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Artista não-binárie do Grajaú transforma ancestralidade e espiritualidade em arte visual

Entre fotografias, pinturas e moda, Sollar Cassiano evoca diferentes formas de memória, identidade e conexão espiritual

Onegralia/Divulgação

Por: Isabela Alves

Notícia

Publicado em 26.06.2026 | 13:21 | Alterado em 26.06.2026 | 13:22

Tempo de leitura: 4 min(s)

Sonhos, ancestralidade e espiritualidade são algumas das matérias-primas das obras de Sollar Cassiano, 29. Moradora do Grajaú, na zona sul de São Paulo, a artista atua entre as artes visuais, a fotografia, a moda e a produção audiovisual, criando imagens que dialogam com questões de identidade, pertencimento e liberdade para pessoas que historicamente tiveram suas existências invisibilizadas.

“Para o corpo trans, esse ainda é um lugar que muitas vezes não existe e que a gente está construindo. É um caminho intuitivo, feito a partir do que conseguimos imaginar e criar enquanto corpos que não são considerados comuns pela sociedade. Estamos construindo novos lugares de existência.”

Sollar tem se destacado principalmente pelas pinturas que produz ao retratar personagens conectados a elementos das culturas afro-indígenas brasileiras e provocar reflexões sobre negritude, povos originários e memória ancestral.

Sollar Cassiano retrata figuras celestiais em suas pinturas. As cores azul, preto e vermelho aparecem com frequência nas obra @Arquivo pessoal/Divulgação

Nos últimos anos, os trabalhos circularam por diversos espaços culturais da zona sul, como a Travas da Sul, a Gaba Music, o Centro Cultural Grajaú e o Centro Cultural Santo Amaro, onde realizou sua primeira exposição individual, “Até o Mar Acabar com os Peixes”.

Espiritualidade nas telas

A espiritualidade é um dos temas centrais da produção atual de Sollar, embora tenha passado a ocupar esse lugar de forma consciente apenas recentemente.

“É um assunto relativamente novo dentro das minhas obras. A espiritualidade sempre esteve presente na minha vida, mas eu ainda não compreendia aquilo dessa forma”, explica.

Ao revisitar lembranças da infância e da adolescência, a artista passou a reconhecer práticas ancestrais presentes em sua trajetória familiar. Sua avó era benzedeira e seu avô tinha ancestralidade indígena, referências que hoje influenciam diretamente seu trabalho.

Para Sollar, esse processo também está ligado à necessidade de compreender experiências marcadas por vulnerabilidades e questões emocionais que atravessam a vida adulta.

‘A gente vem de uma infância muito atravessada por opressões e estresse. Quando cresce, percebe que ainda carrega muitas questões que não foram trabalhadas e que precisam ser colocadas nos seus devidos lugares’

Criada em Pernambuco, onde passou boa parte da infância e da adolescência, a artista também passou a sentir mais intensamente a necessidade de se reconectar com suas origens. Muitas das imagens que aparecem em suas telas surgem a partir de sonhos, lembranças e percepções espirituais.

“Existe esse desejo de retorno para a minha cidade e para a minha cultura. Morando aqui, sinto falta das minhas raízes”, afirma.

Sollar define suas produções como “obras vivas”, capazes de despertar diferentes interpretações. As figuras presentes em suas pinturas frequentemente remetem a personagens sagrados, entidades e símbolos ritualísticos. Mais do que representar pessoas ou objetos, elas buscam evocar sensações, memórias e estados de espírito.

Criada no interior de Pernambuco, Sollar busca nas memórias da infância e nas referências afro-indígenas parte da inspiração para construir suas pinturas @Arquivo pessoal/Divulgação

“Você olha para a tela e ela te leva para outros lugares. Não é uma obra que entrega um significado único. Ela desperta um imaginário, faz a pessoa refletir e encontrar suas próprias interpretações. Existem camadas de profundidade que precisam ser atravessadas”, diz.

Essa proposta também aparece na escolha das cores. Preto, vermelho e azul formam a paleta predominante de suas pinturas. “O azul me remete à tranquilidade. Muitas vezes ele aparece associado aos rios e à água. Quando surge na pele das figuras, representa um ser celestial, uma entidade”, explica.

A artista propõe reflexões sobre espiritualidade, pertencimento e a construção de espaços de existência para pessoas LGBTQIA+, especialmente corpos trans e não-binários @Arquivo pessoal/Divulgação

Pessoas trans e espiritualidade

Para Sollar, a espiritualidade também dialoga diretamente com a experiência de pessoas trans, travestis e não-binárias. Em suas reflexões, a arte se torna um espaço para imaginar existências que historicamente foram apagadas ou impedidas de ocupar determinados lugares na sociedade.

Uma das referências que atravessam esse pensamento é a história de Tibira do Maranhão, indígena tupinambá executado em 1614 por missionários católicos devido à sua orientação sexual. Considerado o primeiro caso documentado de morte por homofobia no Brasil, Tibira se tornou símbolo de resistência para movimentos LGBTQIA+.

As obras de Sollar já passaram por espaços culturais da zona sul de São Paulo, como Travas da Sul, Gaba Music, Centro Cultural Santo Amaro e Centro Cultural Grajaú @Onegralia/Divulgação

Nascida em Minas Gerais, Sollar ainda criança, se mudou para Vitória de Santo Antão, no interior de Pernambuco. Foi nesse território, marcado por profundas desigualdades sociais, que começou a construir o imaginário que hoje aparece em suas pinturas.

Durante a adolescência, passou a perceber que sua identidade não se encaixava nos padrões de gênero e sexualidade impostos pela sociedade. Aos 17 anos, mudou-se para Recife para trabalhar como jovem aprendiz e ampliar suas experiências pessoais.

Foi na capital pernambucana que entrou em contato com movimentos feministas e com pessoas trans, travestis e não-binárias, especialmente por meio de encontros na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

‘Eu entendi que não sou homem e não sou mulher. Foi ali que comecei a compreender minha identidade’

Nesse período, também se aproximou da cena drag queen e de redes de apoio formadas por pessoas LGBTQIA+. Chegou a acolher em sua casa mulheres trans e travestis expulsas de seus lares por não terem suas identidades aceitas pelas famílias.

“Foi uma espécie de residência artística espontânea. Diversas pessoas dissidentes de gênero moravam juntas, pensando, criando e produzindo arte. Foi um período muito importante para minha formação artística”, conta.

Após três anos vivendo em Recife, Sollar decidiu se mudar para São Paulo, onde sua mãe morava, no Capão Redondo. Em 2020, durante a pandemia, conheceu o Grajaú e decidiu permanecer no território.

“Quando cheguei aqui, senti que era o meu lugar. As pessoas tinham vivências parecidas com as minhas e existiam movimentos culturais com os quais eu me identificava. Foi assim que nasceu meu amor pelo Grajaú”, afirma.

Foi também durante a pandemia que começou a pintar. Com mais tempo dentro de casa, encontrou na arte uma forma de organizar pensamentos e sentimentos. As primeiras pinturas surgiram como um exercício de autoconhecimento, mas logo passaram a despertar o interesse de pessoas próximas.

Artista investiga memória e espiritualidade em suas obras visuais @Onegralia/Divulgação

Outro marco importante em sua trajetória foi a participação no ‘Programa Jovem Monitor Cultural’, realizado pela Prefeitura de São Paulo. A experiência no Centro Cultural Santo Amaro ampliou sua visão sobre formação artística, produção cultural e articulação em rede.

Para o futuro, ela deseja que suas obras continuem despertando a consciência sobre memória, pertencimento e as múltiplas formas de existir. “Sinto que existe uma mensagem espiritual que precisa ser transmitida pela tela”, conclui.

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Isabela Alves

Jornalista e cineasta da quebrada. Pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura e em Gestão de Projetos Culturais pelo CELACC/USP. Fundadora da Parasita Filmes, produtora independente dedicada a contar histórias do extremo sul de São Paulo.

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