Arquivo Pessoal
Por: André Santos
Notícia
Publicado em 02.04.2025 | 15:40 | Alterado em 02.04.2025 | 16:21
O anúncio de que havia conseguido vaga para a Escola Municipal Hipólito José da Costa, foi uma festa dentro da casa de Edivânia Alexandre, 46, ou simplesmente Dinha. Ela finalmente havia chegado onde sempre queria estar: no lugar onde havia finalizado o ensino fundamental em 1994, no Jardim Fontalis, na zona norte de São Paulo.
“Quando escolhi (a escola) a mulher me perguntou com cara de espantada ‘você sabe onde fica isso?’’, relembra sobre a unidade que leva o nome do primeiro jornalista brasileiro e fundador do Correio Braziliense.
O trabalho no colégio, iniciado em 2010, rendeu muitos frutos. Dinha esteve à frente de projetos tocados pelos alunos que extrapolaram os limites do colégio e acumularam resultados importantes para a comunidade escolar. “Hoje sinto que o bairro veio pra dentro da escola”.
Em 2022, por exemplo, a Hipólito realizou o “Preta Pretinha Levanta e Anda”, que recebeu a homenagem “Grêmio em Destaque” da Prefeitura de São Paulo em 2022.
Educadora, Dinha cresceu na zona norte e saiu para estudar antes de se tornar professora do bairro @Arquivo Pessoal
Uma aluna chorando no banheiro após ter o cabelo como alvo de piada foi o ponto de partida. “Infelizmente, o racismo também está dentro da escola”, explica Dinha, que conta que a ideia da inscrição veio de um estudante.
Um Festival da Cultura Preta foi criado, com a sala da Beleza Negra, uma oficina de finalização de cabelo (técnica para definição de ondulação dos cabelos crespos e ondulados).
As ações estimularam reflexões sobre educação antirracista, com questionários, cartazes informativos, rodas de conversas, grafites, e trocas de ideias entre alunos, professores, responsáveis e influenciadores.
Durante as movimentações do “Preta Pretinha…” a unidade de ensino recebeu a visita da slamer Tawane Theodoro, integrante do Slam da Guilhermina, que promove o Campeonato de poesia falada entre escolas, o Slam Interescolar. A visita motivou uma competição interna que levaria o vencedor para a disputa da competição entre colégios.
Já no primeiro ano participando, em 2021, o aluno João Victor ficou em terceiro lugar geral, na categoria ensino fundamental. Em 2022 veio o primeiro lugar com a aluna Daiana Duarte, presidente do grêmio na ocasião. “Num dos versos ela afirma que gostaria que as balas perdidas fossem daltônicas”, pontua emocionada Dinha, ressaltando que a aluna em questão era uma aluna negra.
Antes de conseguir uma oportunidade em São Paulo, Dinha trilhou outro caminho. No ano 2000, a educadora fez o caminho contrário de muitos moradores do Jardim Fontalis, bairro predominantemente nordestino. Foi morar sozinha na Bahia, nordeste brasileiro, deixando pai, mãe e seis irmãos.
Ela tinha 21 anos de idade e havia passado na Universidade Estadual de Feira de Santana, para cursar licenciatura em história.
Depois, emendou um mestrado na UFBA (Universidade Federal da Bahia). Lecionou no município de Itaparica e foi professora substituta na própria UFBA, quando decidiu voltar para casa em 2008. Antes de chegar ao colégio do bairro ainda lecionou em Guarulhos, na Grande São Paulo.
“Quando cheguei aqui, senti que a escola estava de costas para o bairro”, afirma Dinha. Foram anos trabalhando com professores, coordenadores e diretores para mudar o cenário.
Dinha chegou para o bairro aos dois anos de idade, quando o pai dela trocou um relógio da marca Oriente e “três mil contos de réis” por um terreno no bairro que começava a surgir.
“Sou uma menina da época que o Fontalis tinha só três ruas: A, B, e C”, em referências às ruas que hoje se chamam Augusto Rodrigues, Fausto Domingues e Manoel Pereira Rosa.
A professora estudou o primeiro ano do fundamental em outro local e quando finalmente a escola ficou pronta ela mudou para lá, no segundo ano do fundamental, em fevereiro de 1988.
O pai dela, conhecido como seu Zé do Doce, se tornou uma das primeiras referências da região. Dono de um pequeno comércio e proprietário de um carro, ajudava a vizinhança como podia, inclusive em emergências médicas, como frisa Dona Jacira, multiartista e ex-moradora do bairro.
Ele é citado na música Crisântemo, do rapper Emicida, filho de Jacira. “Uma briga, o tombo, Seu Zé do Doce socorreu, Seu Zé é a representação do Estado no Jardim Fontalis, talvez ainda até hoje”.
Muito tempo se passou e hoje Edivânia é referência no bairro pelo trabalho construído dentro da escola como professora de história, coordenadora do grêmio estudantil e professora orientadora do período integral.
O primeiro grande reconhecimento veio do projeto “Alimentos do Bem”, em 2018. Com ele a unidade ganhou o Prêmio Municipal de Direitos Humanos na categoria “Grêmio”.
A ideia surgiu quando Dinha soube que havia um grupo de moradores se mobilizando para arrecadar alimentos para doar refeições às pessoas em situação de rua e decidiu instigar os alunos a participarem da ação.
Doações conseguidas pelos alunos @Arquivo Pessoal
Desafio aceito, integrantes do grêmio se articularam pelas redes sociais e por meio de cartazes espalhados pela escola. O resultado foi triplicar a meta inicial, estendendo a ação para além do tempo previsto.
Os estudantes também participam de projetos como “Patas São Vidas”, destinado a atender animais de estimação no bairro, Imprensa Jovem, para a produção de conteúdos jornalísticos sobre a vida na escola, e outras intervenções no Fontális, como panfletagem, exibição de filmes e peças de teatro.
Uma das principais ações dela é estimular a autonomia. Ao tratarem do tema saúde mental, eles firmaram uma parceria com a UBS Jd. Fontalis. Uma assistente social acompanhou a comunidade por um ano com rodas de conversas.
A parceria entre os serviços foi efetuada por um aluno de 12 anos, que ia todo dia à UBS pedir uma reunião com os profissionais de saúde.
“Uma vez alguém da UBS me ligou e disse ‘tem um Tiago aqui da escola querendo marcar uma reunião com a gente’, eu disse ‘pode marcar, é meu aluno, tem doze anos, e é o responsável por essa ação”, se diverte a professora.
Hoje, para ela, a escola não é mais “uma ilha” dentro do território. “As ferramentas que a gente fornece formam cidadãos, são mecanismos para que eles atuem (…) A gente faz um trabalho muito importante aqui”, afirma, com esperança no futuro dos estudantes que passaram por ela. “Eles farão a diferença onde quer que estejam”.
Jornalista, entusiasta do carnaval, do futebol de várzea, de bares e cultivador assíduo da sua baianidade nagô! Correspondente do Jardim Fontalis desde 2017.
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