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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Isabela Alves

Notícia

Publicado em 18.06.2026 | 19:35 | Alterado em 18.06.2026 | 19:39

Tempo de leitura: 5 min(s)

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“Quero muito fazer a diferença levando esse esporte para a quebrada e também estou em busca de viver dele. É uma caminhada árdua, mas muito gratificante. Esse é realmente o meu sonho”, diz Fabiana Fernandes de Souza, 40, atleta de Highline do Grajaú, na zona sul de São Paulo.

A modalidade é considerada uma das mais radicais do slackline, prática de equilíbrio sobre uma fita elástica de nylon ou poliéster esticada entre dois pontos fixos, como árvores ou postes, geralmente a uma altura de 30 a 50 centímetros do chão.

No Highline, no entanto, o desafio é ainda maior: as travessias são realizadas em grandes alturas, entre montanhas, prédios ou desfiladeiros. O esporte exige alto preparo físico, técnico e mental, além do uso de equipamentos de segurança que garantem a proteção do atleta em caso de queda.

Fabiana costuma andar nas fitas em regiões de montanhas e parques @Arquivo pessoal/Divulgação

Fabiana conheceu o Slackline em 2020. Ao entrar em contato com a equipe da ‘Rope Trips’, empresa de esportes radicais, adquiriu sua primeira fita e começou a treinar no Parque das Árvores, na zona sul.

Com a evolução no esporte, passou a ser incentivada a utilizar uma fita mais fina e menos tensionada — diferente da usada por iniciantes, que costumam começar com fitas mais largas e firmes.

Fabiana participa de diversas competições e já conquistou o 3º lugar no pódio da modalidade speed line no BOP Games, considerado o maior festival multiesportivo da América Latina.

Que fita!

Fabiana sempre viveu no Grajaú. Até os 18 anos, morou no Parque Residencial Cocaia e, atualmente, reside no Jardim Shangri-lá. Na infância, passava boa parte do tempo ao ar livre, nadando e pescando na Represa Billings ou brincando na rua de estrela nova cela, vôlei, pipa e futebol.

Bióloga de formação, se tornou professora e deu aulas na escola onde estudou, a escola estadual Washington Alves Natel, e também lecionou em outras escolas estaduais da região.

Apaixonada por esportes radicais, a atleta já praticava atividades como o rope jump (salto de ponte) e rapel. Apesar da satisfação que essas experiências proporcionavam, sentia que a adrenalina era passageira e de curta duração.

O Highline exige preparo físico, concentração e investimento em equipamentos de segurança @Arquivo pessoal/Divulgação

Ao conhecer o highline, diz que foi amor à primeira vista. “Meu corpo todo ferveu, borbulhava de emoção e de sensações. Foi muito intenso, e percebi que esse era o esporte que queria desenvolver. Eu queria andar nas alturas”, conta.

Para ela, a modalidade exige controle emocional constante. “É preciso dominar a adrenalina e manter a respiração. Quando a emoção é muito intensa, não dá para caminhar”, explica. Ao avançar sobre a fita, o desafio passa a ser manter a tranquilidade e o ritmo para não se cansar no meio do percurso.

Fabiana define o highline como um esporte de resiliência, em que é preciso tentar, cair, levantar e persistir, características que sempre fizeram parte da trajetória. A atleta conta que enfrentou um período de depressão profunda e encontrou no esporte um elemento fundamental para a recuperação.

A decisão de dedicar-se integralmente ao esporte veio no fim de 2023, durante um treino de Highline na Pedreira do Dib, em Mairiporã, na região norte da Grande São Paulo. Na ocasião, ela planejava praticar no sábado e, no domingo, prestar um concurso público.

Mudou de ideia e decidiu ali que a vida tomaria um novo rumo. “Quando chegou domingo, não fui. Fiquei andando na fita”, conta com bom humor.

Desafios e sonhos

Para Fabiana, um dos maiores desafios como atleta periférica é ter condições de adquirir equipamentos, custear viagens para participar de eventos e festivais, e acessar espaços mais próximos de casa para a prática do esporte.

Nessa trajetória, o apoio da família tem sido fundamental, especialmente para cuidar dos animais durante as viagens. Ela também é mãe dos gêmeos Gustavo e Gabriel, de 18 anos, que moram com o pai na Freguesia do Ó, na zona norte da capital paulista.

“Tenho uma relação muito boa com os meus filhos, eles são meus melhores amigos. A gente cria os filhos para o mundo, e agora eles vão viver a vida que quiserem, com liberdade. Estão bem instruídos, sempre foram excelentes filhos. Fiz um bom trabalho”, afirma com orgulho.

A atleta pretende em democratizar o acesso ao esporte na periferia onde cresceu @Arquivo pessoal/Divulgação

A rede de apoio se estende também aos amigos, que contribuem para que ela siga no esporte, oferecendo hospedagem durante viagens e organizando refeições coletivas. Em troca, Fabiana colabora com tarefas do dia a dia, como a limpeza das casas onde se hospeda. Por ser um esporte de alto custo, a atleta também destaca a necessidade de apoio para além dos equipamentos e viagens.

Uma das memórias mais marcantes aconteceu durante uma prática na montanha Garganta do Céu, na ‘Pedra da Gávea’, Rio de Janeiro, onde permaneceu por cinco dias. Com a presença constante de nuvens e as condições climáticas adversas, acabou adoecendo e precisou descer para se recuperar.

‘O esporte traz alegria, mas também exige muita energia. É preciso subir montanhas com mochilas pesadas, e a montagem dos equipamentos, às vezes, é complexa. Você precisa escalar, atravessar ribanceiras e lidar com abismos perigosos’

Fabiana, atleta de Highline

Passo a passo

Após a morte da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, 21, que, durante a prática de rope jump, foi jogada da ponte sem as cordas, o debate sobre a segurança em esportes radicais ganhou força.

Na prática de highline, para montar uma fita, os praticantes precisam instalar um sistema de ancoragem entre dois pontos elevados. Em alguns casos, utilizam até mesmo um drone para levar um fio de nylon de um lado ao outro. Esse fio funciona como guia para a passagem de uma corda mais grossa, chamada cordelete, que posteriormente é usada para puxar e posicionar a fita principal.

A fita é presa em pontos de ancoragem e o atleta permanece conectado a ela por um sistema de segurança composto por uma fita tubular, um anel e uma corda de proteção. Esse conjunto garante que, em caso de queda, o praticante continue preso à estrutura.

As distâncias percorridas variam bastante de acordo com o local e o desafio. A maior fita já atravessada pela atleta tinha 610 metros de extensão. A marca foi alcançada em 2024, na cidade de Pedreira, interior de São Paulo, quando ela estabeleceu o recorde feminino latino-americano da modalidade.

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Fabiana ficou em 3º lugar no pódio da modalidade Speed Line em um festival multiesportivo da América Latina

Fabiana ficou em 3º lugar no pódio da modalidade Speed Line em um festival multiesportivo da América Latina @Arquivo pessoal/Divulgação

A atleta afirma que é preciso ter equilíbrio e muita energia para praticar o esporte

A atleta afirma que é preciso ter equilíbrio e muita energia para praticar o esporte @Arquivo pessoal/Divulgação

Segundo ela, os atletas precisam de acompanhamento profissional para manter a saúde, com especialistas como fisioterapeutas, além de preparação e treinos específicos, especialmente para a prevenção e recuperação de possíveis lesões.

Fabiana viaja com frequência para praticar o esporte. Além de complementar a renda, também trabalha em eventos e festivais, atuando na montagem de estruturas, mas seu principal objetivo, no entanto, é ampliar o acesso a modalidade nas periferias.

Para isso, organiza encontros no Parque das Árvores e busca editais e formas de financiamento que possibilitem a realização das atividades de forma gratuita e periódica, a cada 15 dias, abertas ao público.

Também pretende desenvolver um projeto para a instalação de Slack Parks em áreas públicas, como parques da cidade, com apoio do poder público. A proposta é criar estruturas seguras, com as fitas já montadas, facilitando o acesso ao esporte e evitando a necessidade de montagem e desmontagem a cada prática.

Além disso, ela ministra aulas do esporte no Sítio Jussara, que integra o Polo de Ecoturismo de São Paulo. No local, os participantes vivenciam a prática do esporte aliada a experiências de imersão na natureza, com estadia e alimentação saudável incluídas no roteiro.

Ela destaca a relação com a sustentabilidade e a educação ambiental, além da possibilidade de desenvolver atividades como trilhas monitoradas em sítios e espaços que funcionem como verdadeiros “laboratórios vivos” para o aprendizado na prática.

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Isabela Alves

Jornalista e cineasta da quebrada. Pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura e em Gestão de Projetos Culturais pelo CELACC/USP. Fundadora da Parasita Filmes, produtora independente dedicada a contar histórias do extremo sul de São Paulo.

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