Agência de Jornalismo das periferias

Ira Romão/Agência Mural

Por: Daniel Santana

Crônica

Publicado em 23.07.2026 | 14:36 | Alterado em 23.07.2026 | 14:38

Tempo de leitura: 2 min(s)

“O correto seria ficar dentro do trem.” Essa foi a frase dita pelo diretor da Trívia Trens, Paulo Ferreira, em entrevista ao telejornal Bom Dia SP, após o incêndio que atingiu uma composição da Linha 12-Safira, nas proximidades da Estação Brás.

A concessionária assumiu, há apenas quatro dias, a operação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, da antiga CPTM.

Quem ouviu essa declaração dificilmente esquecerá o peso que ela carrega. Afinal, quem utiliza o transporte público entra em um trem por necessidade. São trabalhadores, estudantes, mães, pais, idosos e jovens que acordam antes do amanhecer para cumprir uma rotina marcada pela pressa, pelo cansaço e pelo medo constante de perder o horário do trabalho, de uma consulta, de uma prova ou de mais um compromisso importante.

E, diante do caos, a orientação é mesmo permanecer dentro do trem?

Até quando passageiros serão tratados como corpos espremidos em uma lata de sardinha? Pessoas que passam horas do dia em deslocamento, que deixam suas casas apenas para garantir o sustento e tentar construir um futuro melhor.

Já escrevi outras vezes sobre mobilidade na Agência Mural. Há cerca de um ano, falei sobre quanto tempo nos é roubado nesse eterno vai e vem pela cidade. Perdemos horas tentando estudar, trabalhar, cuidar da família e realizar sonhos. Um tempo que nunca volta.

Por aqui, denunciamos essa realidade há anos. Ouvimos moradores, mostramos atrasos, superlotação, falhas e acidentes. Mas pouca coisa muda.

As periferias continuam pagando o preço de um sistema que promete eficiência e entrega insegurança. A privatização foi apresentada como “solução”. Hoje, não resta quase nada da antiga Companhia Paulista de Trens Metropolitanos e boa parte da rede passou à iniciativa privada. Ainda assim, a pergunta permanece: onde está a melhora prometida?

Incêndio atinge composição da Linha 12-Safira, próximo a Estação Brás @Reprodução

O tempo continua nos devorando. Sempre em ritmo de urgência. Voraz. Insaciável. Devora nossas horas, nossa saúde, nossos afetos e a esperança de que um dia o trajeto deixe de ser uma batalha diária para simplesmente chegar ao destino.

É essa urgência que faz milhares de pessoas saírem de casa antes do sol nascer para buscar o sustento, estudar, trabalhar e sonhar com uma vida melhor. Mas a que custo? Ao custo de ouvir que, se um trem pegar fogo, o correto é permanecer dentro dele?

E, mais uma vez, quem paga a conta é quem depende desse transporte para sobreviver.

Quem, depois de escapar da fumaça e do medo, ainda precisa caminhar sobre os trilhos para chegar a algum destino. Como se voltar para casa em segurança tivesse deixado de ser um direito para se tornar um ato de sorte. 

Ao que parece, tudo isso pouco importa para quem faz a gestão do transporte público. A mudança nunca chega ao vagão de quem vive a cidade pelos trilhos. 

O tempo continua sendo roubado, a dignidade segue colocada à prova e a periferia permanece pagando essa conta, todos os dias, estação após estação.

Afinal, o correto seria ficar dentro do trem…

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Daniel Santana

Jornalista, apaixonado por livros, samba e carnaval. Corintiano, vivo o futebol de domingo a domingo. Adoro contar histórias através do jornalismo.

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