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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Isabela Alves

Notícia

Publicado em 14.07.2026 | 19:38 | Alterado em 14.07.2026 | 19:38

Tempo de leitura: 6 min(s)

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Um casal que sofre violência racial no dia do próprio casamento decide se refugiar em um casarão isolado no interior de São Paulo para tentar se recuperar do trauma. O que Rafaela e Felipe não imaginam é que seus maiores medos virão à tona justamente naquele lugar.

Essa é a premissa de “Onde Estamos Seguros”, longa-metragem dirigido por Thais Scabio, 48, e Gilberto Caetano, 45, exibido entre os dias 14 a 25 de maio deste ano, no Marché du Film, mercado oficial do Festival de Cannes, um dos mais importantes eventos de cinema do mundo.

Embora não tenham conseguido recursos para acompanhar presencialmente a exibição em Cannes, os diretores participaram de reuniões com distribuidoras e agentes de venda internacionais para discutir a circulação do filme fora do Brasil.

Thais e Gilberto iniciaram as trajetórias no audiovisual por meio de oficinas gratuitas de cinema em Diadema, na Grande São Paulo @Arquivo pessoal/Divulgação

O filme marca a estreia de Thais, moradora de Cidade Ademar, na zona sul de São Paulo, na direção de um longa-metragem realizado com recursos públicos de fomento ao audiovisual.

Ao longo das trajetórias, os diretores sempre trabalharam temas ligados à raça e à desigualdade social. Inicialmente pensado como um terror convencional, “Onde Estamos Seguros” ganhou novos contornos após conversas com amigos e familiares sobre experiências de racismo.

Depois da passagem por Cannes, o longa tem sido exibido em território nacional. A primeira aconteceu no Cine PE – Festival do Audiovisual de Pernambuco, em junho. A expectativa agora é levar o filme para mostras e exibições em diferentes territórios periféricos da cidade de São Paulo.

O início de um sonho

A trajetória de Thais Scabio e Gilberto Caetano no audiovisual começou em 2002, por meio de oficinas gratuitas realizadas em Diadema, na Grande São Paulo. Mais tarde, ambos integraram a segunda turma da ELCV (Escola Livre de Cinema e Vídeo) de Santo André.

O interesse pelo gênero do terror acompanha a dupla desde os primeiros trabalhos. Em 2005, durante o período de formação na escola, produziram um curta-metragem sobre uma jornalista negra que investiga fenômenos sobrenaturais em um cine-teatro ao lado de um colega branco que não aceita vê-la ocupando um cargo superior ao dele.

Thais com a câmera de filmagem, as gravações do longa metragem aconteceram ao longo de 20 dias em uma casa isolada no interior de São Paulo @Arquivo pessoal/Divulgação

“Esse filme não passou em lugar nenhum. Depois uma amiga do JAMAC (Jardim Miriam Arte Clube) comentou: ‘É a primeira vez que vejo um homem branco arrogante ser enforcado em um filme’. Aí comecei a entender o porqu ele não circulava nos festivais da época. Mas também era um curta meio ruimzinho”, relembra Thais, com bom humor.

Com o passar dos anos, as reflexões sobre racismo e violência social foram ganhando espaço cada vez maior nas produções. “Para nós, foi um processo natural que o terror social entrasse no nosso primeiro longa”, afirma Gilberto.

Com influências do cinema de terror nigeriano e do diretor estadunidense Jordan Peele, a ideia de “Onde Estamos Seguros” surgiu em 2012, durante uma viagem à cidade de Silveiras, no Vale do Paraíba. Hospedados em uma casa afastada da área urbana, os cineastas ouviram de um amigo uma história familiar envolvendo Olívia, personagem que mais tarde seria incorporada ao roteiro.

Gilberto, diretor do filme afirma que o racismo e a violência social tiveram destaques durante as produções do longa @Arquivo pessoal/Divulgação

Anos depois, durante a pandemia, a dupla retomou a narrativa e transformou aquela lembrança no ponto de partida para o filme. Eles também passaram a refletir sobre como a violência policial e a violência de gênero atravessam o cotidiano brasileiro e sobre o pouco espaço dado às consequências emocionais vividas por quem passa por essas situações traumáticas.

Em 2021, ganharam um prêmio da Lei Aldir Blanc pelo conjunto da obra e com a verba desenvolveram o roteiro. Em 2022, foram aprovados no ProAC (Programa de Ação Cultural) de complementação de longa metragem e, em 2024, conseguiram a Lei Paulo Gustavo para finalizar o filme.

Elenco e equipe da periferia

Por se tratar de uma produção de baixo orçamento, a escolha do elenco principal foi uma das maiores preocupações dos diretores. Para interpretar os protagonistas, foram convidados Aguida Aguiar, moradora de Itaquera, e Andrio Candido, de São Mateus, ambos da zona leste de São Paulo.

O elenco também conta com a participação de Orland Dantas, performer, modelo vivo e dançarino de Diadema, escolhido pelos diretores por sua expressividade corporal, considerada ideal para dar vida à criatura que aparece na trama.

Rafaela, após viver uma experiência traumática, a personagem passa a enfrentar uma gravidez psicológica @Arquivo pessoal/Divulgação

“Foi o primeiro raio de sol iluminando o fim de uma fase muito difícil”, afirma Andrio, 39, sobre o convite para integrar o projeto. “É incrível como eles transformaram problemas históricos e sociais que nós vivemos cotidianamente, como o racismo e o fascismo, em uma história de cumplicidade, afeto, superação e terror.”

Aguida também destaca a importância de participar de uma obra que aborda os traumas coloniais brasileiros a partir de uma perspectiva pouco comum no audiovisual nacional.

‘Jamais imaginei ser convidada para um trabalho com essa temática. Interpretar a Rafaela foi uma oportunidade de falar sobre amor em meio a tantas dificuldades e adversidades’

Aguida, atriz

“Também é importante lembrar que sou uma mulher negra fora dos padrões de beleza mais valorizados pela indústria, e as oportunidades sempre foram muito escassas para mim”, diz.

Gravado em 2022, o filme só chegou ao público em 2026. O intervalo de quatro anos entre as filmagens e a estreia também provocou reflexões entre os profissionais envolvidos sobre os desafios de produzir e distribuir cinema independente no Brasil.

“Estamos falando de um longa feito por uma produtora da periferia, com atores e uma equipe que, em sua maioria, também vêm da periferia. E ainda ousamos fazer terror, ou melhor, terror social”, afirma Aguida Aguiar. “Por isso, chegar a Cannes representa um reconhecimento necessário. Não pode continuar sendo algo esporádico por falta de incentivo ao cinema negro brasileiro. Existem profissionais talentosos produzindo histórias potentes e que precisam ter condições de circular e alcançar o público.”

Os bastidores

Fazer cinema de forma independente sempre é um desafio, dizem os diretores. Com uma equipe reduzida e orçamento limitado, elenco e produção passaram cerca de 20 dias isolados durante as filmagens. “Foi uma mistura de ‘Big Brother’ com ‘A Fazenda’, mas com pouquíssimos recursos”, brinca Thais Scabio.

Um dos episódios mais marcantes aconteceu durante a gravação das cenas com o personagem interpretado por Orland Dantas. A caracterização do ator levava cerca de quatro horas para ficar pronta e, por limitações financeiras, toda a maquiagem e as filmagens precisavam ser realizadas em um único dia.

Justamente na data programada, uma forte chuva atingiu a região e o caminhão que transportava os equipamentos atolou na lama.

O terror surge como linguagem para abordar os impactos de um trauma vivido pelo casal protagonista @Arquivo pessoal/Divulgação

“Tudo o que poderia dar errado deu errado naquela noite. Mesmo assim, ninguém desistiu”, relembra Gilberto Caetano. “Terminamos as gravações com quatro horas de atraso. Acho que esse filme não existiria se a equipe não tivesse unido forças para concluir o trabalho. Foi uma noite muito significativa por causa disso.”

Realizar o primeiro longa-metragem após mais de duas décadas de trajetória no audiovisual trouxe sentimentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que a conquista era motivo de celebração, também despertava a sensação de que ela poderia ter chegado antes, depois de tantos projetos submetidos e recusados ao longo dos anos.

“Eu nunca quis fazer nosso longa sem recurso público. Sempre lutei por esse direito, não importa quanto tempo levasse”, afirma Thais. “Os burgueses sempre fazem filmes com dinheiro público. Por que nós não poderíamos? Eu queria provar que uma produtora formada por pessoas pretas da periferia é capaz de gerir, administrar e realizar seus próprios projetos. A produção é nossa.”

Mesmo após a estreia internacional, a continuidade da carreira segue cercada de incertezas. Para os cineastas, chegar ao Festival de Cannes representa não apenas o reconhecimento de um trabalho, mas também uma oportunidade de abrir caminhos para novos projetos.

“Nunca sabemos se vamos conseguir fazer o próximo filme. Estar em Cannes é importante porque permite mostrar o que já fizemos, apresentar novas ideias e construir uma trajetória. Essa continua sendo uma luta permanente do cinema negro brasileiro”, conclui Gilberto.

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Isabela Alves

Jornalista e cineasta da quebrada. Pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura e em Gestão de Projetos Culturais pelo CELACC/USP. Fundadora da Parasita Filmes, produtora independente dedicada a contar histórias do extremo sul de São Paulo.

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