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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Paulo Talarico

Opinião

Publicado em 23.06.2026 | 14:50 | Alterado em 23.06.2026 | 14:54

Tempo de leitura: 4 min(s)

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Um dos momentos mais marcantes da fenomenal carreira de Mamonas Assassinas foi o discurso de Dinho em janeiro de 1996, no ginásio Thomeusão, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Foi lá que a banda foi rejeitada antes da fama e, depois, convidada a se apresentar. 

Em tom de desabafo, o cantor disse para quem estava na plateia acreditar nos próprios sonhos e não desistir, pois “nada é impossível”. Na mesma fala, ele fez uma declaração sobre a cidade onde cresceu.

“Nós continuamos de Guarulhos” , enfatizou.

‘Nós não somos de São Paulo. Nós não somos de nenhum lugar. Nós somos a banda Mamonas Assassinas de Guarulhos, que leva o nome dessa cidade pelo Brasil afora e vamos levar para o exterior também’ 

Infelizmente, dois meses depois, um acidente de avião na véspera de uma turnê internacional encerrou prematuramente a história do grupo, que não teve tempo de levar o nome do município para outros países. 

Aquela fala emocionada é um dos exemplos de como eles se identificavam com o território. Mais do que isso, as letras foram também um símbolo do que era a vida nas periferias daquele período – e talvez até os dias de hoje, em especial para homens e meninos.

Muitas das letras não seriam aceitas hoje e refletem preconceitos e discursos problemáticos – como ver as mulheres como vilãs, incluindo trechos de violência, abordar zoofilia e homofobia.

Este texto foca na questão do território.

Para além das piadas e brincadeiras da quinta série que fizeram das letras dos Mamonas um fenômeno, é possível ver a vivência de quem está numa cidade da Grande São Paulo e demarca o que era a vida com pouco dinheiro. Alguns sucessos do único disco do Mamonas, lançado em 1995, mostram isso. 

É o caso de “Chopis Centis”, aquela que começa com “Eu di um beijo nela, e chamei pra passear”. A ideia do shopping center, espaço comercial que ainda é uma área de lazer marcante para jovens que querem dar um passeio “pra mó de a gente lanchar” ainda representa muito. 

Mas que lanche era esse? “Comi uns bicho estranho, com um tal de gergelim. Até que tava gostchoso, mas eu prefiro aipim”.

Nascido em Irecê (BA), Dinho trazia muito o imaginário nordestino nas canções e no sotaque humorístico, vivenciado em várias periferias que foram construídas em grande parte por quem veio de um dos nove estados do Nordeste.

O maior exemplo é “Jumento Celestino” que conta a história de um boia fria que veio para São Paulo, onde encontrou aquele monte de “predião legal”. Em um universo mágico, ele tentou viver com o próprio jumento na cidade – o que deu errado. O migrante se arrepende de ter vindo para São Paulo de onde só levou de volta um apelido preconceituoso. 

“E hoje eu tô arrependido de ter feito imigração, volto pra casa fodido, com um monte de apelido. O mais bonito é Cabeção”.

Ainda sobre o Nordeste e pensando no aipim, preferir um alimento como a mandioca, comum nos almoços de casa, não deixa de ser um registro de como essa população migrante se adaptava nessa difícil São Paulo, inclusive na comida.

Seguindo na canção sobre o shopping center, a banda também se coloca no lugar do trabalhador braçal, provavelmente um ajudante de pedreiro. “Quando eu estou no trabalho, não vejo a hora de descer dos andaime, pra pegar um cinema do Schwarzenegger, tombém o Van Djaime”, cita sobre os atores de filmes de ação que fizeram sucesso naqueles anos 1990. 

Esse lugar “muitcho legalzinho” “pra levar as namorada e dar uns rolézinho” é também um local onde há um outro tipo de alegria, que vem de pequenas conquistas por meio do consumo. 

Um consumo que não era fácil e só era possível por meio de dívidas. “Quantcha gente. Ei, quantcha alegria. As minha felicidade, é um crediário, das Casas Bahia”, citando a loja que ficaria famosa naquela época pela venda em parcelas. 

Essa relação entre o espaço de lazer e a situação econômica também é vista em outra canção. Para falar dela, é preciso de “4 já vai”

“Atenção, Creuzebek, Ao toque de quatro já vai, Já, já, já, já vai!”.

Em 1406, Mamonas trata de nada menos, nada mais, do que ele: o capitalismo. A falta de dinheiro é o tema da canção que parte para o inglês aportuguesado escrachado.

“Money, Que é good nóis num have (have) / Se nóis hevasse, nóis num tava aqui playando / Mas nóis precisa de worká”

Enquanto nos acostumamos com a ostentação de músicas que vendem um mundo perfeito, Mamonas apostava no inverso, em enfatizar o perrengue. O dinheiro é bom, mas não temos.

A banda era formada por Dinho (vocal), Samuel Reoli (baixo), Júlio Rasec (teclado), Sérgio Reoli (bateria) e Bento Hinoto (guitarra) @Reprodução

“Eu queria um apartamento no Guarujá, Mas o melhor que eu consegui foi um barraco em Itaquá”, começa, citando a cidade vizinha a Guarulhos, Itaquaquecetuba, antes de partir para uma série de desejos não realizados. 

“Você não sabe como parte um coração, Ver seu filhinho chorando, querendo ter um avião

Você não sabe como é frustrante / Ver sua filhinha chorando por um colar de diamante
Cê não sabe como eu fico chateado / Ver meu cachorro babando por um carro importado”

Os problemas financeiros também marcaram as histórias românticas do grupo, sempre vividas por um homem que tem dificuldades de conquistar aquela “mina, de cabelo da hora e corpão violão”. Em Pelados em Santos, esse mantra aparece quando ela não aceita se casar e participar de uma série de aventuras duvidosas como ir para o Paraguai.

Ele também trata de outro lazer muito visto nas periferias como possível. Uma ida à praia. O litoral paulista aparece várias vezes no CD. O sonho de ter um apartamento no Guarujá, o Boqueirão onde ele perdeu a amada para um alemão, e Santos onde a Brasília Amarela tinha feito história. 

Esse carro para mim é mais um exemplo desse ser periférico. Quando Mamonas lançou a canção, o veículo já não era mais fabricado – foi lançado em 1973 pela Volkswagen e parou de ser produzido em 1983. Ou seja, já estava bem fora de moda.

Um ano antes da banda estourar, meu pai comprou esse carro desse modelo, curiosamente amarelo, por R$ 2.500, em muitas parcelas (o equivalente a R$ 20 mil hoje).

Quando a música nasceu, foi engraçado ter uma Brasília amarela em casa, em especial, porque meu pai não era fã da banda. Ficava “doidião” com a coincidência, mas não ligava muito. Preferia seguir vendo o Schwarzenegger e o Van Djaime.

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Paulo Talarico

Diretor de Treinamento e Dados e cofundador, faz parte da Agência Mural desde 2011. É também formado em História pela USP, tem pós-graduação em jornalismo esportivo e curso técnico em locução para rádio e TV.

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