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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Gabriela Carvalho

Notícia

Publicado em 01.12.2022 | 21:09 | Alterado em 02.12.2022 | 14:47

Tempo de leitura: 5 min(s)

“Eu não costumava me testar. No meu imaginário, uma pessoa vivendo com HIV seria magra e bem debilitada. Não me relacionava com ninguém que tivesse essa ‘aparência doente’”, conta Vitor Ramos, 29, morador de Diadema, na Grande São Paulo.

Há quatro anos, ele foi diagnosticado com Aids (Síndrome da Imunodeficiência Humana), doença causada pela infecção do HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana), e hoje vive com o vírus de forma indetectável. O quadro ocorre quando a carga viral no sangue é tão baixa que o vírus não age mais no organismo, tornando-se, inclusive, intransmissível.

Hoje, com a carga viral indetectável, Vitor Ramos conta sua trajetória com o HIV nas redes sociais @Arquivo Pessoal

O Dia Mundial de Combate à Aids, neste 1º de dezembro, tem justamente o papel de conscientizar sobre a transmissão do HIV, alertando a população sobre as formas de prevenção e lutando contra o estigma ao redor do diagnóstico. O próprio caso de Vitor, que hoje atua na área de administração, evidencia o preconceito em torno da doença.

“Quando comecei a ir ao médico, nenhum deles pediu teste de HIV. Em um atendimento, o doutor falou ‘imagina que homem vai ter HIV’, associando isso ao fato de eu aparentar ser heterossexual, quando na verdade sou gay”, diz.

A epidemia no início dos anos 1980 trouxe a associação da Aids à comunidade gay, embora a transmissão do vírus não ocorra apenas através do sexo homossexual sem proteção, mas também por relações sexuais heterossexuais. Além disso, é possível transmitir o vírus por transfusão sanguínea, no compartilhamento de seringas contaminadas e durante a amamentação ou o parto.

O Boletim Epidemiológico de HIV/AIDS de 2022, da Prefeitura de São Paulo, mostra que a forma de transmissão do HIV, no ano de 2021, continuou a ser majoritariamente por relações sexuais, totalizando 91% dos casos registrados no município.

A partir da taxa de detecção, é possível observar que a população negra está mais vulnerável à infecção. No ano passado, a taxa a cada 100 mil habitantes foi de 55,6 entre as pessoas pretas; 32,6 entre as pardas; e 16,5 entre pessoas brancas.

Para Vitor, que se identifica como homem gay, negro e pessoa com deficiência, visualizar este recorte é importante. “Você vê estatisticamente que pessoas pretas e periféricas são as mais contaminadas com HIV, são quem mais desenvolvem a Aids. Pessoas ricas têm mais acesso a tratamentos, acesso à informação sobre onde fazer testes e procurar ajuda”.

Ainda segundo o boletim epidemiológico, é possível identificar que o diagnóstico de Aids tem maior taxa de detecção na região central de São Paulo, nos distritos de Santa Cecília e da Sé. E, em seguida, vêm distritos periféricos como Brasilândia e Casa Verde, na zona norte, Campo Limpo, na zona sul, e Aricanduva, na zona leste.

A importância da testagem

O SUS (Sistema Único de Saúde) oferece atendimento nos CRTs (Centros de Referência e Treinamento DST/AIDS-SP) e CTAs (Centros de Testagem e Aconselhamento). Esses serviços públicos fazem testes de ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis), auxiliam na prevenção do HIV e da Aids, e oferecem tratamento aos pacientes.

No passado, apesar desses serviços, Vitor demorou para obter o diagnóstico. “Comecei a ter muita dor de garganta e emagreci muito em 2015. Isso foi piorando, comecei a ter diarréias e isso dificultou meu dia a dia, não conseguia mais sair de casa”, conta.

Após a descoberta do diagnóstico, Vitor ficou quatro meses acamado se recuperando de doenças oportunistas @Arquivo Pessoal

Ao procurar ajuda, ele foi a nove médicos, mas nenhum solicitou o exame de HIV. Depois de recorrer ao pronto atendimento e clínicos gerais, procurou um especialista em gastroenterologia. Veio a suspeita de doença de Crohn (doença inflamatória do trato gastrointestinal), mas os remédios o deixaram pior.

Após idas ao hospital, Vitor teve o diagnóstico somente em abril de 2018. “Perdi os movimentos da perna e a médica me deu algumas possibilidades: poderia ser AVC, HIV, câncer, entre outras suspeitas. Ela falou que o melhor cenário seria o HIV e logo em seguida veio meu teste positivo.”

Contrair o HIV não necessariamente implica em desenvolver a Aids, já que hoje é possível evitar a síndrome iniciando o tratamento com medicação logo após o diagnóstico de infecção pelo vírus. Mas o caso de Vitor já estava avançado quando foi descoberto.

Vitor perdeu a visão em um dos olhos na época que ficou internado @Arquivo Pessoal

“Tive algumas doenças oportunistas, foram sequelas por conta do atraso do diagnóstico. Tive neurotoxoplasmose, citomegalovírus ocular, sarcoma de kaposi e outras duas ISTs – sífilis e HPV”, conta o morador de Diadema, que perdeu a visão em um dos olhos na época e ficou quatro meses internado.

Cuidados para além da camisinha

Após o diagnóstico, ele decidiu procurar mais informações sobre o assunto. “Precisava ver histórias, ouvir outras pessoas além da médica e minha família”, relata.

Ele conta que, antes disso, o único método de proteção que conhecia era o uso do preservativo. Mas existem outras formas de prevenção – o SUS oferece tratamentos como a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), medicamento de uso contínuo para a prevenção, e a PEP (Profilaxia Pós-Exposição), iniciada em até 72 horas em casos de suspeita de exposição ao HIV.

“Quando há algum acidente com objetivo perfurocortante, quando a camisinha estoura, você não lembra se usou ou se o parceiro tirou camisinha; em todos estes casos você pode recorrer à PEP. Você toma a medicação por 28 dias e faz um acompanhamento de testagens”, afirma Vitor.

Indetectável = Intransmissível

No caso do Vitor, o tratamento dos últimos quatro anos foi bem efetivo. “A indetectabilidade chegou após um tempo tomando a medicação e minha carga praticamente zerou. Quem é indetectável também não transmite para outras pessoas, você pode ter filhos sem perigo”, explica.

Ele e o namorado formam um casal sorodiferente, quando um vive com HIV e o outro não. “Hoje, minha carga viral já é intransmissível, mas mesmo antes de nos conhecermos o Pietro já tomava a PrEP. Então já vi que existia conhecimento, porque ele buscava formas de se cuidar e se prevenir”, conta.

HIV sem tabu

Nesta caminhada, Vitor decidiu compartilhar experiências também pelas redes sociais, no Instagram. Além disso, ele recomenda páginas como a Agência Aids e o canal Super Indetectável.

“Precisamos saber onde procurar informações e como pesquisar, porque na internet ainda tem muito conteúdo desatualizado e informações falsas sobre o HIV”

Quando questionado sobre o principal ponto para combater o HIV e a Aids, Vitor menciona a importância de debater o assunto não apenas em datas específicas.

“Existem em torno de 1 milhão de pessoas no Brasil que vivem com o vírus. O problema é não termos conhecimento sobre o assunto, não sabermos como ocorre a infecção. Daí vem o medo de encostar em pessoas que vivem com HIV, quando na verdade, ao longo da vida, conhecemos pessoas que vivem com o HIV e não sabemos.”

Atendimento especializado

Para recorrer ao atendimento especializado em ISTs, é possível procurar o CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento) da sua cidade ou a unidade mais próxima do seu bairro. Ou então entrar procurar o Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS.

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Gabriela Carvalho

Jornalista, feminista e iludida. Mestra em Mídia e Tecnologia e pós-graduada em Processos Didático-Pedagógico para Cursos na Modalidade a Distância. Apresenta o podcast Próxima Parada, da Agência Mural, e é correspondente do Jardim Marília desde 2019. Produziu o documentário "A Favela Inspira" e é cofundadora do Acolhe+, projeto que oferece amparo à comunidade LGBTI+. Também é cantora de chuveiro, adora audiovisual e é louca por viagens.

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