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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Redação

Notícia

Publicado em 10.06.2022 | 16:00 | Alterado em 17.06.2022 | 4:04

Tempo de leitura: 5 min(s)
Esta reportagem foi produzida com o apoio do Instituto Unibanco IU

A preocupação de estudantes com o desamparo menstrual de colegas de salas resultou em uma mobilização para tentar sanar o problema em uma escola pública de Horizonte, na região metropolitana do Ceará. O grupo interessado na causa é o MyTeam, formado por 11 alunos do ensino médio que fazem parte do Grêmio Estudantil da Escola Estadual de Educação Profissional (EEEP) Lúcia Helena Viana Ribeiro.

Em fevereiro deste ano, eles passaram a distribuir absorventes íntimos e a realizar palestras para promover informações sobre o assunto na instituição.

Dávila Melo, 17, estudante do curso de segurança do trabalho e presidente da agremiação, defende que é essencial entender que nem todos os jovens possuem esclarecimento sobre menstruação no ambiente doméstico e, por isso, a escola precisa ser espaço de debate e acolhimento nesse sentido.

“A gente acredita que, nessas ações, está mudando um pouco ou pelo menos tentando mudar a cabeça das pessoas e quebrando esses tabus e questionamentos contorcidos que a sociedade coloca na nossa cabeça”, diz.

As embalagens de absorventes são disponibilizadas semanalmente nos banheiros da escola. Nos locais, foram colocadas caixas de depósito para os itens, que ficam disponíveis de acordo com a demanda, e também para a reposição pelos próprios alunos, quando possível.

Entre as beneficiadas, Hannah Vitória, 17, aluna do curso de enfermagem, evidencia a importância da ação. “É uma atitude que ajuda muitas meninas e nos faz sentir mais seguras. Uma iniciativa que todas as escolas deveriam ter, porque não é apenas um projeto, é uma mudança!”, diz a estudante.

Em abril, uma palestra que abordou temas relacionados à saúde da mulher foi realizada com a entrega dos itens de higiene. A formação foi ministrada na quadra da escola por duas ex-alunas do curso técnico de enfermagem da instituição.

Annielly Santiago, 19, uma das palestrantes, é técnica em enfermagem formada pela escola e, atualmente, se dedica às práticas ginecológicas e ao autoconhecimento feminino. Ela é fundadora do projeto informativo “Papanico…Who?”, que trabalha com assuntos relacionados à saúde feminina.

A técnica conta que, no encontro, além de falar sobre anatomia, higiene e infecções íntimas, temas planejados para a formação, foram aprofundadas temáticas sexuais e discutidos os tabus que o rodeiam. Para ela, o projeto desenvolvido pelo grêmio trabalha um assunto que precisa ser naturalizado no ambiente escolar.

“Foi um gesto de empatia e generosidade gigantescas. Muita gente não se atenta para esse ponto e acaba não percebendo que a pobreza menstrual, infelizmente, ainda é uma realidade na vida de muitas meninas”, avalia Annielly.

No ano passado, a pobreza menstrual esteve em alerta quando uma enquete da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), revelou que 62% das pessoas que menstruam já deixaram de frequentar a escola ou outros locais em decorrência do ciclo menstrual. Dos 1,7 mil pesquisados, com idades entre 13 e 24 anos, 73% sentiram constrangimento nesses espaços pelo mesmo motivo.

A distribuição de absorventes é feita de modo a atender todos os estudantes que menstruam @Lívia Nogueira/Clube Mural/Agência Mural

Na escola de Horizonte, o grêmio conta que mais de 300 alunos retiram os produtos disponibilizados nos banheiros. O consumo é feito em cerca de três dias após a distribuição.

Alice Ingred, 16, estudante do curso de finanças na instituição e tesoureira do MyTeam, menciona que servir a demanda da escola foi a maior preocupação na implementação da ação. “Nossa escola possui quatro banheiros, dois femininos e dois masculinos, o que nos fez pensar onde a gente iria arranjar tanto absorvente para eles”, disse.

Nos primeiros meses de realização, alguns dos próprios membros do Grêmio financiaram a compra dos produtos.

“As caixinhas dos absorventes passaram algum tempo vazias e, de vez em quando, alguém colocava absorvente lá dentro”, relembra Alice

Para o grupo, essa questão chegou a significar uma impossibilidade de manutenção do projeto. Contudo, segundo a agremiação, a mudança de gestão da instituição possibilitou um diálogo sobre o trabalho, e isso garantiu o reforço material dos absorventes disponibilizados pelo Estado à escola.

Isso porque, a partir de dezembro de 2021, o governo cearense iniciou a disponibilização mensal desses produtos nas instituições públicas de ensino, mas, apenas em março deste ano, os itens foram entregues aos alunos da escola Lúcia Helena Viana, com o esforço do Grêmio.

Segundo a gestão da escola, o atraso para a distribuição dos absorventes se deu por conta do processo de reorganização do retorno presencial e da mudança de direção escolar, que demandou atenção a outros assuntos internos.

Em maio, O MyTeam realizou uma pesquisa de sala a sala para avaliar a realização do projeto no ambiente escolar. De forma anônima, 58 alunos responderam a consulta, que tinha como um dos objetivos definir os espaços para depositar os absorventes íntimos.

Veja algumas respostas da pesquisa:

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O resultado confirmou a importância de disponibilização dos itens também no banheiro masculino para atender às pessoas trans, não-binárias e de gênero fluido. Hoje, os banheiros femininos e masculinos recebem o abastecimento semanal.

Para Melina Coelho, 21, estudante de direito e fundadora da ONG Deixa Fluir, que luta contra a pobreza menstrual e em prol da saúde reprodutiva, o problema vai além das questões financeiras.

“Sofrer com pobreza menstrual não é só você não ter acesso ao absorvente. É você não ter acesso à informação, é você não ter acesso à saúde ginecológica, seja pela ausência de médicos ou por não conseguir comprar remédios para lidar com transtornos ligados à menstruação; falta de ambientes limpos e seguros para a realização da higiene menstrual”, pontua Melina.

Para ela, a escola tem um papel importante no cuidado da saúde dos seus alunos. “É fundamental que a educação sexual e reprodutiva seja efetivamente introduzida. E cada vez mais cedo. Afinal, as meninas estão menstruando cada vez mais cedo, mas não recebem informações sobre a menstruação nem em casa, nem nas escolas”.

E acrescenta: “A escola deve ainda ser espaço de cuidado ao poder prover absorventes, remédios para cólica e, sobretudo, compreensão e atenção para aqueles que menstruam, em especial para a população trans”, avalia Melina.

Na escola Lúcia Helena Viana Ribeiro, o MyTeam prevê em seus próximos passos a realização de novos eventos. A ideia é promover discussões e levar mais informações sobre questões de gênero e sexualidade, ressaltando e interligando temas como saúde, cidadania e autonomia em sociedade.

Por Lívia Nogueira, de Horizonte, no Ceará

Essa reportagem foi produzida por um dos estudantes universitários do Ceará participantes do “Acontece nas Escolas”, programa de bolsas de jornalismo da Agência Mural em parceria com o Instituto Unibanco. A iniciativa faz parte do Clube Mural, nossa área de treinamento e laboratório de prática e experimentos em jornalismo local e das periferias.

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