Jovens montam acervo com 170 títulos, dos clássicos a mangás, e apostam no esporte para aproximar skatistas da literatura
Beatriz Alves/Agência Mural
Por: Ana Beatriz Alves
Notícia
Publicado em 13.07.2026 | 19:37 | Alterado em 13.07.2026 | 19:37
Quem curte a pista de skate da Vila São Paulo, em Ferraz de Vasconcelos, nota que o vaivém dos skates divide a atenção com um elemento inusitado: uma geladeira grafitada e cheia de livros. A chamada “geloteca” virou ponto de parada para quem quer ler histórias em quadrinhos, livros de aventura, romances e clássicos da literatura durante os intervalos das manobras.
O projeto começou em dezembro de 2024, por iniciativa de Douglas Lustosa, 20, morador do bairro e integrante do coletivo “VSP Skate Life”, um grupo de 14 jovens que se une para cuidar da pista e movimentar o espaço. Querendo levar ações culturais para mais perto dos jovens, ele decidiu unir o universo do skate ao incentivo à leitura.

Douglas, idealizador do projeto biblioteca comunitária busca desmistificar a literatura e incentivar o hábito de ler na Vila São Paulo @Beatriz Alves/Agência Mural
“A ideia era somar com o ecossistema do esporte. A grande maioria [dos frequentadores] são jovens de 15 a 30 anos, que às vezes só precisam de um incentivo ou da oportunidade de ter um livro na mão”, conta Douglas.
Inspirado nas “gelotecas” das estações de trem de Ferraz de Vasconcelos e Mogi das Cruzes, ele enxergou na pista de skate o cenário ideal para criar um ponto de encontro com as histórias, já que o bairro fica afastado do centro da cidade, onde fica a única biblioteca pública do município da Grande São Paulo.
Para transformar a ideia em realidade, o jovem conseguiu uma geladeira antiga que seria descartada, doada por um colega. Em parceria com João Belmonte, idealizador do projeto de gelotecas em São Paulo, o eletrodoméstico ganhou nova identidade, com grafites em cores vibrantes. Por fim, ela foi instalada em frente a pista, na rua Mariana Junqueira.
Desde o início, o projeto contou com o apoio de quem frequenta os eventos e a pista para dar os primeiros passos. O envolvimento local foi tanto que a manutenção é feita de forma independente: a cada seis meses, artistas da região se mobilizam, através de uma “vaquinha”, para renovar os grafites e a identidade visual da geloteca.
O acervo da biblioteca, que hoje reúne ao menos 170 livros, é fruto de doações. Para garantir que os livros continuem circulando, Douglas conta com o apoio de Diego Novais, 32, também morador da Vila São Paulo.
Juntos, eles organizam novos títulos doados por quem acredita no projeto e por sebos parceiros. Atualmente, a dupla mantém uma planilha e um site para controlar o acervo e os empréstimos.
Para Diego, fazer parte da curadoria vai além de organizar prateleiras: “tem algo muito potente em pegar um livro que foi escolhido [por alguém] . É como um convite pra gente se conectar com outras histórias”.
Os leitores podem levar a obra para casa e ficar com ela pelo tempo que precisar, devolvendo depois de concluir a leitura, sem prazo determinado.
‘[O empréstimo] parece simples, mas carrega um senso de cuidado coletivo, de responsabilidade com o outro. É um movimento de confiança: você pega um livro sabendo que outra pessoa vai ler depois. E isso cria uma rede, uma circulação de conhecimento’
Diego, morador da Vila São Paulo
A dinâmica de confiança nos empréstimos e incentivo à leitura rende bons frutos, em especial entre os skatistas. Um deles é o analista de tecnologia da informação Gustavo Prado Henrique, 29, que encontrou na geladeira da pista uma oportunidade de se reconectar com a leitura nos intervalos dos seus treinos.
O último título que retirou foi “O Livro dos Manuais”, de Paulo Coelho, e se surpreendeu com o impacto da história em seu cotidiano.

Prateleiras repletas de doações ficam à disposição de quem visita o espaço @Beatriz Alves/Agência Mural
“O livro me fez refletir sobre questões da vida. Ele aborda problemas do nosso cotidiano, nos fazendo pensar sobre como lidamos com a vida e se prestamos atenção ao momento presente. Tudo é transmitido em uma linguagem objetiva, o que facilita a compreensão.”
Para o jovem, as lições das páginas dialogam diretamente com a persistência exigida pelo skate: “o maior impacto que esse livro trouxe para a minha vida foi me fazer entender o valor dos erros e das quedas, mostrando que eles fazem parte do nosso aprendizado e da nossa evolução. Ele me trouxe uma perspectiva mais madura sobre como lidar com as dificuldades e o caos do dia a dia”, relata.
Quem também se sentiu impactado pelas leituras oferecidas pelo projeto foi o professor Henrique Teixeira dos Santos Bomfim, 25, frequentador da pista de skate desde 2014. Para ele, os livros ganham força quando saem das estantes tradicionais e vão para as ruas.

Primeira pintura da geladeira foi realizada com auxílio do artista João Belmonte @Arquivo pessoal/Divulgação
Com a geloteca da pista de skate, Henrique teve contato com o livro “Movimento negro e educador: Saberes construídos nas lutas por emancipação”, da pedagoga brasileira Nilma Lino Gomes.
“Na obra, a autora argumenta sobre a importância do movimento negro na produção de conhecimentos capazes de transformar a sociedade e fortalecer a construção de uma educação antirracista. Entendi que é fundamental garantir que a comunidade tenha acesso a saberes que, muitas vezes, permanecem restritos ao ambiente escolar e universitário”.
Na tentativa de se conectar ainda mais com o público, Douglas começou a produzir vídeos com resenhas e recomendações de livros nas redes sociais. Sem a pretensão de ser um crítico, ele busca divulgar e desmistificar obras importantes, como as de Machado de Assis, instigando os jovens a quebrarem a barreira do primeiro passo na leitura.
“O retorno mais marcante foi ver minha irmã Maia, de 11 anos, desenvolver o hábito da leitura, pegando livros ou quadrinhos para ler na pista de skate. Isso me dá mais vontade de expandir o projeto”, conta orgulhoso.
Daqui para a frente, o plano de Douglas é fazer a biblioteca comunitária crescer ainda mais e alcançar novos espaços.
“A minha meta é a construção de um local que comporte um acervo mais robusto, furando a bolha da pista de skate e desenvolvendo um espaço na Vila São Paulo que possa incentivar a leitura no geral”.
Jornalista, ferrazense e escritora. Boa ouvinte e contadora de histórias. Correspondente de Ferraz de Vasconcelos desde 2023.
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