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The Town: Quem são os jovens de Heliópolis que vão se apresentar ao lado dos Racionais

Musicistas da OSH relatam quais as principais emoções para o show e a integração de duas periferias

Por: Isabela do Carmo

Notícia

Publicado em 31.08.2023 | 15:02 | Alterado em 31.08.2023 | 15:30

Tempo de leitura: 5 min(s)

Matheus Alves Firmino, 19, é morador de Heliópolis, na zona sul de São Paulo, e violinista na OSH (Orquestra Sinfônica de Heliópolis) e está ansioso para sábado (2). Ele estará na 1ª edição do The Town e junto aos colegas se apresentará ao lado dos Racionais MC’s. “São pessoas que sempre escutei, mas nunca achei que fosse ter acesso à elas, dividir o palco ainda, muito menos”, completa.

O encontro do maior grupo de rap do Brasil e da primeira orquestra sinfônica surgida dentro de uma favela, será no Autódromo de Interlagos, na zona sul de São Paulo.

A participação tem agitado os jovens que vão se apresentar no evento. Para Matheus, essa oportunidade quase ficou para trás por conta das necessidades.

Nascido e criado no Helipa, Matheus iniciou no Instituto Baccarelli aos 9 anos, no Coral Heliópolis. Com o passar dos anos, ingressou na aprendizagem instrumental e logo se identificou com o violino.

No entanto, aos 16 anos, em plena pandemia de Covid-19, se viu em um grande dilema: continuar estudando violino ou trabalhar?

Matheus Alves teve de parar os estudos por um tempo, mas conseguiu retornar @Arquivo Pessoal

A pedido dos pais, deixou o instrumento de lado e começou em um emprego com carteira assinada. “Comecei a trabalhar na metalúrgica. Fiquei uns três meses, mais ou menos, trabalhando. Só que todo dia acordava não querendo ir”, relembra. “Era bom porque era um salário e meus pais pararam de me cobrar trabalho. Só que não queria aquilo. Queria tocar violino”, contou.

No entanto, o sonho de Matheus não foi embora. O jovem teve uma conversa sincera com os pais (que contou com o apoio do professor de música) e pediu aos responsáveis mais uma chance de retornar aos estudos musicais.

“Após essa conversa com os meus pais, consegui continuar nas aulas de violino. Assim que retornei, consegui entrar na Orquestra Juvenil Heliópolis e conquistei uma bolsa de R$ 800. Essa bolsa ajudou bastante, tudo o que eu tenho hoje [violino e equipamentos musicais] foi com a bolsa da OJH”, conta.

Matheus também fala sobre como os musicistas das periferias ainda são descredibilizados pelo público em geral. “Tem gente que não acredita que uma pessoa que mora em comunidade consegue ter acesso a um instrumento clássico e capacidade em fazer música”, afirma.

“Não acho que deveria ter uma classe social pra gostar de música clássica, para poder fazer música clássica”, explicou.

União de periferias

A apresentação headliner do palco The One irá possibilitar a união de periferias de São Paulo, no caso Capão Redondo e Heliópolis.

“Proporcionar esse encontro de dois bairros periféricos que compartilham muitas vezes das mesmas dores e aflições, é poder olhar para o talento que existe na periferia e que ela tem que ser mais vista e aplaudida sim”, diz Edilson Ventureli, diretor executivo do Instituto Baccarelli e maestro que estará à frente da OSH no The Town.

O Instituto Baccarelli atua na região desde os anos 1990 e a Orquestra Sinfônica Heliópolis é composta por 70 musicistas, sendo eles de Heliópolis e demais regiões de São Paulo.

Samara Gama vive no Jardim Peri e faz parte da Orquestra de Heliópolis @Arquivo Pessoal

Do Jardim Peri, na zona norte de São Paulo, Samara Gama, 26, viu no Heliópolis, outro extremo periférico, uma chance de se aperfeiçoar enquanto violinista.

O primeiro contato com a música foi por meio do cristianismo, dentro de uma igreja, ao ver a irmã tocando violino. “Um dia ela largou do instrumento e eu fiquei: ‘Ah, pai, eu quero fazer aula de violino’. Mas meu pai não queria me colocar na aula. Foi só então na adolescência que eu fui estudar violino dentro da igreja”, relatou. 

Passado o tempo, ela entrou em outros grupos sinfônicos e logo depois ingressou na OSH. “É muito legal ter uma orquestra num ambiente periférico, possibilitando que pessoas negras possam enxergar novas possibilidades”, avalia sobre a orquestra citando a representatividade.

“Se você observar uma orquestra profissional, quase não tem pessoas negras, de fato, atuando no mercado”

Samara Gama, da OSH

Na expectativa para o grande dia de apresentação, Samara relata a importância de estar ao lado de grandes referências artísticas. “Preciso estar imersa na musicalidade deles, estou escutando muito Racionais. Vai ser bom estar em um palco com pessoas iguais a mim, principalmente com pessoas que fazem esse tipo de música que representa tanto”.

Matheus Mayer cita a visibilidade do evento para garantir mais artistas das periferias na música clássica @Arquivo Pessoal

A vida é desafio

Diretamente da cidade de Osasco, na Grande São Paulo, Matheus Mayer Murilha, 22, é um dos contrabaixistas da OSH. O jovem, que sai toda semana da região oeste e vai à zona sul para ensaiar, ingressou na área musical em 2015, aos 14 anos.

Matheus já participou de outros grupos sinfônicos e, por meio da música, fez apresentações em outros países da América Latina, como Chile e Argentina.

Fã de Racionais, tendo a música “A Vida É Desafio” como a favorita, ele brinca que ficou “histérico” ao saber que se apresentariam lado a lado. Para o jovem osasquense, a OSH e os Racionais são parecidos. “Eles têm visões de mundo extremamente semelhantes. Os dois grupos se entendem muito bem, vivem e tratam dos mesmos assuntos no cotidiano o tempo todo”, contou.

Além disso, o contrabaixista refletiu sobre a realidade dos musicistas no Brasil. “Já conheci muita gente extremamente talentosa que desistiu porque não tinha condição financeira de ficar pegando trem e ônibus todos os dias para participar de ensaio”, conta.

Para ele, a participação no evento mostra a necessidade de garantir mais visibilidade para artistas vindos das periferias, o que será o caso do The Town. “Nós vamos estar em um mesmo espaço que outros artistas internacionais”.

Camila veio do sul do país e ingressou na Orquestra de Heliópolis @Arquivo Pessoal

As oportunidades de mudança

Camila Rocha, 29, saiu do Sul do país e veio morar no bairro de São João Clímaco, ao lado do Heliópolis, para conseguir estudar e se estabelecer enquanto violoncelista. “Sabia que aqui era uma referência no Brasil”, diz Camila que, após ingressar enquanto aluna, passou a ser professora de violoncelo, também no Instituto Baccarelli.

Enquanto professora de violoncelo e integrante da OSH, Camila fala sobre como as pessoas passaram a olhar a cultura periférica após a apresentação da orquestra e Racionais no The Town.

“As pessoas vão ver a grande potência que tem dentro das periferias, que muitas vezes estão escondidas por falta de oportunidade”, relatou.

Em seguida, conta quais são os sentimentos às vésperas do show. “Estou muito ansiosa, porque a gente não tem noção de como é o tamanho do palco e estrutura. Mas eu acho que vai ser inesquecível, ver aquele tanto de gente ali apreciando e podendo ouvir a OSH, junto dos Racionais, vai ser um marco histórico”.

COMO SURGIU A ORQUESTRA SINFÔNICA DE HELIÓPOLIS
  • Em 17 de junho de 1996, um incêndio destruiu um prédio semiconstruído e aproximadamente 20 barracos em Heliópolis, deixando 4 mortos e cerca de 60 feridos. Entre as vítimas, uma criança de 4 anos e um bebê de apenas 12 dias de vida. A tragédia fez o maestro Silvio Baccarelli se sensibilizar com a situação. 
  • Ele começou a dar aulas voluntárias de música clássica, em um pequeno auditório próprio, para aproximadamente 36 crianças de Heliópolis. Tempos depois, formou uma pequena orquestra de cordas que deu origem ao Instituto Baccarelli e à OSH (Orquestra Sinfônica Heliópolis). Hoje há também a OJH (Orquestra Juvenil Heliópolis) e aulas de musicalização e canto-coral.

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Isabela do Carmo

Graduanda em jornalismo pela UAM, com bolsa integral pelo ProUni. Atua na produção de reportagens com foco em diversidade e inclusão, cidadania e direito à cidade. É correspondente do Heliópolis desde 2023.

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