os moradores e incentivar as crianças a ocuparem novamente os espaços públicos.
Em Diadema, crianças ajudaram na pintura com desenhos sobre o canarinho e Neymar @Projeto Unidos da D' Deus
Em Diadema, crianças ajudaram na pintura com desenhos sobre o canarinho e Neymar @Projeto Unidos da D' Deus
Em Diadema, crianças ajudaram na pintura com desenhos sobre o canarinho e Neymar @Projeto Unidos da D' Deus
Em Diadema, crianças ajudaram na pintura com desenhos sobre o canarinho e Neymar @Projeto Unidos da D' Deus
Em Diadema, crianças ajudaram na pintura com desenhos sobre o canarinho e Neymar @Projeto Unidos da D' Deus
Em Diadema, crianças ajudaram na pintura com desenhos sobre o canarinho e Neymar @Projeto Unidos da D' Deus
Em Diadema, crianças ajudaram na pintura com desenhos sobre o canarinho e Neymar @Projeto Unidos da D' Deus
Em Diadema, crianças ajudaram na pintura com desenhos sobre o canarinho e Neymar @Projeto Unidos da D' Deus
“A nossa intenção é resgatar tradições antigas, tirar as crianças das telas e incentivá-las a voltar a brincar na rua”, diz Geovane de Jesus, 30, operador de empilhadeira e um dos diretores da iniciativa.
A preocupação com as novas gerações aparece em praticamente todos os relatos ouvidos pela Agência Mural.
A nostalgia também foi o combustível para a mobilização em frente ao campo do S.C. Batti Fácil, na Vila Nhocuné, zona leste da capital. A colaboradora Andresa Ariane, 39, conta que o grupo decidiu decorar a rua para proporcionar aos mais novos uma experiência semelhante à que viveram na infância.
“A lembrança de como era bom fazer isso na infância. E poder proporcionar isso para os pequenos.”
SC Batti Fácil liderou ações na Vila Nhocuné @Arquivo pessoal/Divulgação
SC Batti Fácil liderou ações na Vila Nhocuné @Arquivo pessoal/Divulgação
Já no Grajaú, na zona sul da capital, a correria da rotina fez com que a decoração fosse realizada apenas poucos dias antes do início dos jogos. Mesmo assim, os moradores consideraram importante não deixar a data passar em branco.
“A Copa do Mundo é algo que une as pessoas das periferias, assim como elas se unem para fazer um mutirão para bater uma laje ou organizar as bandeirinhas das festas juninas. É um momento único”, afirma o artista visual Jonatas Rodrigues dos Santos, 44.
Além de pintar bandeiras e mensagens de apoio à seleção, os moradores aproveitaram a ocasião para criar espaços permanentes de convivência. Na rua sem saída onde vivem, demarcaram um campinho para as crianças e até uma amarelinha reinventada pelos próprios pequenos.
No bairro Nova Poá, em Poá, na Grande São Paulo, a tradição da pintura temática da Copa do Mundo segue viva com o açougueiro e churrasqueiro Ailson Torres, 35, o eletricista Luan Barreto, 32, e o jovem Vitor, 12, junto de outros vizinhos da rua Orlando Lopes da Silva.
As artes no concreto incluem o Zé Carioca, personagem brasileiro da Disney, o Neymar, estrela da seleção, o Canário, a camisa do Pelé, as bandeiras do grupo do Brasil na Copa, alguns mascotes e até uma bola pegando fogo, criação própria do grupo. Houve até um desenho do brasão da CBF em 3D.
Para Ailson, manter a rua colorida a cada quatro anos é uma forma de continuar a tradição dos antepassados, honrando a tradição. “Para mim, ver a rua pintada é saber que ali a gente representa o Brasil de alguma forma, deixando a rua linda também, e saber que temos artistas dentro da vila”, ressalta.
A decoração com 38 bandeiras do Brasil pintadas na rua da Luiz Villar, no Cipava, bairro da zona sul de Osasco, conquistou as redes sociais e faz parte de uma tradição que já dura 44 anos, tendo passado por 11 edições da Copa do Mundo.
Segundo o morador, Lucas Straioto, 32, os preparativos para a ação começaram aproximadamente dois meses antes da pintura e envolveu buscar liberação da Prefeitura, cotar os materiais e fazer a vaquinha entre os moradores. A estimativa é que 150 pessoas tenham participado da ação.
“Começamos às 6h30 e terminamos a última pincelada umas 17h”, conta. O resultado do trabalho foi postado no perfil do Instagram da Rua Luiz Villar, que já acumula mais de 1.990 seguidores.
As imagens das bandeiras pintadas na rua atingiram repercussão nacional e internacional, impulsionadas pelas publicações de visitantes e reportagens exibidas em veículos de imprensa.
“No final das contas não tem a ver com seleção brasileira e resultado na Copa. Tem a ver com confraternização, união e esse sentimento de pertencimento e comunidade, que é algo difícil no cotidiano. Pessoas se unindo, crianças brincando e se divertindo”, destaca.

Na última terça-feira (9), a pintura da rua foi danificada após uma intervenção realizada pela Sabesp. A ação gerou indignação nos moradores e apoiadores. Em resposta à imprensa local, a Sabesp afirmou que a intervenção foi feita a pedido de um morador para ligação de um imóvel à rede de esgoto.
A empresa entrou em contato com os organizadores e enviou duas latas de tinta nas cores verde e amarela e rolos de tinta para auxiliar na recuperação do trecho afetado. Segundo o jornalista, o reparo da pintura será feito pelos moradores na manhã do jogo de estreia da seleção brasileira contra o Marrocos.
Jornalista, acredita que a informação e a educação são ferramentas fundamentais para transformar as pessoas e a sociedade. Gosta de aprender e conhecer coisas novas, estar ao lado das pessoas que ama, ouvir música e ficar junto de suas duas cachorrinhas. Correspondente de Osasco desde 2015.
Apaixonado pela cultura Hip-Hop, quadrinhos, audiovisual e futebol. Como jornalista das ruas e fotojornalista, uno minhas paixões para destacar a realidade da quebrada e promover a visão periférica. Correspondente de Guaianases desde 2023.
Jornalista, ferrazense e escritora. Boa ouvinte e contadora de histórias. Correspondente de Ferraz de Vasconcelos desde 2023.
Jornalista, apaixonado por livros, samba e carnaval. Corintiano, vivo o futebol de domingo a domingo. Adoro contar histórias através do jornalismo.
Jornalista, também é crítico de cinema e redator. Sempre ouvindo ou assistindo alguma coisa, do novo ao velho, do longa-metragem ao reels do Instagram ou Tik Tok. Correspondente de Poá desde 2021.
Jornalista e pós-graduanda em Jornalismo Cultural pela UERJ. Correspondente local em Guarulhos e moradora do bairro dos Pimentas. Também atuo como jornalista na TV Cultura.
Jornalista e cineasta da quebrada. Pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura e em Gestão de Projetos Culturais pelo CELACC/USP. Fundadora da Parasita Filmes, produtora independente dedicada a contar histórias do extremo sul de São Paulo.
Jornalista, Mestre de cerimônia e organizadora de eventos corporativos. Catequista na paróquia do bairro. Católica e mãe. Ama pessoas e histórias.
Jornalista, cria do Conquix (São Mateus). Tagarela que está sempre em busca de tornar a comunicação acessível e gostosa de consumir. Correspondente desde 2025.
Jornalista que se aventura pelo universo das redes sociais falando sobre política, cultura e entretenimento. Em busca de sempre vivenciar novas trocas para contar boas histórias. Correspondente de Diadema desde 2023.
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