APOIE A AGÊNCIA MURAL

Colabore com o nosso jornalismo independente feito pelas e para as periferias.

OU

MANDE UM PIX qrcode

Escaneie o qr code ou use a Chave pix:

[email protected]

Agência de Jornalismo das periferias

Por: Isabela do Carmo

Notícia

Publicado em 09.11.2023 | 16:37 | Alterado em 14.11.2023 | 10:56

Tempo de leitura: 4 min(s)

PUBLICIDADE

Quando Israel Jesus da Silva, 45, chegou a Heliópolis aos oito anos, a lembrança era de uma vida complicada. “Tinha rua sem asfalto, esgoto a céu aberto. Onde eu morava, no fundo da casa, passava um córrego”, relembra. Para comprar coisas, só se caminhasse até 1 km para encontrar um comércio fora da comunidade. Mais de 30 anos depois, ele vê ainda muitos problemas, mas uma outra favela em andamento.

Em 4 de novembro é lembrado o Dia das Favelas e a Agência Mural publicou um especial mostrando como elas fazem parte da cidade e estão presentes na maioria dos distritos.

Mas mais do que regiões onde há dificuldades para moradia e falta de acesso ao poder público, algumas dessas favelas se tornaram bairros gigantes com pessoas que há décadas buscam transformar essas realidades. Uma delas é Heliópolis, considerada a maior da cidade, localizada na zona sul.

É onde mora Israel, mais conhecido como Badega. Jornalista, locutor e diretor da Rádio Comunitária Heliópolis, ele chegou ao estado de São Paulo aos 2 anos de idade, na década de 1980. Veio, junto com a família, de Itapetinga, município do interior da Bahia, pertencente à região do centro-sul baiano.

Antes de ir parar na maior favela de São Paulo, Badega morou dos 2 aos 8 anos em São João Clímaco, bairro vizinho de Heliópolis, também na capital paulista.

Devido às más condições financeiras, mudou-se aos 8 anos, com a família, para Heliópolis. Desde então, entre idas e vindas, coleciona aproximadamente 37 anos morando e trabalhando na região.

Região passou a ter casas mais altas, aponta Badega @Léu Britto/Agência Mural

Embora os problemas de direito à cidade sejam urgentes em Heliópolis, Badega ressalta um outro ponto de vista sobre como é estar há tantas décadas na comunidade: a união para tentar resolver os problemas.

“Tínhamos a perspectiva de um ajudar ao outro, em uma época que não tinha saneamento básico e rua asfaltada. Mas, mesmo assim, era um lugar bom de se viver [justamente pelo senso de coletividade entre a vizinhança].

Para ele, a transformação mais significativa que Heliópolis vivenciou, foi deixar de ser um bairro completamente plano e tomado por barracos de madeira, para ser um território amplamente influenciado pelo processo de verticalização de moradias, tanto em puxadinhos feitos por moradores quanto pela chegada de apartamentos.

“Mudou a geografia daqui, hoje Heliópolis vem crescendo em uma dinâmica de prédios, vem sendo construído vários ‘prédinhos’ dentro da comunidade”, relata.

Obra do novo parque linear é uma das intervenções em andamento em Heliópolis @Léu Britto/Agência Mural

Além disso, moradores também abriram negócios dentro e nas redondezas da favela. “Antes só encontrava área de comércios em 1 km de distância da favela”, relembra. “Hoje são vários comércios dentro de Heliópolis. Antes não tinha esses locais por conta da infraestrutura e pela discrimininação social”, diz.

Surgimento de Helipa

Segundo a Unas (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região) – o território onde é chamado de Heliópolis foi adquirido em 1942 pelo IAPI (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários) do Conde Sílvio Álvares Penteado e demais integrantes.

No entanto, no ano de 1966, devido a unificação de diversas organizações do INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), esse espaço foi direcionado ao Iapas (Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social).

Três anos depois, o Iapas construiu o Hospital Heliópolis e o PAM (Posto de Assistência Médica) – atualmente intitulado como AME Barradas (Assistência Médica Especializada). Foram trabalhadores da construção dessas novas obras, em especial vindos do Nordeste, parte da população que passaria a ocupar o território.

Heliópolis possui cerca de 200 mil habitantes e 1 milhão de metros quadrados @Douglas Cavalcante

Eles começaram a construir barracos de madeiras e moradias irregulares por todo o território do Helipa, em um momento que a região já recebia alojamentos provisórios para populações que viviam em outras favelas.

Entre 1971 e 1972, a Prefeitura de São Paulo retira cerca de 153 famílias que viviam em áreas ocupadas na favela da Vila Prudente e Vergueiro, e as direcionaram em alojamentos provisórios no terreno até então do Iapas, no caso, terreno esse intitulado por Heliópolis.

Essas moradias temporárias tornaram-se permanentes, fazendo com que as famílias desabrigadas das favelas da Vila Prudente e Vergueiro tivessem que permanecer ali.

Desde então, Heliópolis, foi crescendo de tornou a maior favela de São Paulo. Atualmente possui cerca de 200 mil habitantes e 1 milhão de metros quadrados.

Nessas décadas, o território já passou por disputas entre grileiros, ocupações por terras e mobilizações coletivas em prol da construção de um bairro melhor nos âmbito da educação, saúde e infraestrutura.

Região passou a ter mais comércios @Ira Romão/Agência Mural

Segundo Badega, ainda há alguns tópicos a serem melhorados na comunidade em termos de políticas públicas e direito à cidade.

“Falta em Heliópolis lazer e um espaço mais amplo dentro da comunidade, mais praças”, avalia o comunicador.

‘Hoje em dia isso não tem, é tudo muito aglomerado de casas. Falta uma quadra de esportes, um espaço público pra galera estar lá a qualquer hora do dia e da noite’

Sem essas opções, é comum que jovens do bairro se mobilizem nas noites de sexta-feira, sábado e domingo em ruas da região, como a Coronel Silva Castro e Adriana, onde há bailes de dois tipos de gêneros musicais: funk e forró. Dividindo a opinião dos moradores de Heliópolis, é certo que os bailes já viraram marca registrada da maior favela de São Paulo.

Além disso, Badega aponta que um problema com o qual convive desde os primeiros dias na região ainda não foram sanados. Ele que viveu próximo a um córrego aponta que ainda há muitos deles para serem canalizados na cidade.

“Falta ainda solucionar o problema de saneamento básico em Heliópolis, ainda têm córregos que não foram canalizados, têm [famílias que ainda sofrem] com problemas de chuvas e enchentes [dentro da favela].”

PUBLICIDADE

receba o melhor da mural no seu e-mail

Isabela do Carmo

Graduanda em jornalismo pela UAM, com bolsa integral pelo ProUni. Atua na produção de reportagens com foco em diversidade e inclusão, cidadania e direito à cidade. É correspondente do Heliópolis desde 2023.

Republique

A Agência Mural de Jornalismo das Periferias, uma organização sem fins lucrativos, tem como missão reduzir as lacunas de informação sobre as periferias da Grande São Paulo. Portanto queremos que nossas reportagens alcancem outras e novas audiências.

Se você quer saber como republicar nosso conteúdo, seja ele texto, foto, arte, vídeo, áudio, no seu meio, escreva pra gente.

Envie uma mensagem para [email protected]

Reportar erro

Quer informar a nossa redação sobre algum erro nesta matéria? Preencha o formulário abaixo.

PUBLICIDADE