Léu Britto/ Agência Mural
Por: Artur Ferreira
Notícia
Publicado em 25.03.2025 | 20:08 | Alterado em 25.03.2025 | 20:08
“A pescaria é sagrada para mim. Está no meu sangue, está na minha história. Faço qualquer coisa, menos largar a pescaria. A minha vida é a Represa Billings, é uma segunda mãe para mim.”
É com esta constatação forte e emocionada que a pescadora Shirley Aparecida, 53, define sua relação com a Billings e com seu território: o pós-balsa de São Bernardo do Campo, onde vive desde que nasceu, um dos municípios da Grande São Paulo mais banhados pela represa, que em 2025 completa 100 anos.
Em um dia bom, Shirlye chega a pescar até 30 quilos de peixe @Léu Britto/ Agência Mural
Moradora do bairro de Tatetos, na zona rural do município, Shirley aprendeu o ofício de pesca com o pai ainda na infância e com o trabalho garantiu o sustento de seus dois filhos ao longo de toda uma vida entre redes, malhas e iscas. “Minha vida foi toda dentro de barcos”, resume.
Com o passar dos anos, se acostumou a começar o dia muito cedo, uma realidade para quem vive da pesca.
“Eu armo minha rede um dia antes, aí acordo 4h30, vou até meu barco e, no mais tardar 5h20, eu entro na água”.
Lambaris, tilápias, acarás e traíras. Tudo o que é pescado vai para um isopor com gelo, e às 11h30, já de volta ao cais, ela começa a limpar os peixes. “Dependendo da quantidade, acabo lá pelas 15h. Aí já é hora de armar a rede de novo para o dia seguinte.” Segundo Shirley, em um bom dia de pescaria, a média é pegar 30 kg de peixe.
A venda do pescado varia conforme a quantidade . “Sempre separo uma parte para casa, depois eu vendo diretamente para vizinhos que me conhecem e sabem que eu sou pescadora. O restante vendo na feira do bairro, com meu marido.”
Vista aérea da Represa Billings, em São Bernardo @Léu Britto/ Agência Mural
A rotina de Shirley, que se repete há anos, acontece na zona denominada Z17 pela Colônia de Pescadores Orlando Feliciano, localizada no pós-balsa de São Bernardo do Campo.
Os pescadores legalizados podempescar entre março e novembro. “Nos outros quatro meses do ano, a gente está no período de defeso, época de reprodução dos peixes. Então não podemos pescar e ganhamos um salário do governo”, explica.
Nos momentos de descanso, em casa, Shirley descobriu um novo passatempo: produzir peças de cerâmica. Na Colônia de Pescadores, conheceu uma professora que ensinou algumas técnicas dessa arte milenar.
Ela confecciona peças inspiradas na natureza ao redor da Billings, utilizando formas de folhas, frutos e sementes.
“Você faz a cerâmica hoje, mas ela só vai ficar pronta daqui 35 ou 40 dias, depois de duas queimas. É um processo longo, mas depois que peguei o ‘bichinho’ da cerâmica, nunca mais quis parar”.
Em quatro meses do ano, durante o período de defeso, Shirley não pode pescar e recebe auxílio do governo @Léu Britto/ Agência Mural
Shirley também é mestra fluvial e afirma conhecer Represa Billings de “cabo a rabo”.
“Meu pai era pescador e levou a nossa família para morar em várias regiões da represa. Mas isso me atrapalhou também, porque em alguns lugares não tinha escolas perto”, relembra a pescadora, que começou a estudar aos 7 anos.
Parte importante da sua infância foi na represa, ao lado do pai, hoje com 79 anos. Todos os dias, ela estava com ele no barco, aprendendo técnicas de pesca, sem saber que estava absorvendo um conhecimento ancestral das populações ribeirinhas do Brasil.
“Eu amava todo o processo, desde ficar no barco à espera dos peixes até preparar o alimento. Meu pai pescava até o ano passado. Hoje está aposentado. A pescaria exige muito do físico”.
Quando perguntada sobre o que espera da Billings nos próximos 100 anos, Shirley é clara: “Eu espero que que governos olhem com mais atenção para os pescadores. Onde eu trabalho, é tudo de bom, mas muitos pescadores trabalham nas partes poluídas da represa, perto do Rodoanel, da Pedreira. Tem que limpar essas áreas e fiscalizar para que não joguem lixo na Billings”.
Essa reportagem faz parte do especial “Nas Margens da Billings“. Navegue por outras histórias e conheça as pessoas que transformam a represa em lar e fazem da preservação ambiental uma missão de vida.
Jornalista e redator. Atuou nas redações do Observatório do Terceiro Setor e Rádio CBN. Adora livros, cinema, podcasts e debater sobre política internacional. Palmeirense. Correspondente do Jardim São Luís desde 2022.
A Agência Mural de Jornalismo das Periferias, uma organização sem fins lucrativos, tem como missão reduzir as lacunas de informação sobre as periferias da Grande São Paulo. Portanto queremos que nossas reportagens alcancem outras e novas audiências.
Se você quer saber como republicar nosso conteúdo, seja ele texto, foto, arte, vídeo, áudio, no seu meio, escreva pra gente.
Envie uma mensagem para [email protected]