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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Estela Aguiar | André Santos Simões

Notícia

Publicado em 16.09.2022 | 17:41 | Alterado em 16.09.2022 | 17:41

Tempo de leitura: 5 min(s)

“Nosso trabalho necessita que todos participem e, devido a uma minoria, fica complicado concluir todo o processo”, relata Carolina Cristiane, 28, recenseadora do Censo Demográfico 2022, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Ela atua no Jardim São Luís, periferia da zona sul de São Paulo, onde vai de porta em porta entrevistando os moradores.

Desde o dia 1º de agosto, a coleta de dados para o Censo teve início nos 5.570 municípios brasileiros e ainda está em fase inicial no estado de São Paulo. Realizado a cada 10 anos (com atraso de dois anos devido à pandemia de Covid-19 e cortes no orçamento), a pesquisa garante traçar um retrato socioeconômico do país.

Além do tamanho da população, há perguntas sobre sexo, cor ou raça, idade, religião, escolaridade, renda, saneamento básico da moradia e outras informações. Entretanto, os recenseadores que aplicam a pesquisa estão encontrando dificuldades de realizar o processo, tanto pela desconfiança por parte dos moradores, quanto pelo não atendimento aos profissionais.

“Alguns são muito difíceis de encontrar e, quando estão em casa, são os ‘moradores fantasmas’, ou seja, estão em casa, porém não nos atendem”

Carolina Cristiane, recenseadora

O relato é compartilhado por Deise Avante, 47, recenseadora na Vila Sônia, bairro do Butantã, na zona oeste da capital paulista. Ela elenca a falta de tempo e de informação como fatores que colaboram com uma coleta mais lenta e imprecisa, apesar do índice de recusas no setor onde ela trabalha ser baixo.

“O principal problema é esse: as pessoas não sabem qual é a missão do IBGE e do Censo, que é retratar as reais condições do Brasil”, comenta.

Em prédios e condomínios, a dificuldade para a aplicação dos questionários é ainda maior, visto que há resistência por parte de síndicos e residentes em permitir o acesso às áreas comuns. Os pesquisadores ouvidos pela Agência Mural têm a média de 15 entrevistas feitas por dia, em cerca de 30 tentativas.

O entrevistado pode responder a um dos dois tipos de questionário, o que ocorre de forma aleatória, escolhido pelo próprio sistema. O básico leva, em média, 5 minutos para ser concluído e têm 26 perguntas; e o de amostra, mais detalhado, leva cerca de 10 minutos por morador do domicílio e contempla 77 perguntas.

Qual a importância do Censo

A agente censitária supervisora Giovanna Maria, 23, coordena e auxilia os recenseadores na região de Itaquera, na zona leste de São Paulo. Ela diz que a pesquisa do Censo tem como objetivo identificar as principais demandas de cada área.

Há dois tipos de entrevistas para o Censo Demográfico do IBGE @Tânia Rêgo/Agência Brasil

Ela cita, por exemplo, o “Posto 2” de Itaquera, onde existe uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento). Esse posto é o único para uma área com 134 setores censitários, cada um com mais de 350 domicílios, além das comunidades, que recebem o nome de aglomerados subnormais.

“Tem lugar que não tem muita UBS [Unidade Básica de Saúde], ou a que tem, por exemplo, não tem muito médico geriatra. Mas naquela determinada área pode ter muitas pessoas acima de 69 anos”, explica a supervisora.

“Então o poder público tem que tratar, como política pública, de abrir vagas para geriatras. Se houver muitas crianças, abrir vagas para pediatras, e por aí vai”, complementa.

As informações coletadas também servem de base para implementação de políticas públicas a nível municipal, estadual e federal, delimitando um público-alvo. Como, por exemplo, entender qual é a população de risco para campanhas de vacinação, além do manuseio de verbas públicas para programas sociais em cada cidade ou estado.

“Para fazermos uma boa pesquisa, não podemos fechar um setor censitário de 400 domicílios com um alto número de ausências ou recusas, porque aí a margem de erro fica muito alta”, comenta Giovanna.

Ausências e recusas de moradores

Segundo os recenseadores, outra dificuldade para a participação dos moradores é a desconfiança quanto à neutralidade da coleta de dados. Keytti Sgarbi, 25, que também trabalha em Itaquera, relata que as recusas na região têm ocorrido por receio da pesquisa ser envolvida com política.

“Recusam por não gostarem de passar os dados, por não quererem colaborar com o governo, mesmo a gente falando que não tem relação com partidos políticos”

Keytti Sgarbi, recenseadora

Em um dos setores censitários do distrito houve a taxa de adesão de apenas 71,2% dos moradores. Foram 225 entrevistas, 79 ausências e 12 recusas, totalizando 316 residências. Em outro setor da mesma região, foram 171 entrevistas, 11 ausências e 31 recusas, totalizando 213 residências com taxa de participação de 80,2%.

Giovanna Maria comenta que as pessoas também se mostram receosas em perder o direito a programas de assistência social do governo.

“Caem questões do rendimento bruto mensal recebido pelo responsável pelo domicílio, sendo qualquer rendimento, como aposentadoria ou Auxílio Brasil”, explica. “O IBGE é um órgão federal e isso aumenta a resistência deles.”

Pela dificuldade em obter as respostas, o IBGE está usando como ferramenta a lei nº 5.534, de 1968, que diz sobre a obrigatoriedade de prestação de informações estatísticas e dá outras providências. Para os moradores que descumprirem a norma, será aplicado uma multa de 10 salários mínimos.

Cortes no orçamento

Para o Censo 2022, o IBGE conta com orçamento de R$ 2,3 bilhões. Em 2021, o trabalho foi travado devido a um corte orçamentário de 96% (de R$ 2 bilhões para cerca de R$ 50 milhões) na verba prevista pelo governo federal. A aprovação dos atuais recursos só foi possível após o STF (Supremo Tribunal Federal) ser acionado.

Para Giovanna, todo o trâmite impactou negativamente o trabalho, desde a divulgação de vagas para agentes censitários até a qualidade do treinamento e dos equipamentos utilizados, como coletes, DMC (Dispositivo Móvel de Coleta) e mapas dos setores.

“A pesquisa foi adiada e o primeiro edital foi cancelado, então a captação de recenseadores foi muito baixa”

Giovanna Maria, agente censitária supervisora

Além disso, com as recusas dos moradores, os recenseadores deixam de receber o pagamento, uma vez que ganham por produção e, por vezes, optam por desistir de atuar na função. Até o final de agosto, ao menos 6,5 mil agentes desistiram do cargo, segundo informações do próprio Instituto.

A reportagem entrou em contato com o IBGE, mas não obteve resposta até o fechamento da reportagem.

Colete, crachá e celular são itens que os agentes do IBGE carregam durante o trabalho @Helena Pontes/Agência IBGE Notícias

Identifique um recenseador 

Os recenseadores estarão sempre com o uniforme, com o colete, boné, crachá e o Dispositivo Móvel de Coleta, o celular adaptado usado para a pesquisa. No uniforme, é possível identificar o nome completo do profissional e um QR Code para confirmar a leitura no momento das perguntas, além de ser possível confirmar a identidade do agente pelo site do IBGE ou no telefone 0800 721 8181.

Estela Aguiar

Jornalista. É fiel à crença de que da ponte pra cá, o jornalismo é revolucionário. Apaixonada por carnaval, filmes e séries. Correspondente do Jardim João XXIII desde 2019

André Santos Simões

Jornalista, 23 anos. Formado pela Universidade Anhembi Morumbi e em busca de um amanhã melhor. Rap, arte, futebol, cultura e política. Correspondente de Artur Alvim desde 2022.

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