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Agência de Jornalismo das periferias

Por: Cleberson Santos | Estela Aguiar | Mateus Fernandes

Notícia

Publicado em 12.09.2022 | 8:17 | Alterado em 14.09.2022 | 10:13

Tempo de leitura: 5 min(s)

No dia 1º de dezembro de 2019, nove jovens foram mortos em uma ação policial no Baile da DZ7, em Paraisópolis, zona sul de São Paulo. O fato gerou comoção e revolta entre os moradores, fazendo com que o governo do Estado, então liderado por João Doria (PSDB), anunciasse investimentos para a segunda maior favela da capital paulista.

Para quem vive os bailes em capital paulista, todas as promessas, que envolviam desde a criação de um festival para o funk até a inauguração de uma Fábrica de Cultura, foram insuficientes e não resolviam a forma como o funk era tratado pela Polícia Militar e visto por parte da sociedade.

Vitor Augusto, 20, conhecido como MC Vitin da DZ7, estava no baile que hoje carrega em seu nome artístico, no dia da ação policial: “A gente estava ‘embrazando’ no baile, e não sabíamos o que tinha ocorrido naquela noite. Só lembro da minha mãe me ligando, com medo se eu estaria vivo ou não”, conta.

MC Vitin da DZ7 é cria de Paraisópolis @Mateus Fernandes/Agência Mural

MC Vitin da DZ7, que é de Paraisópolis, está no funk desde 2015 e hoje conta com mais de 400 mil players mensais no Spotify. Membro do Clube da DZ7, uma das principais produtoras musicais da comunidade, o ex-morador de ocupações agora vive exclusivamente da música.

“Minha educação veio do funk, ninguém acreditava em mim, o Estado me lia como marginal. Além de um estilo musical, o funk me motiva a continuar”

MC Vitin da DZ7

Essa ligação do funk com a marginalidade não é algo recente, como explica a ex-aluna de administração pública Thaynah Gutierrez, 23. “Não acho que o governo do estado do PSDB, que governou São Paulo até o presente momento, cuidou do funk como política pública cultural.”

Thaynah, que mora em Ermelino Matarazzo, na zona leste da capital, hoje é assessora de projetos na Conectas Direitos Humanos. Ela estudou o funk consciente no trabalho de conclusão de curso da faculdade e ainda está envolvida com o movimento, seja por meio do apoio ao coletivo Nebulosa Selo ou como frequentadora dos bailes.

Pensando como alguém que estudou a administração pública, Thaynah comenta que o funk tem dificuldade em se articular coletivamente, o que acaba sendo um problema para cobrar por ações. Contudo, pondera que a gestão estadual poderia ter incentivado editais públicos para que os movimentos pudessem se submeter.

“Não houve esse diálogo, conectando os espaços que a gente ocupa enquanto funkeiro no estado de São Paulo numa perspectiva de políticas culturais”, diz.

“A gente só recebe atenção do estado quando é a partir da segurança pública.”

Thaynã Gutierrez, de Ermelino Matarazzo

Em dezembro de 2019, dias após a morte dos jovens, João Doria anunciou o Favela Fest, um festival de funk que seria realizado no Memorial da América Latina. A ideia era tentar criar um espaço, fora dos bairros, para conciliar com a parcela da população que reclama do barulho realizado pelas festas nas noites dos bairros.

Por conta da pandemia de Covid-19, entretanto, o projeto não saiu do papel. Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, os esforços para esse evento foram direcionados ao desenvolvimento do Museu das Favelas, que será inaugurado em novembro no Palácio dos Campos Elíseos, na região central da capital.

“Um festival não vai responder a necessidade que a gente tem de tirar um lazer todo o fim de semana, isso é cultural do funk”, afirma Thaynah. “Não tem como impedir um movimento que já está assim há tantos anos, desde que os bailes funks começaram a estar presentes na cidade de São Paulo e nos arredores.”

MC Vigarista defende que o poder público veja a força desse movimento @Mateus Fernandes/Agência Mural

“Projeto Comunidade”

Além do Favela Fest, o Governo do Estado, em parceria com a Prefeitura de São Paulo, havia anunciado em 2019 um pacote de investimentos chamado “Projeto Comunidade”, que contaria com R$ 250 milhões em obras para as regiões de Paraisópolis e Heliópolis, maior favela da capital.

Na área de lazer, cultura e esportes para Paraisópolis, havia a promessa da entrega de três pistas de skate, implantação de duas quadras de futebol society e a abertura de uma Fábrica de Cultura.

Parte desses investimentos foram entregues por meio da Praça da Cidadania, inaugurada em dezembro de 2020. Além de uma pista de skate e uma quadra society, o espaço conta com parquinho para as crianças e uma escola de qualificação profissional.

Há a previsão de um espaço semelhante em Heliópolis, o Parque da Cidadania, onde deve ser implantado mais uma unidade da Fábrica de Cultura.

O “Projeto Comunidade” contava também com a inauguração do Parque Paraisópolis, entregue em setembro de 2021, e a entrada das duas favelas na programação da Virada Cultural. Realizada novamente em 2022, no entanto, o evento não contou com estes palcos prometidos.

Moradora de Jandira, na Grande São Paulo, Kleine diz que apoiar o funk ajuda a contar a nossa própria história @Mateus Fernandes/Agência Mural

De olho nos candidatos

O funk é citado no plano de apenas um dos 10 candidatos ao Governo do Estado. Fernando Haddad (PT), cita o Funk quatro vezes, incluindo a promessa do apoio ao ritmo como “manifestação cultural”.

Entre os outros líderes nas pesquisas eleitorais, Tarcísio Freitas (Republicanos), não traz o funk entre as propostas para a cultura. O atual governador do estado, Rodrigo Garcia (PSDB), cita o fomento à cultura popular e tradicional, mas não inclui o funk de forma específica.

Atenta às candidaturas e propostas para a promoção de lazer e fomento da cultura, Kleine Aparecida, 20, aluna de relações públicas e frequentadora de bailes na região de Jandira, na Grande São Paulo, quer que o próximo governador olhe o funk para além da ferramenta de campanha eleitoral.

“Precisamos de espaço, investimento e conscientização da nossa própria história, que constantemente vem sendo apagada ou contada por pessoas que nos tratam como algoz.”

Para ela, o próximo governador precisa investir em “eventos descentralizados que conversem diretamente com a periferia”, e frisa que o Estado precisa reconhecer a relevância do funk. “Que promova eventos dentro das quebradas e assegurar que esteja abrangendo todos”.

MC Vigarista tem 4 milhões de visualizações no Youtube @Mateus Fernandes/Agência Mural

Enquanto não há propostas, meninos e meninas que sonham em viver do funk têm criado os próprios caminhos. Edson Souza, 24, conhecido como Mc Vigarista e, assim como Vitin, membro da Clube da DZ7 é um exemplo disso.

“Os políticos precisam ver a importância desse movimento e espero que os [próximos] olhem para cultura de favela, sem violência, e mais respeito”

MC Vigarista

O funkeiro com mais de 4 milhões de views no YouTube e mais de 200 mil ouvintes mensais em streamings, conta que por conta do trabalho conquistou o que para muitos moradores das periferias é um sonho quase que distante, o da casa própria. “Graças ao funk eu conquistei meu primeiro apartamento, mudei minha vida.” conta.

De forma independente, produtores culturais criam espaços próprios para promoção da cultura funkeira. Lenon Farias, 25, é um dos responsáveis pelo coletivo Revoada Funk, no Jardim Ibirapuera, zona sul de São Paulo.

“Revoada Funk nada mais é que a comunhão de meninos e meninas que produzem suas letras há mó cota na quebrada em um coletivo que propõe fortalecer, com a estrutura do movimento cultural, o trabalho desses artistas que muitas vezes precisam fazer os seus corres individualmente”, explica Lenon.

A iniciativa existe desde 2021 e já trabalhou com 30 MC’s de toda a capital, promovendo rodas de conversa, oficinas de passinho e batalhas. No momento, o coletivo recebeu incentivo financeiro por meio do Programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), e está no processo de lançar dois artistas e um documentário sobre a trajetória do projeto.

“Construindo o Revoada, entendemos que esses recursos escassos e essas faltas de investimentos influenciam até em como os MC’s, produtores e produtoras, DJ’s se relacionam”, comenta.

Kleine, a estudante de RP de Jandira, diz que muito além de diversão e lazer, o funk possibilita novos caminhos para quem é das periferias. “Ele permite com que muitos jovens nas periferias sonhem com uma vida melhor, longe da pobreza e da violência.”

Cleberson Santos

Jornalista, não sabe chutar uma bola direito, mas se aventura no jornalismo esportivo há alguns anos, e também já escreveu sobre tecnologia e impacto social. Ama playlists aleatórias e tenta ser nerd, apesar das visitas ao Netflix estarem cada vez mais raras. Correspondente do Capão Redondo desde 2019.

Estela Aguiar

Jornalista. É fiel à crença de que da ponte pra cá, o jornalismo é revolucionário. Apaixonada por carnaval, filmes e séries. Correspondente do Jardim João XXIII desde 2019

Mateus Fernandes

Favelado metido a palestrante, contrariando as estatísticas por aí! Graduando em Psicologia pela Universidade São Judas Tadeu. Coordenador do Cursinho Popular Cora Coralina. TEDx Speaker de GRU/SP. Apaixonado pelo rap e o funk. Correspondente de Guarulhos desde 2021.

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