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Agência de Jornalismo das periferias

Por: André Santos

Notícia

Publicado em 15.06.2022 | 10:00 | Alterado em 21.06.2022 | 14:54

O dia do artista Robson Carlos Moura, 43, conhecido como Tiozão, começa bem cedo aos sábados. Morador do Jardim Felicidade, no distrito de Jaçanã/Tremembé, zona norte de São Paulo, ele vai até a Avenida Paulista com seus quadros dentro de caixas organizadoras, empilhadas sobre um carrinho de carga dobrável. Essa rotina se repete aos finais de semana desde 2019, quando ele decidiu viver de arte.

Para chegar ao local de exposição ele utiliza ônibus e metrô, num trajeto que leva 1h30 em média. E permanece na altura do número 1.230 da avenida por volta de 10h seguidas. Segundo o artista, a escolha do ponto não é à toa. “Escolhi a Paulista pela grande circulação de pessoas”, afirma.

Mas a quantidade de público não é o único motivo. “Estou ocupando aquele espaço que também é nosso, os impostos que a gente paga também são revertidos para manutenção daquele lugar. Então a gente também tem que usufruir”, completa ele.

Artista com dezenas de quadros na Avenida Paulista @Reprodução/Instagram

Na adolescência, Tiozão foi balconista e copeiro em uma padaria. O primeiro contato que teve com pintura foi no ramo da construção civil, em que atuou por um tempo. Ali aprendeu a técnica de stencil, com moldes vazados para desenhar com tinta spray artes sobre superfícies.

Ao pintar o quarto do filho, aplicou alguns desenhos de filmes nas paredes. O garoto gostou tanto que sugeriu ao pai que fizesse camisetas para vender. Tiozão gostou da ideia e pouco tempo depois foi às ruas vender as peças que havia produzido.

Enquanto vendia as camisetas nas ruas, um vendedor de quadros gostou do trabalho dele e o aconselhou a aplicar aqueles stencils em telas, mudando mais uma vez a superfície de trabalho.

Referência na música e na luta

“Nunca tive contato com arte! Quando recebi a dica fui pesquisar o trampo de pintura sobre tela e vi que era um trabalho muito elitista, tanto para quem consome quanto para quem faz”, diz.

Foi então que teve a ideia de retratar seus ídolos do rap e todas as referências que a música lhe trazia, e fincou de vez os pés nas ruas da capital paulista com arte.

Entre os nomes retratados por Tiozão estão Emicida, Mano Brown, Liniker, Elza Soares, incluindo intelectuais negras como Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, Lélia Gonzalez e Conceição Evaristo. Personalidades internacionais também aparecem nas telas: Malcolm X, Frantz Fanon, Nina Simone, entre outros.

Elza Soares @Reprodução/Instagram

Sueli Carneiro @Reprodução/Instagram

Emicida @Reprodução/Instagram

Mano Brown @Reprodução/Instagram

Malcolm X @Reprodução/Instagram

“A música me inspira muito dentro do meu trabalho e as pessoas que fazem essa frente de luta, que optam por trazer para sua vida e para o seu trabalho uma forma de estar lutando por uma [melhor] condição social.”

Artistas de rua

Segundo o Sated (Sindicato dos Artistas e Técnicos de Espetáculos e Diversões do Estado de São Paulo) não existe um levantamento sobre o número de artistas de rua hoje na cidade, mas no site da instituição tem um Guia do Artista de Rua, que orienta o profissional que deseja levar ao público alguma manifestação artística.

Tiozão diz nunca ter enfrentado problemas para expor as obras na Avenida Paulista. Segundo ele, os únicos que parecem se incomodar com os artistas são os moradores dali. “É visível que eles não gostam muito da gente naquele espaço.”

Desde maio de 2013, São Paulo conta com uma lei (15.776) que garante ao artista de rua a livre exposição de seu trabalho.

A legislação municipal define a arte de rua como “atividades culturais de artistas de rua, dentre outras, o teatro, a dança individual ou em grupo, a capoeira, a mímica, as artes plásticas, o malabarismo ou outra atividade circense, a música, o folclore, a literatura e a poesia declamada ou em exposição física das obras”.

O pintor do Jardim Felicidade se insere nas artes plásticas. Suas telas, aliás, são produzidas com uma mistura de técnicas que envolve pincel, stencil e aerógrafo (uma pequena pistola de ar).

Toda essa produção é concentrada nos dias da semana, das 8h às 18h. O único tempo de descanso é na segunda-feira de tarde quando volta das compras dos materiais.

“É uma rotina como a de qualquer trabalhador. Não é uma rotina tida como a de um artista que está no imaginário das pessoas. Minha vida é basicamente como a de qualquer pai de família”

As redes sociais são fortes aliadas da divulgação do trabalho. Por lá é possível ver o artista em contato com algumas das personalidades que ele retratou, como por exemplo a vereadora Erika Hilton, a deputada estadual Erica Malunguinho, o poeta Sérgio Vaz, o DJ KL jay, entre outros.

Tiozão com o poeta Sério Vaz, segurando seu retrato @Reprodução/Instagram

Tiozão também utiliza as redes para relatar problemas que encontra na quebrada em que vive. Uma vez, o lixo acumulado nas calçadas foi tema de algumas publicações do artista. “Existe esse descaso com a periferia por parte das autoridades”, desabafa.

Embora reconheça os problemas do bairro, o artista não esconde o afeto que tem pela quebrada. “Meu laço com a periferia é muito forte, eu sentiria muita dificuldade se um dia eu tiver que sair daqui.”

E deixa explícita a posição quanto a mudar para um lugar considerado melhor: “Não quero ir pra um lugar melhor, quero que a periferia se torne um lugar melhor pra nós, que vivemos nela.”

Perguntado sobre como é viver de arte, ele afirma que não vive, mas sim “sobrevive da arte”. A intenção dele, no momento, é impactar o maior número de pessoas possíveis com as obras.

“Trabalho com referências, então, quanto mais pessoas eu alcançar, acredito que minha arte possa servir de inspiração para sua luta diária”, comenta.

Enquanto artista periférico, seu desejo é que mais artistas das quebradas tenham o trabalho reconhecido.

“Estamos lutando para que um dia a gente possa ter as mesmas oportunidades, que a gente não fique preso às limitações que nos foram impostas”

O apelido Tiozão, dado pelos amigos, serve de assinatura para os seus trabalhos, mas o artista justifica a escolha para além do gesto afetivo. E se engana quem pensa que ele romantiza o ofício. “[Tiozão] não é ninguém, é só um cara que vende quadros nas ruas”, finaliza.

André Santos

Jornalista, entusiasta do carnaval, do futebol de várzea, de bares e cultivador assíduo da sua baianidade nagô! Correspondente do Jardim Fontalis desde 2017.

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