APOIE A AGÊNCIA MURAL

Colabore com o nosso jornalismo independente feito pelas e para as periferias.

DOE MENSALMENTE PELO CATARSE

OU

MANDE UM PIX qrcode

Escaneie o qr code ou use a Chave pix:

30.200.721/0001-06

Agência de Jornalismo das periferias

Por: Evelyn Fagundes

Notícia

Publicado em 23.06.2022 | 14:03 | Alterado em 27.06.2022 | 11:33

Motivados a resgatar a história de construção e resistência de uma comunidade localizada na região do Pimentas, em Guarulhos, na Grande São Paulo, moradores começaram a desenvolver o “Museu Comunitário do Jardim Vermelhão”, bairro que completa 30 anos em 2022.

Por conta da pandemia de Covid-19, o projeto iniciado em 2019 só saiu do papel no final de 2021, mas a partir de então teve itinerário com exposições que trazem depoimentos da população sobre a luta por habitação, acesso à água e energia elétrica. Também aborda como a força coletiva virou uma estratégia para a conquista de direitos.

“A gente percebeu que os moradores tinham um grande anseio de contar a história de luta deles”, conta a idealizadora da exposição Suzy Santos, 37, moradora do Jardim Vermelhão há 10 anos e mestre em museologia. “E queríamos evidenciar que as nossas tradições culturais estão vivas nas pessoas que aqui habitam, no nosso território.”

Para ela, o conceito do museu não apenas se caracteriza pelo espaço expositivo, mas pela história viva presente em cada depoimento. A exposição conta com relatos escritos e imagens que dão voz à história de formação do bairro, às lutas contra as reintegrações de posse e às conquistas por direitos habitacionais.

Suzy Santos é museóloga e idealizadora do museu comunitário @Arquivo Pessoal

Quando era tudo barro

As ocupações no bairro começaram em 1992, inicialmente com oito famílias, sendo a maioria delas formada por migrantes do Nordeste do país.

Naquela época, a região tinha característica rural, mas, com a alta demanda por moradia, o loteamento foi se urbanizando. “Com o crescimento desordenado, Guarulhos virou uma cidade extremamente periférica. Mudou de rural para extrema periferia”, afirma Rosildo Santos, 45, baiano que chegou no bairro em 1995 e foi o 1º presidente da Associação de Moradores do Vermelhão.

“Era preciso ter o Estado ali para criar alguma política para regular as moradias, porque se despeja o Vermelhão, ia ter que despejar metade da cidade de Guarulhos”

Rosildo Santos

A ocupação passou por diversas tentativas de reintegração de posse, sendo o movimento de 2007 o de maior impacto para André Marcos, que chegou no Vermelhão em 2002. “Veio aqui a tropa de choque, cachorro e as máquinas e derrubaram as casas. Foram 22 moradias, 22 famílias que ficaram sem moradia”.

São essas as histórias trazidas no museu. Apesar do começo do trabalho em 2019, a ação está dentro de um outro trabalho, o “Pimenteiras e Pimenteiros do Vermelhão”, projeto que nasceu em 2012 em parceria com a Associação Comunitária do Jardim Vermelhão.

Imagens da região dos ‘pés de barro’ como era o apelido por conta da falta de pavimentação @Evelyn Fagundes/Agência Mural

Os “Pimenteiros” realizam atividades socioeducacionais voltadas para crianças e adolescentes, como rodas de capoeira, campeonatos de karatê, palestras, contação de histórias, passeios e oficinas de artesanato ecológico.

A produção do museu contou com a presença tanto dos residentes mais antigos do bairro, quanto dos mais jovens. “A ideia era provocar e impulsionar os mais jovens a verem como são feitos os processos museológicos, a tomarem as decisões, aprenderem e utilizarem a criatividade deles”, diz Suzy.

Não à toa, o filho da museóloga, Gustavo Silva, se criou envolvido com os projetos da mãe e do padrasto, Marco Cesar, 42, que dava aula de karatê logo nos primeiros anos da iniciativa. Hoje, aos 21 anos, Gustavo é fotógrafo e mediador das exposições itinerantes do museu.

“Muitos jovens tinham parentes que participaram da luta por moradia do bairro, mas não sabiam. Quando uma das jovens viu o avô na exposição, ela se assustou, nem fazia ideia de que ele foi presidente da associação e tinha ajudado o bairro a se levantar”, contou Gustavo.

Museu trabalha com depoimentos de moradores e imagens da busca por direitos na década de 1990 e 2000 @Evelyn Fagundes/Agência Mural

Entre os objetivos do museu está fortalecer a identidade dos moradores com o bairro e o sentimento de pertencimento.

Os voluntários também organizaram o documentário “Revelando Guarulhos: Memórias do Jardim Vermelhão”, gravado em 2019, para contar a história do bairro pela ótica dos moradores que estiveram ativamente ligados com a formação da região.

O filme foi transmitido ao final de cada exposição itinerante e em breve estará disponível para visualização no Youtube.

O documentário foi apresentado para os moradores e também para os jovens da Fundação Casa Guayi, em Guarulhos. “Para os jovens deu uma sensação de autoestima, sabe? Eles conheciam o bairro por conta dos bailes funk, mas ficaram interessados pela história do bairro, de como foi formado”, completou a museóloga.

Um dos depoimentos do filme e presente na exposição é o de Adauto dos Santos, 47, morador que chegou ao Jardim Vermelhão em 2002 e relata que “era tudo barro, por isso se deu o nome de Vermelhão, porque é um barro vermelho”.

Contudo, Adauto e outros dois moradores: Marilene de Sousa, 61, e Francisco dos Santos, 81, não sobreviveram para acompanhar os resultados do trabalho.

Para Suzy, também é um propósito que o museu inspire mais regiões da cidade a também se reencontrarem com a própria história e desenvolverem ações similares.

“Se a gente conseguir estimular outros bairros a fazerem projetos parecidos, já vai ser ótimo porque nada melhor do que os próprios moradores para contar sobre as suas histórias”

O museu encerrou seu itinerário pelos CEUs de Guarulhos, mas está disponível para visitação na associação de moradores do bairro do Vermelhão.

Museu Comunitário do Jardim Vermelhão

Como ver a exposição: Para conferir o trabalho é preciso marcar um horário com a equipe do projeto

Contato para agendamento: (11) 97323-3669

Instagram:: @museucomunitario_jdvermelhao e @pimenteirosdovermelhao

Evelyn Fagundes

Jornalista em formação pela PUC-SP, instituição onde desenvolve sua pesquisa sobre as obras do Racionais MC's. Mãe de pet e planta, canceriana e apaixonada por música. Correspondente de Guarulhos, na Grande São Paulo, desde 2022.

Republique

A Agência Mural de Jornalismo das Periferias, uma organização sem fins lucrativos, tem como missão reduzir as lacunas de informação sobre as periferias da Grande São Paulo. Portanto queremos que nossas reportagens alcancem outras e novas audiências.

Se você quer saber como republicar nosso conteúdo, seja ele texto, foto, arte, vídeo, áudio, no seu meio, escreva pra gente.

Envie uma mensagem para [email protected]

Reportar erro

Quer informar a nossa redação sobre algum erro nesta matéria? Preencha o formulário abaixo.

Parques nas periferias Kobra: do Campo Limpo para o mundo A rua é grau Criolo: um sobrevivente em meio ao caos PrEP: você sabe o que é?