Por: Karine Ferreira
Notícia
Publicado em 22.07.2026 | 15:51 | Alterado em 22.07.2026 | 15:51
“Eu sempre fui noveleira. Meus pais eram superprotetores, então fui criada dentro de casa. Como só tinha TV aberta, eu assistia muita novela. A TV era minha melhor amiga.”
A memória da cineasta Karol Maia, 32, lembra que os sonhos de infância também se realizam. Apaixonada por audiovisual e com referências de produções e histórias brasileiras, ela lançou nos cinemas, em maio de 2026, seu primeiro longa-metragem autoral: o documentário ‘Aqui Não Entra Luz’.

Karol, escritora e diretora do longa-metragem “Aqui não entra luz” @Cristiano Rolemberg/Divulgação
Criada no Jardim Maia, na zona leste de São Paulo, e filha de uma ex-empregada doméstica, a diretora partiu das experiências da mãe para a produção do longa, que levou oito anos e conta a história de mulheres que se dedicam ao trabalho doméstico.
‘Quando comecei a trabalhar e estudar, as diferenças sociais ficaram mais nítidas para mim. Foi neste momento que comecei a pensar sobre o significado do quarto de empregada, a senzala, como um cômodo da casa’
Karol, cineasta
Partindo dessas reflexões, de memórias pessoais e de pesquisas históricas, a diretora iniciou uma investigação sobre a história e os significados do chamado “quarto de empregada”, espaço presente em milhões de residências brasileiras.
O documentário percorre diferentes estados do país investigando como a arquitetura das casas foi pensada para separar corpos e sustentar hierarquias sociais. A produção reúne relatos de mulheres que enfrentam essa segregação e lutam para que as filhas possam sonhar com outros caminhos.
O filme rendeu marcos importantes na carreira de Karol, em especial a conquista de dois prêmios no Festival de Brasília de 2025: o Prêmio Zózimo Bulbul de Melhor Longa-Metragem (concedido pelo Júri APAN e Centro Afrocarioca de Cinema) e o Troféu Candango de Melhor Direção.
Além dos destaques, ela recebeu também o reconhecimento da crítica especializada em sua estreia na direção de longas-metragens.
Ao longo da produção, a cineasta precisou lidar não apenas com os desafios técnicos, mas também com a complexidade emocional do tema.
“Foi um processo intenso, bastante cansativo, porque é um assunto complexo e sensível para mim. Acho que o primeiro filme de qualquer cineasta é um grande momento, uma expectativa”, lembra a diretora. “Toda equipe estava comprometida em fazer do set [de filmagem] um ambiente acolhedor para as entrevistadas.”
Karol destaca os encontros que aconteceram durante as gravações como uma das experiências mais marcantes da produção.

Depoimento de uma trabalhadora doméstica para o filme @Embaúba Filmes/Divulgação
“Foi muito bonito encontrar todas as trabalhadoras que estão no filme, construir essa relação de confiança com elas e estabelecer, na linguagem do filme, uma ética de respeito, com o limite de cada uma”, destaca. “O filme tem momentos duros, mas também tem momentos generosos com essas mulheres, de acolhimento”.
Para abordar as entrevistadas, a diretora contou sobre sua experiência, como filha de uma trabalhadora doméstica. “Foi no sentido de não só colher [informações], mas oferecer uma parte da minha história. Acho que isso criou um pacto de confiança entre a gente, mesmo se conhecendo pouquíssimo”, explica Karol.
Formada em Rádio e TV, Karol começou sua trajetória no audiovisual ainda adolescente, aos 17 anos, em 2010, após participar de um curso de WebTV na região onde morava. Foi ali que descobriu o interesse por contar histórias por meio da imagem e decidiu seguir carreira na área.
“O distrito do Jardim Helena é bastante importante pra mim, porque foi onde decidi me aproximar do audiovisual e do cinema. Foi minha primeira inspiração, quando pensei que poderia contar histórias dos moradores do bairro”, relembra Karol.

O longa metragem retrata os desafios enfrentados por trabalhadoras domésticas @Embaúba Filmes/Divulgação
Antes de chegar ao cinema, em 2025, Karol produziu conteúdos voltados para a internet. Um dos seus primeiros projetos foi a websérie “Cultura das Bordas”, em que entrevistava artistas, produtores culturais e moradores da periferia de São Paulo. A iniciativa começou no Jardim Helena e depois se expandiu para outros bairros da cidade, como Jardim Maia e Parque Paulistano.
A ligação com a periferia continua sendo uma das principais referências do trabalho da diretora, afinal, seu pai foi um professor de música e artista apaixonado pela região.
“Ele fazia sambas para o Jardim Maia. E aí, quando eu nasci, ele decidiu homenagear o bairro”, conta Karol Maia, cujo sobrenome herdou do bairro. “A periferia é um dos lugares mais extraordinários que existem”, afirma a diretora.
Mais do que revisitar o passado, ‘Aqui Não Entra Luz’ propõe uma discussão sobre desigualdades que ainda fazem parte da sociedade brasileira. O documentário mostra como, em diferentes regiões do país, preconceitos e violências ligados ao trabalho doméstico continuam presentes na vida de milhões de pessoas.
Para Karol, a discussão não deve ficar restrita às salas de cinema. “Não é um tema só pra gente ser espectador. É também para se mobilizar e debater”, diz a cineasta.
“Nunca quero perder a minha sensibilidade de quem nasceu na periferia. Acho que isso é um super poder que tenho, porque me faz ficar atenta a histórias que geralmente são marginalizadas”.
Jornalista cultural, publicitária e corinthiana. Fiel à fotografia e à música, nunca falta samba, rap ou funk no meu dia-a-dia. Correspondente do Jardim Helena desde 2023.
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