Por: Daniel Santana
Notícia
Publicado em 24.06.2026 | 16:02 | Alterado em 24.06.2026 | 16:02
Já imaginou deixar sua profissão para viver de uma paixão e ainda ajudar seus vizinhos a ter uma saúde melhor? A psicóloga Cristiane Bonfim, 47, não só imaginou, como teve coragem de colocar esse plano em prática. Moradora do Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo, ela deixou o hospital para criar um projeto de dança no distrito onde vive.
Há cinco anos, ela está à frente do Balance.Iee, um grupo de dança para idosas, que se dedicam a aprender (e ensinar) diferentes ritmos, enquanto fortalecem laços de amizade, participação comunitária, saúde e autoestima.
“Decidi começar a dar aula para as mulheres da comunidade com a intenção de promover movimento e de trazer vitalidade. Porque é isso que a dança representa para mim: bem-estar, alegria e movimento”, conta.

Cristiane criou o projeto de danças Balance.lee, com aulas de ritmos variados para idosas @Daniel Santana/Agência Mural
A aposta deu certo. Semanalmente, 80 mulheres se encontram na sede do coletivo Bloco do Beco, no Jardim Ibirapuera, na zona sul, para dançar forró, piseiro, salsa, carimbó e outros ritmos.
O nome do projeto é inspirado na música “Balancê”, da cantora portuguesa Sara Tavares, que fala sobre a dança como uma forma de conexão entre as pessoas. Com esse estímulo e muita força de vontade, Cristiane já conquistou, desde 2024, financiamento para o projeto pelo VAI, programa da Prefeitura de São Paulo que apoia coletivos artístico-culturais.
‘No ritmo e na dança, tudo é voltado para o sentir, porque a música é sentimento. Esse é o caminho. Se fosse definir a dança em uma palavra, seria liberdade’
Cristiane Bonfim, professora de dança
A dança faz parte da vida de Cris, como é conhecida, desde os 11 anos, quando se apaixonou pelo longa “Salsa – O Filme Quente” (1988), estrelado por Draco Rosa. Daí em diante, o interesse pela dança se intensificou na vida dela.
Mas como a vida segue diferentes caminhos, ela se formou em psicologia e trabalhou seis anos na área. Porém, a dança falou mais alto: “Mas sempre gostei de dançar, desde muito jovem. Por ser um gosto antigo, decidi fazer algumas formações para entender melhor onde me encaixava e o que gostaria de fazer”.
Desde 2020, ela é formada em zumba e dança de salão. Com esse conhecimento adquirido, Cris se propôs a ser voluntária do Bloco do Beco já no começo do ano seguinte, ensinando aquilo que mais gosta de fazer.
As aulas começaram com ritmos variados, reunindo diferentes gêneros musicais, como samba-rock, pop, música latina, entre outros. Inicialmente, cerca de 10 alunas, todas com mais de 50 anos, participaram da atividade, formando uma turma pequena e bastante engajada.
Mas, com a energia da professora e dos ritmos, uma foi chamando a outra e o grupo cresceu, as aulas aumentaram e a animação também. Atualmente, são 30 mulheres na aula de forró, 12 na de carimbó e 40 na de ritmos variados, que incluem também samba rock, pop e música latina.
O Carimbó é uma dança de roda típica do Pará, de origem indígena. É marcada por movimentos giratórios de mulheres, usando saias coloridas e rodadas.
As alunas não titubeiam: o ritmo mais pedido é o forró, muito popular no bairro, de forte influência nordestina. E que bom, porque Cris é apaixonada pelo estilo desde a adolescência, quando ia dançar em festas e bailes.
“Elas gostavam e pediam muito forró. Depois introduzi o carimbó, trabalhando o ritmo de uma forma bem leve, para que elas pudessem se divertir”, conta. A chegada desta nova dança veio com uma aluna paraense, que começou a fazer aulas em 2021 e fez Cris se debruçar alguns meses nos estudos para aprender o novo estilo.

Maria Cecilia passou a ter mais vitalidade após entrar no Balance.Iee @Daniel Santana/Agência Mural
Assim, o ritmo passou a mudar a vida de todas as alunas envolvidas, como a de Maria Cecília Ferreira, 78. A dona de casa não esconde a animação e alegria em fazer parte das aulas, além da vitalidade gerada pelas atividades.
“Eu vivia num estresse doido, com muitas dores. O carimbó mudou tudo, não sinto mais nada. Minha saúde melhorou”, afirma.
Há dois anos no carimbó, a aluna é presença constante nas sexta-feira e conta que dança a motiva a participar de outras atividades da região, como a Oficina de Mosaico do Ateliê Ibira 30, que restaura escadões e vielas do bairro. Além disso, ela participa das aulas de pilates do Bloco do Beco, às quartas-feiras.
Ela aponta que estar dançando, tendo o incentivo da professora no dia a dia, foi o pontapé inicial para uma rotina mais ativa.

Vilma fica emocionada ao lembrar das apresentações com o grupo @Daniel Santana/Agência Mural
O sentimento é compartilhado pela também dona de casa Vilma de Jesus, 75, que também dança carimbó e forró. No grupo há quatro anos, ela reforça o quanto a dança é importante para sua qualidade de vida.
‘Por causa da minha depressão, eu ficava em casa e não tinha ânimo para nada, estava toda jururu. Um dia me deu um estalo e disse: ‘vou na Cris’. Aí fiquei, ela me deu força e não parei mais. Gosto dela como filha, é muito especial
Vilma, dona de casa
Um dos momentos mais marcantes da trajetória de Vilma foi a primeira apresentação de carimbó do grupo em um palco, em novembro de 2024, no CEU Casablanca, na Vila das Belezas, também zona sul de São Paulo.
“Fiquei toda emocionada. Quando o pessoal começou a bater palma, até hoje eu choro. Não esqueço, foi muita emoção para todas nós”.
Depois dessa experiência, as alunas passaram cada vez mais a se ver como artistas, conta Cris, e não deixam de ir a outras apresentações em CEUs e em escolas da região. Além disso, o grupo participa com frequência de concursos de forró, como o Da Ponte Pro Roots, e eventos de carimbó.

As alunas fizeram apresentação de dança no CEU Casablanca em novembro de 2024 @Daniel Santana/Agência Mural
“Elas se arrumam, se maquiam, levam adereços. Isso elevou a autoestima e houve um fortalecimento social: criou-se uma rede de apoio entre elas”, complementa Cris.
A união das alunas é um destaque. Quando uma não está bem, a outra percebe, o grupo se mobiliza, visita, ajuda. Assim, cria-se uma rede forte de cuidado e afeto entre as idosas. “As meninas são legais, todas elas. A gente conversa, dá risada. Nós mudamos da noite pro dia”, diz Maria.
Para o futuro, a professora pretende ampliar o trabalho e levá-lo a mais mulheres. Além disso, planeja desenvolver workshops para trabalhar com danças africanas, sensualidade e expressão, tudo voltado para o sentir. “Não é sobre o que gosto, mas sobre o que faz sentido para elas”, diz a professora.
A dança, hoje, é o presente e o futuro de Cris e faz parte de cada um dos seus passos, dentro e fora dos palcos.

As idosas gostam da aula de carimbó, no Bloco do Beco @Daniel Santana/Agência Mural
Mas o sonho, que foi guiado pelos ritmos, continua o mesmo: que cada aluna encontre a dança à sua maneira, para se curar, se movimentar e se reconectar consigo mesma.
Forró: Segunda-feira, das 18h30 às 19h30
Ritmos Variados: Terça-feira, das 8h às 9h
Carimbó: Sexta-feira, das 9h às 10h
Endereço: Endereço: R. Bento Barroso Pereira, 2 – Jardim Ibirapuera, SP
Formas de pagamento: Gratuito
Ritmos Brasileiros: Quarta-feira, das 9h às 10h
Endereço: Rua José Manoel Camisa Nova, 110 – Jardim Leticia, SP
Formas de pagamento: Gratuito
Jornalista, apaixonado por livros, samba e carnaval. Corintiano, vivo o futebol de domingo a domingo. Adoro contar histórias através do jornalismo.
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