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Agência de Jornalismo das periferias

Arquivo pessoal

Por: Júllia Zequim

Crônica

Publicado em 17.07.2026 | 15:20 | Alterado em 17.07.2026 | 15:21

Tempo de leitura: 4 min(s)

A maioria dos domingos, para mim, são dias mais melancólicos, anunciando o fim do descanso e a chegada de mais uma segunda-feira. Mas o 5 de julho de 2026 foi particularmente amargo. Foi nesse dia que a seleção brasileira foi eliminada da Copa do Mundo, nas oitavas de final, para a Noruega, por 2 a 1 – uma sequência de fatos que, confesso, ainda não parecem fazer sentido.   

Eu saí de casa, em Santo André, no ABC Paulista, e fui até o Butantã, na zona oeste de São Paulo, para assistir o jogo com os meus amigos. Me arrependi muito! A Linha Amarela do Metrô nunca esteve tão cabisbaixa. Durante o percurso de volta, não consegui parar de pensar na estranheza de viver no “país do futebol” sem nunca ter visto a seleção ganhar sequer uma Copa do Mundo

Para a maioria dos jovens nascidos depois do Pentacampeonato, em 2002, o sentimento é de que torcemos por uma equipe que vem acumulando derrotas e decepcionando os que são (ou não) apaixonados pelo esporte. 

O artista independente João Vitor Meza, 23, também de Santo André é um dos que se sente assim. Conhecido como Mezadrak, ele joga bola desde a infância e estava muito empolgado com a Copa. “Sou apaixonado por futebol, sempre joguei e acompanhei o esporte, por ter tido o sonho de ser jogador, como muitos moleques na periferia. Realmente achei que nosso Hexa viria em 2026…” 

Apaixonado por futebol, João joga bola desde a infância e sonhava em ser jogador profissional @Arquivo pessoal

Além da tristeza de perder o duelo contra a Noruega – uma seleção que sequer era favorita – Mezadrak conta que a eliminação impede pequenas mudanças de rotina nas periferias, que deixam tudo mais legal na época da Copa. Uma delas é sair mais cedo do trabalho nos dias de jogos do Brasil, para torcer com amigos, familiares e vizinhos. 

“Perdemos a emoção conjunta do ‘país do futebol’, que quer ver nossa seleção sendo vencedora de uma Copa. É um sentimento de tristeza, por amar o esporte e acreditar na equipe”, conta, lembrando que não via “os vikings” como possíveis ameaças para o Brasil. 

O jejum de vitórias da seleção, que está há 24 anos sem levantar a taça, decepciona o jornalista Luiz Ottolini, 21, de Santo André. Ele acredita que uma equipe respeitada como a canarinho deveria ter se imposto mais nos jogos. Ele define o confronto contra a Noruega como “apático” e queria ter visto mais raça dos jogadores.

“A camisa da seleção brasileira pesa muito por ter cinco estrelas, mas os jogadores que a vestem não sentem o peso disso. A minha geração só viu fracasso atrás de fracasso. O Brasil era conhecido por ser aquele time que pega e brinca com a bola, faz gol e continua, mas não foi isso que vimos”.

Luiz, à direita, sonha em ver o Brasil campeão de uma Copa do Mundo @Arquivo pessoal

Apesar de reconhecerem falhas na gestão do esporte, as expectativas dos jovens eram altas. Eles se reuniram na casa de amigos e familiares para ver as partidas, viram as ruas dos seus bairros sendo pintadas e os clubes e espaços culturais de Santo André se organizando para exibir os jogos.

É o caso da economista Isabela Dias, 22, uma apaixonada por futebol. Ela cresceu vendo o pai, o avô e o tio assistindo às partidas do Santos, seu time do coração. Apesar das boas lembranças, a jovem conta que, por vezes, deixou o esporte de lado por conta das frustrações com a administração do clube alvinegro praiano. 

Para ela, os desafios da seleção brasileira vão muito além da preparação física dos jogadores, da qualidade dos convocados ou da estratégia adotada em campo. “O problema do futebol é estrutural, vai muito além de um jogo. É a corrupção dos clubes, jogadores que se acham maiores que a seleção… É frustrante porque nunca vi o Brasil ganhar nada.” 

Santista de carteirinha, Isabela vestiu a camisa da seleção na Copa do Mundo
Ela se reuniu com amigos e familiares para torcer pelo Hexa
Criança, Isabela mostra nas mãos o sonho do Brasil no futebol: levantar a taça seis vezes

Santista de carteirinha, Isabela vestiu a camisa da seleção na Copa do Mundo @Arquivo pessoal

Ela se reuniu com amigos e familiares para torcer pelo Hexa @Arquivo pessoal

Criança, Isabela mostra nas mãos o sonho do Brasil no futebol: levantar a taça seis vezes @Arquivo pessoal

Essa foi a primeira Copa do Mundo em que os  jovens da Geração Z já são adultos e, posso garantir, a sensação foi bem mais decepcionante do que nas outras eliminações, quando tudo era visto pelas lentes da infância. Mas afirmo também que nossa sede de Hexa permanece, mesmo que aos trancos e barrancos. 

Ainda acho engraçado pensar como fiquei tão triste e decepcionada naquele 5 de julho, por conta da atitude de jogadores que sequer admiro e que, em um dia normal, eu não me comoveriam. Mas na Copa é diferente, né?!

Quando o atleta entra em campo, ele se torna um símbolo, uma esperança, um artista. São 90 minutos que mudam tudo – inclusive a história e as memórias de milhões de jovens com o grito da conquista entalado na garganta. Bora para 2030!

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Júllia Zequim

Jornalista em formação e redatora. Aspirante a fotojornalista, saudosista do futuro e capricorniana. Apaixonada por cultura, arte e contar histórias.

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