Aposentado relembra memórias do trajeto entre Ilha do Bororé e Grajaú; ‘o balseiro saia de tudo’, revela
Léu Britto/ Agência Mural
Por: Isabela Alves
Notícia
Publicado em 25.03.2025 | 20:00 | Alterado em 26.03.2025 | 8:49
Por mais de 20 anos, João dos Reis Ribeiro, 66, foi responsável por comandar a balsa que liga o distrito do Grajaú à Ilha do Bororé, no extremo-sul de São Paulo. Entre histórias de coragem e improvisos, ele criou estratégias inusitadas para prevenir acidentes de trânsito e até ajudou a realizar um parto à bordo da balsa.
“Minha avó era parteira, me inspirei nela. Desinfetei as mãos com álcool, fiz uma cama improvisada com os coletes salva-vidas e ajudei a tirar a criança”, recorda-se, emocionado.
Quando a ambulância chegou, a enfermeira elogiou o procedimento. Em gratidão, a mãe batizou a criança como e Émerson, mesmo nome do filho recém-nascido de João na época do evento, em 1987.
“A balsa tem história. Os meus colegas já morreram todos e eu estou aqui ainda. Éramos oito. Dá saudade… Era muito gostoso trabalhar”.
Nascido em Cambuquira, Minas Gerais, João se mudou para o Grajaú, em São Paulo, no início da década de 1970. Entre 1977 e 1999, foi um dos responsáveis pela travessia da represa, até se aposentar, e se tornou uma figura central na vida dos moradores da Ilha do Bororé. Em 2025, a Represa Billings completa 100 anos.
“O balseiro sabia da vida de todo mundo da Ilha do Bororé, mesmo sem querer saber”, conta, rindo. “A gente tinha o rádio de comunicação, então éramos nós que chamávamos a polícia ou a ambulância. Era como uma família”, relembra sobre o passado na Ilha.
João e Sebastiana, sua companheira há mais de 40 anos @Léu Britto/ Agência Mural
Desde os 19 anos, João manobrava a balsa, organizava o embarque e desembarque de veículos e pedestres e conduzia a travessia. Foi a partir do cais que ele viu as principais mudanças do Grajaú, uma região em constante transformação, e viveu inúmeras histórias que marcaram sua trajetória de trabalho.
A região metropolitana de São Paulo tem três travessias de balsa: a Grajaú-Bororé, (6 km); a Estrada de Itaquaquecetuba a São Bernardo do Campo (6,6 km) e a travessia João Basso (11 km), entre São Paulo e Riacho Grande, em São Bernardo.
Atravessar a Represa Billings era, para João, muito mais do que uma questão de transporte. Ele enfrentou várias situações difíceis, como suicídios e acidentes de carros em alta velocidade que caíam na água, devido à falta de barreiras entre a estrada e a represa.
Em outros momentos, João mergulhava na água para remover plantas que se enroscavam nos cabos da embarcação. E, com bom humor, ele lembra que chegou a “queimar cocô de cavalo” para tentar espantar os mosquitos.
Apesar de se referir ao trabalho como “o paraíso”, ele reconhece que enfrentou dificuldades, especialmente devido ao barulho. A cabine de comando da balsa ficava em cima do motor, e ele passava muitas horas ali.
Apesar de aposentado, João passa os dias próximo a Represa Billings @Léu Britto/ Agência Mural
A balsa que liga a Ilha do Bororé à cidade de São Paulo ainda tem um papel fundamental na vida dos moradores. Com uma média de 5 mil travessias mensais, transportando 54 mil veículos e 36 mil pedestres, a ligação foi criada no final da década de 1920 para garantir o direito de ir e vir dos moradores da região.
Atualmente, as balsas seguem rigorosamente as determinações da Marinha do Brasil e são inspecionadas periodicamente. O sistema de abertura e fechamento das cancelas e plataformas foi aprimorado e a iluminação foi modernizada com LEDs.
Braço da represa no Grajaú, onde João costuma pescar @Léu Britto/ Agência Mural
Embora tenha se aposentado em 1999, João continua conectado à Ilha do Bororé. Foi lá que ele conheceu Sebastiana Aparecida Ribeiro, sua esposa, com quem compartilha mais de 40 anos de casamento.
Ele ainda atua no transporte de crianças e adolescentes da Escola Estadual Professor Adrião Bernardes, a única escola da Ilha, e permanece uma figura essencial para os moradores do Grajaú e da região.
“Atendendo a população você passa por momentos difíceis e por momentos bons. Se fosse para eu fazer tudo de novo eu faria, sem medo de nada”.
Essa reportagem faz parte do especial “Nas Margens da Billings“. Navegue por outras histórias e conheça as pessoas que transformam a represa em lar e fazem da preservação ambiental uma missão de vida.
Graduada em jornalismo pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM) e pós graduanda em Mídia, Informação e Cultura pelo Celacc/USP. Homenageada no 1° Prêmio Neusa Maria de Jornalismo. Correspondente do Grajaú desde 2021.
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