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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Cleber Arruda

Notícia

Publicado em 20.01.2022 | 15:11 | Alterado em 24.01.2022 | 10:43

Tempo de leitura: 4 min(s)

Falta de medicamentos, horas de espera para receber atendimento e superlotação são alguns dos problemas enfrentados pelos moradores das regiões da Brasilândia, na zona norte de São Paulo, ao procurarem ajuda nos últimos dias com a alta dos casos de Covid-19 e gripe.

A analista de vendas Maria Aparecida Honório, 52, moradora da Vila Terezinha, no distrito da Brasilândia/Freguesia do Ó, conta que procurou por um antibiótico receitado para o filho em três unidades de saúde da região e não conseguiu encontrá-lo.

“É um remédio que custa caro para quem está no subemprego ou desempregado. No nosso caso, conseguimos comprar com a ajuda de familiares, mas quantas famílias hoje não conseguem dinheiro para comprar comida?”, questiona Maria Aparecida.

Pacientes com outros problemas de saúde, como a diarista e cozinheira Maria Benedita Cardoso da Silva, 50, também reclamam da falta de medicamentos nos postos da região. A mãe dela faz tratamento da diabetes, fibromialgia, colesterol e bronquite. “Os remédios que ela precisa estão em falta”, conta Maria.

Ela foi duas vezes no posto e a mãe passou por outros três, sem encontrar medicamentos. “É muito complicado para quem tem doenças crônicas nesse momento. Os postos estão dando mais atenção para os casos de Covid”, ressalta.

Moradores aguardam atendimento no lado de fora da UBS Silmarya Rejane Carumbé @Cleber Arruda/Agência Mural

Com muitas dores e sintomas de gripe, a educadora popular Noemia de Oliveira Mendonça, 63, moradora do Jardim Damasceno, desistiu de ir à UBS (Unidade Básica de Saúde) Silmarya Rejane M. de Souza, no Jardim Carumbé, mais próxima da casa dela, por receio da superlotação nos últimos dias. Ela buscou atendimento na Ama/UBS Elísio Teixeira Leite, em um bairro próximo, por considerar menos lotado.

Na unidade, Noemia fez o teste de Covid, que deu negativo, e saiu do local com uma receita de cinco medicamentos. “Na farmácia, dos cinco, só tinha dipirona. Um dos remédios, que era para gripe, não tinha nem na rede particular, e a informação era que estava tendo muita procura. Sem contar que um dos remédios custava R$ 200”.

Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde disse que a UBS Vila Terezinha e a UBS Silmarya Rejane M. de Souza seriam abastecidas nesta semana com Amoxicilina, um dos medicamentos com mais queixas de falta nos postos, e outros antibióticos.

A pasta diz ainda que as demais unidades da região estão em processo de abastecimento.

Sem respiro

Noemia, que se define como militante em defesa dos Direitos Humanos, relembra as dificuldades enfrentadas no distrito durante a pandemia. Em 2020, a região teve a inauguração do hospital municipal após anos de atraso.

Durante o primeiro ano da pandemia, a região esteve em segundo lugar no ranking dos casos de óbitos por Covid-19 na capital.

“Quando a gente achou que ia ter um respiro com as vacinas, vieram essas novas variantes. Acabou sobrando para o serviço de atenção básica”

Noemia de Oliveira Mendonça

Em dezembro do ano passado, com o aumento da incidência dos vírus respiratórios, entre eles, o influenza, a Secretaria Municipal da Saúde resolveu separar uma quantidade de leitos do Hospital Municipal da Brasilândia, para o acolhimento e tratamento dos casos de Srags (Síndromes Respiratórias Agudas Graves).

Dos 406 leitos da unidade, 258 seriam destinados para tratar dos casos desses pacientes. Contudo, a demanda de casos subiu e a secretaria disse que o hospital está atualmente voltado para o acolhimento e tratamento exclusivo dos casos de Covid-19.

Dos 406 leitos, 336 estão ocupados: 162 leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), com taxa de ocupação de 86,17%, e 174 leitos de enfermaria ocupados, com 79,82% de taxa de ocupação.

Hospital da Brasilândia está com 86% da ocupação dos leitos de UTI @Secretaria Municipal de Saúde

Para Noemia, é necessária uma reflexão sobre as demandas nos bairros mais afastados no distrito, que passam por um crescimento populacional nos últimos anos por conta de novas moradias e ocupações. “Esse trecho do fundão da Brasilândia está extremamente prejudicado”, afirma. “E UBS não é pronto-socorro, não é o atendimento rápido”, ressalta.

“A pessoa chega a procura do serviço e quer ser atendida, quando não é, reage de forma até violenta com o profissional; que não tem culpa”, diz Noemia.

Cláudio Kafé, 48, coordenador de gestão e projetos da Amavb (Associação de Moradores do Alto da Vila Brasilândia), diz que o sistema não está dando conta da demanda na região e enumera os problemas enfrentados.

“Temos três agravantes: o grande número populacional em situação de extrema vulnerabilidade; faltas de políticas públicas eficazes como, saneamento básico, equipamentos de saúde, e o negacionismo de uma parte da população”.

Durante a pandemia, a Amavb realizou ações como a distribuição de cestas básicas, máscaras e campanhas de informação para a população, mas Kafé afirma ter sentido uma baixa de até 40% nas doações para a região nas últimas semanas.

“O pior é que os pedidos de socorro só aumentam. Em dezembro atendemos três mulheres que vieram do Grajaú e duas de Guaianases para retirar cesta”, diz.

Para ajudar a Amavb (Associação de Moradores do Alto da Vila Brasilândia – AMAVB), você pode entrar em contato pelo e-mail: [email protected]
Cleber Arruda

Cofundador, correspondente da Brasilândia desde 2010 e editor em projetos especiais. É jornalista do Valor Econômico e voluntário do projeto Animais da Aldeia. Canceriano, gosta de cachorros e de viajar por aí.

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