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Agência de Jornalismo das periferias

Léu Britto/Agência Mural

Por: Katia Flora

Notícia

Publicado em 24.05.2023 | 17:00 | Alterado em 24.05.2023 | 17:08

Tempo de leitura: 4 min(s)

Cinco anos depois da primeira entrevista que fiz com a benzedeira Ana Maria Lemes, 68, foi possível perceber algumas mudanças. Na entrada da casa, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, tem um pequeno cartaz com a mensagem para o uso obrigatório de máscaras durante o atendimento, preocupação que não existia em 2018. Também foi colocado um portão na entrada do imóvel.

O que não mudou foi a grande procura. Diariamente, dezenas de pessoas frequentam a residência para se benzer. Em um dia, Ana chega a atender a 70 pessoas, mais do que antes da pandemia, que procuram auxílio após perda de emprego ou ao descobrir algum tipo de doença – são mais de 1.400 pessoas por mês.

Mais do que benzer, Ana também dá conselhos quando necessário. “No benzimento converso, peço para a pessoa firmar o pensamento no pedido que veio buscar. E rezo com o terço o Pai Nosso e Ave Maria”, diz.

Ana Lemes aprendeu com o pai sobre tradição ancestral @Léu Britto/Agência Mural

A existência de rezadeiras e benzedeiras é antiga no Brasil e remonta ao período colonial, em especial por conta das culturas dos povos africanos, sequestrados para o país durante a escravidão. A tradição foi mantida por povos quilombolas e ainda encontra exemplos em algumas cidades, como é o caso de Ana.

Das 7h às 22h

Ana Lemes tem o hábito de levantar todos os dias às 5h da manhã, quando prepara o café da família. Ela começa o atendimento às 7h, horário em que algumas pessoas já fazem fila no portão para serem atendidas antes de ir trabalhar.

Às vezes chega a atender até às 22h em um trabalho exaustivo, que Ana diz fazer com amor e gratidão por ajudar a quem precisa. Ela é requisitada na região onde mora no bairro no Parque São Bernardo, onde é a única que mantém a tradição ao longo de cinco décadas. Porém, recebe também pessoas que vêm de outras cidades e estados.

Alguns dos frequentadores chegam a dizer que ela é o “Chico Xavier no benzimento”, numa referência a um dos principais líderes espíritas do Brasil, morto em 2002. Ela diz nunca ter sofrido preconceito nas consultas e que tem bom relacionamento com todos.

Moradores do bairro e pessoas de outras cidades estão entre os que procuram pelo benzimento @Léu Britto/Agência Mural

Pandemia

Na pandemia de Covid-19, Ana não parou com os atendimentos, que eram feitos por telefone. Chegou a receber mais de 20 ligações por dia. O público era da região e de outros estados do Brasil.

“Foi um período difícil, mas não parei de benzer. Não tem diferença da reza por ligação e presencial, tendo fé consegue a benção”, argumenta.

Ainda nesse período, ela teve a morte da mãe, Maria do Carmo Ribeiro Lemes, 93, a Dona Cotinha, em fevereiro de 2021. “Fiquei rezando, pedindo amparo a todos. Minha mãe era companheira, me ajudava muito, sinto a presença dela”, afirma.

A ROTINA DO BENZIMENTO

  • O benzimento dura no máximo cinco minutos.
  • Ao longo do dia, o público chega e fica esperando num banco de madeira, no corredor do quintal aguardando ser chamado – a espera pode durar até três horas.
  • A benzedeira atende em um cômodo na parte de cima da casa. O local tem imagens de santos da igreja católica como Nossa Senhora da Aparecida e de Jesus.
  • Ela reza com um terço na mão, usa um jaleco branco e acende uma vela branca. Durante a prece fica de pé em frente da pessoa, às vezes precisa sentar num banquinho enquanto faz o tratamento espiritual.

A família da benzedeira foi morar no Parque São Bernardo quando ela era criança, sendo a oitava a se mudar para a região. Eles acompanharam o loteamento de casas e o crescimento do bairro.

“Quando nós chegamos tudo era mato, tinha barracos. Nosso pai comprou um lote e construiu a casa de alvenaria”, relembra Benedito da Silva Lemes, 71, o Ditinho da Congada, irmão de Ana.

Ditinho acompanha a atuação de Ana e faz um trabalho social com doações de cestas básicas, além do grupo de congada, cantigas e danças originárias da África.

Ana Lemes acompanhou o crescimento da região e começou a ser mais conhecida por causa do famoso boca a boca – os próprios moradores começaram a indicar como chegar até a casa dela.

Ela afirma que herdou o dom do pai Antônio Lemes, morto há 17 anos. Chegou a parar com os atendimentos após o falecimento dele, por 30 dias, mas percebeu que tinha uma missão de ajudar o próximo e resolveu continuar.

Atendimento começa 7h e há dias que vai até 22h, por conta da procura da comunidade @Léu Britto/Agência Mural

Atendimento começa 7h e há dias que vai até 22h, por conta da procura da comunidade @Léu Britto/Agência Mural

Atendimento começa 7h e há dias que vai até 22h, por conta da procura da comunidade @Léu Britto/Agência Mural

O benzimento não é cobrado, mas muitos em forma de agradecimento doam 1 kilo de alimento não perecível ou cestas de alimentos. Com as doações, preparam cestas básicas e costumam entregar mais de 30 para famílias necessitadas.

A prática de benzer tem levado jovens a procurar cursos e aprender a origem dos ensinamentos ancestrais. Ana vê esse interesse com uma forma boa de manter a tradição.

Apesar disso, não há certeza na continuidade dessa cultura. Na família poucos têm interesse em dar sequência aos benzimento, mas todos auxiliam o trabalho dela.

Enquanto isso, Ana segue atendendo o público e afirma que benzer é a busca da paz espiritual, da cura da alma. “Deus me deu esse dom para abençoar. Vou seguir até o fim da minha vida.”

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Katia Flora

Jornalista com experiência em jornalismo online e impresso, tem publicações em diversos veículos, como Uol, The Intercept e é ex-trainee da Folha de S. Paulo no programa para jornalistas negros. Correspondente de São Bernardo do Campo desde 2014.

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