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Agência de Jornalismo das periferias

Gabrielly Souza/Divulgação

Por: Gabrielly Souza

Notícia

Publicado em 16.07.2026 | 12:14 | Alterado em 16.07.2026 | 12:14

Tempo de leitura: 5 min(s)

Andar por Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo, virou um desafio para motoristas e pedestres. Em 12 pontos da cidade, valas abertas, tapumes, máquinas e interdições fazem parte da paisagem e do trânsito.

As obras do Programa IntegraTietê ocupam ruas e avenidas da cidade para a ampliação da rede de coleta e tratamento de esgoto. Apesar de reconhecer a importância da ampliação do saneamento, moradores questionam a falta de aviso sobre interdições, a dificuldade de conseguir alternativas para desafogar o trânsito e a demora na conclusão das obras.

A iniciativa teve início em 2023, nas cidades de Guarulhos, Franco da Rocha e Francisco Morato, por meio de uma parceria entre a Semil (Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística) do Estado de São Paulo e a Sabesp. A ideia é atuar em conjunto nas áreas de recursos hídricos, meio ambiente, drenagem, logística e governança.

Funcionários da Sabesp realizam trabalhos em um trecho da obra na Avenida Venturosa, no bairro de Cumbica @Gabrielly Souza/Divulgação

Entre as vias de Guarulhos com interdições estão a Avenida Monteiro Lobato, no centro da cidade, e ruas de bairros periféricos, como a Rua Silvio Manfred e a Avenida Venturosa, em Cumbica. Por lá, as intervenções se estendem por diferentes trechos do distrito.

De acordo com a Semil, o principal objetivo do programa é recuperar a qualidade das águas do rio Tietê e de seus afluentes. A principal ação prevista é a ampliação da coleta e do tratamento de esgoto, considerada a medida mais eficaz para reduzir a carga orgânica despejada nos cursos d’água e promover a recuperação ambiental do rio.

Segundo a Sabesp, Guarulhos conta atualmente com 12 frentes de obras para expansão da rede coletora de esgoto. A previsão é que todas sejam concluídas no segundo semestre de 2026, beneficiando cerca de 871 mil moradores.

Em Guarulhos, o índice de tratamento de esgoto era de 14,22% em 2022. Ao fim de 2025, o percentual chegou a cerca de 45%. A meta das entidades é atingir 78% em 2026 e avançar para 99% até 2029, quatro anos antes do prazo estabelecido pelo Marco Legal do Saneamento.

O Marco Legal do Saneamento (Lei Federal nº 14.026/2020) estabelece diretrizes para a universalização dos serviços de água e esgoto no Brasil, até 31 de dezembro de 2033. A legislação prevê que, até essa data, 99% da população tenha acesso à água potável e 90% à coleta e tratamento de esgoto.

Trânsito e dificuldade de locomoção

Enquanto a ampliação da rede promete melhorar os indicadores da cidade, moradores de bairros periféricos, como os Pimentas e Cumbica, convivem diariamente com os transtornos provocados pelas intervenções. Vizinhos relatam que as obras começaram sem aviso e reclamam dos impactos na circulação de veículos e no acesso às residências e ao comércio.

Na rua São José da Laje, no Parque Alvorada, os trabalhos ocorrem há pelo menos um ano. O morador Adeildo de Caldas Leite, marceneiro, 58, afirma que a rotina foi alterada pelas interdições e pela demora na conclusão dos serviços.

‘Eles montaram as estruturas do nada, no meio da rua e interditaram a passagem. Tem dia que não passa nem uma bicicleta, imagina uma pessoa com mobilidade reduzida? E a gente só vê máquinas paradas, como se fosse um depósito’

Adeildo, morador do Parque Alvorada

“O barulho é constante, é difícil circular. A sensação é que a obra mais atrapalha do que avança”, diz

Na região da Rua Sílvio Manfred, no bairro de Cumbica, motoristas também sentem os impactos das obras realizadas pela Sabesp. A interdição parcial de faixas de circulação tem provocado lentidão e agravado o trânsito, especialmente nos horários de maior movimento no bairro, como nos períodos de saída das escolas e no fim do expediente de empresas metalúrgicas da região.

Trecho de obra da Sabesp em frente a uma empresa metalúrgica na rua São José da Laje, no Parque Alvorada @Gabrielly Souza/Divulgação

A gerente operacional Caroline Torres, 43, que utiliza diariamente a Rua Sílvio Manfred no trajeto de ida e volta ao trabalho, relata que as intervenções aumentaram o tempo de deslocamento.

“O trânsito já costuma ficar bem carregado no horário de pico. Nesse trecho, a situação piora. Preciso sair com mais antecedência, tanto de casa quanto do trabalho, e muitas vezes fazer caminhos mais longos para tentar fugir do congestionamento”, afirma.

Quando a obra termina, a realidade muda

Se para alguns moradores o período das obras é marcado por transtornos, para comunidades que já receberam a infraestrutura o resultado é visto como uma mudança para melhor.

Há 18 anos líder comunitário da Comunidade Nova Conquista, no bairro do Taboão, Marcos Nóbrega, 47, afirma que a principal luta dos moradores era garantir acesso ao saneamento básico. Durante anos, eles viveram sem rede de água e esgoto e a implantação da infraestrutura, concluída em 2025, transformou a realidade local.

‘O sonho do pessoal aqui era ter uma conta de água. Quando a pessoa ia procurar emprego, muitas vezes pediam um comprovante de residência. Sem uma conta de água ou de luz, ela perdia oportunidades ou passava por situações constrangedoras’

Marcos, líder comunitário


Segundo ele, a falta de serviços básicos também fazia com que a comunidade fosse invisibilizada pelo poder público.

“Aqui do lado, nos bairros vizinhos, todo mundo tinha água e esgoto tratados. Nós, por sermos uma comunidade, não tínhamos. Somos os mesmos seres humanos e também precisamos de saneamento básico. Água tratada traz saúde, educação e dignidade.”

Com a implantação do programa da Sabesp, a comunidade passou a contar com abastecimento de água e coleta de esgoto.

Marcos Nóbrega, líder comunitário da comunidade Nova Conquista @Gabrielly Souza/Divulgação

“Hoje a gente faz parte da cidade de verdade. A gente paga a conta de água, paga pelo esgoto e deixa de poluir o meio ambiente. Isso muda a forma como a comunidade é vista e como os moradores se enxergam.”

As obras foram executadas em etapas. Primeiro, foi implantada a rede de esgoto e, em seguida, a de abastecimento de água. Antes do início das intervenções, equipes da Sabesp realizaram reuniões e assembleias com os moradores para apresentar o projeto, esclarecer dúvidas e explicar as condições de adesão ao programa.

Como a maior parte das famílias da comunidade está inscrita no Cadastro Único (CadÚnico), ficou acordado que os moradores poderiam aderir à tarifa social da Sabesp, garantindo desconto na conta de água e esgoto.

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Comunidade Nova Conquista, onde moradores passaram a contar com rede de água e esgoto após anos sem saneamento básico

Comunidade Nova Conquista, onde moradores passaram a contar com rede de água e esgoto após anos sem saneamento básico @Gabrielly Souza/Divulgação

Trecho da rua São José da Laje, próximo ao campinho do Gentil, passa por obras da Sabesp

Trecho da rua São José da Laje, próximo ao campinho do Gentil, passa por obras da Sabesp @Gabrielly Souza/Divulgação

Placa de sinalização de obras na Rua Sílvio Manfred, no bairro de Cumbica

Placa de sinalização de obras na Rua Sílvio Manfred, no bairro de Cumbica @Gabrielly Souza/Divulgação

Tubulação de concreto da Sabesp armazenada no acampamento da concessionária, em Cumbica

Tubulação de concreto da Sabesp armazenada no acampamento da concessionária, em Cumbica @Gabrielly Souza/Divulgação

Marcos afirma que a ausência de saneamento favorecia o surgimento de diversos problemas de saúde. Como o abastecimento era feito por ligações clandestinas, vazamentos e improvisações acabavam contaminando a água consumida pelas famílias.

“Havia muitos casos de diarreia, problemas de pele, irritações nos olhos e infecções. As crianças brincavam perto do esgoto sem saber do risco. Era muito comum ver moradores procurando atendimento no posto de saúde por doenças relacionadas à falta de saneamento.”

Apesar dos avanços, ele afirma que ainda há desafios. Ao menos 20 imóveis permanecem sem ligação à rede de esgoto, porque estão abaixo do nível da tubulação instalada, o que exige uma solução técnica da Sabesp.

“Ou faz 100% ou não faz. Tem moradores pagando pela coleta de esgoto sem estarem ligados à rede. Isso precisa ser resolvido”, reclama Marcos.

Em 27 de junho, quando a Agência Mural esteve na comunidade, um representante da Sabesp estava reunido com o líder comunitário para buscar soluções. A reportagem questionou a empresa sobre a localização das 12 obras em andamento em Guarulhos, mas a companhia não informou os endereços das intervenções.

A Agência Mural identificou obras em diferentes regiões da cidade, entre elas:

  • Avenida Monteiro Lobato, Centro;
  • Avenida Paulo Faccini, Centro;
  • Parque Bosque Maia, Centro
  • Av. Pres. Tancredo de Almeida Neves, Recanto Bom Jesus
  • Rua São José da Laje, Parque Alvorada
  • Rua Medeia, Parque Alvorada
  • Rua Silvio Manfred, Jardim Cumbica
  • Avenida Venturosa, Jardim Cumbica
  • Rua Jutaí, Jardim Ansalca
  • R. Maria Isabel Rezende, Vila Izabel
  • Rua Narcizo Gomes de Oliveira, Jardim Santa Lídia
  • Trevo de Bonsucesso

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Gabrielly Souza

Jornalista e pós-graduanda em Jornalismo Cultural pela UERJ. Correspondente local em Guarulhos e moradora do bairro dos Pimentas. Também atuo como jornalista na TV Cultura.

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