Educadora Cleane Cavalcanti Gomes morreu na pandemia de Covid-19 e recebeu homenagem póstuma dos alunos e professores
Isabela Alves/Agência Mural
Por: Isabela Alves
Notícia
Publicado em 22.06.2026 | 13:48 | Alterado em 22.06.2026 | 13:48
A comunidade escolar do Grajaú, distrito da zona sul de São Paulo, conseguiu transformar uma mobilização popular em homenagem permanente. A antiga EMEF Jardim Sipramar passou a se chamar EMEF Professora Cleane Cavalcanti Gomes, em reconhecimento à educadora que marcou gerações de estudantes e morreu em junho de 2021, vítima da Covid-19.
A iniciativa partiu de moradores, estudantes e colegas de trabalho, que, após a morte da professora, buscaram uma forma de preservar sua memória e reconhecer o legado construído no território.

Familiares, professores e amigos de Cleane posam em frente à placa da nova escola @Isabela Alves/Agência Mural
Como uma nova unidade escolar estava prestes a ser inaugurada no bairro, surgiu a proposta de batizá-la com o nome de Cleane, conhecida pelo envolvimento com a comunidade e pela atuação que ultrapassava os limites da sala de aula.
A mudança foi oficializada após a aprovação unânime do Projeto de Lei 812/2024, de autoria do vereador Celso Giannazi (PSOL-SP), na Câmara Municipal de São Paulo.

A EMEF iniciou as atividades no começo do ano letivo de 2021 @Isabela Alves/Agência Mural
Cleane Cavalcanti Gomes foi uma educadora, artista circense de contorcionismo, artista plástica e ativista social. Ao longo da vida, atuou na promoção da educação e da cultura na periferia onde viveu, além de lutar pela defesa de pessoas em situação de rua e de atuar em causas ligadas à proteção animal.
“A Cleane era uma menina muito meiga. Ela amava as pessoas e era muito preocupada com as causas sociais. Ela sempre foi educadora, mesmo antes de cursar licenciatura”, diz Maria Vilani Cavalcanti Gomes, 76, professora aposentada, escritora e mãe de Cleane.
Segundo ela, Cleane nunca teve dúvidas sobre a carreira que queria seguir. Quando se tornou professora, passou a exercer o magistério com dedicação, compromisso e proximidade com os alunos.
A educadora começou a dar aulas aos 23 anos na rede pública de ensino. Ao longo da trajetória, lecionou aulas de português e inglês para turmas do ensino fundamental II, ensino médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Sempre atuando no Grajaú, tornou-se conhecida pela disponibilidade em ajudar a comunidade e pela relação próxima que mantinha com estudantes e moradores da região.

Os pais, Cleon Gomes e Maria Vilani, ao lado da obra de arte feita em homenagem à filha @Isabela Alves/Agência Mural
A última escola onde lecionou foi a EMEF Frei Damião, próxima à nova unidade da EMEF Jardim Sipramar, inaugurada durante a pandemia. Cleane havia solicitado a transferência para a escola recém-inaugurada, onde planejava desenvolver novos projetos.
Com o retorno gradual das aulas presenciais na época da pandemia, entre 2021 e o início de 2022, ela não chegou a atuar presencialmente na nova unidade por integrar o grupo de risco devido à asma. Ainda assim, seguiu lecionando de forma remota.
‘A escola passou a ser o sonho dela, no sentido de que ela iria mover todos os esforços para que a escola tivesse a cara dos alunos e educadores’
Maria Vilani
Cleane faleceu aos 38 anos, vítima da Covid-19, em 5 de junho de 2021. Após sua morte, moradores, estudantes e colegas se mobilizaram para que a educadora fosse homenageada com o nome da escola.
Para quem conviveu com a professora, a mudança vai além de um reconhecimento simbólico. É uma forma de manter viva a memória de uma referência do território e valorizar trajetórias construídas dentro da própria comunidade.

Evento de inauguração reuniu mais de 200 pessoas no Grajaú, na zona sul de São Paulo @Isabela Alves/Agência Mural
“Cleane amava o que fazia. Toda vez que eu passava na casa dela, ela estava estudando, corrigindo provas dos alunos ou pintando os quadros. Ela tinha muita força de vontade, era dedicada, profissional, guerreira e corajosa”, relata Adriano Mendes, ativista cultural, do movimento de saúde do Grajaú e amigo da professora.
O evento de inauguração do novo nome da escola, realizado em 28 de fevereiro de 2026, reuniu mais de 200 pessoas. Para a família, a homenagem representa a consolidação do legado de Cleane, agora eternizado no nome de uma instituição pública.
“Os educadores merecem respeito e valorização. Em São Paulo, muitas escolas ainda carregam nomes que pouco dialogam com a realidade de quem as frequenta, sem conexão com as histórias e vivências dos territórios. A mudança de nome da EMEF Professora Cleane Cavalcante Gomes representa, portanto, a valorização de uma trajetória e a preservação da memória coletiva”, afirmou, em nota, o coletivo Educação em 1º Lugar, formado pelo vereador Celso Giannazi, pelo deputado estadual Carlos Giannazi e pela deputada federal professora Luciene Cavalcante.
Cleane deixa o único filho, Vitor, de 18 anos.
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Jornalista e cineasta da quebrada. Pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura e em Gestão de Projetos Culturais pelo CELACC/USP. Fundadora da Parasita Filmes, produtora independente dedicada a contar histórias do extremo sul de São Paulo.
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